O mundo de Paulo Barros e a escola

Claudia Nunes

Quando só se pensa como sempre se pensou, só se vai manter o que sempre se manteve - as mesmas velhas ideias.
Michael Michalko, um dos mais importantes treinadores da criatividade nos EUA

Sem sombra de dúvida, as formas de pensar mudaram. Se elas ficaram mais velozes, mais superficiais, mais simples, mais incompreensíveis, mais dinâmicas, não sabemos ao certo, mas elas mudaram – e essa mudança vem mudando as dinâmicas da sociedade, quiçá da escola. Nesse viés, as práticas de ensino estão precisando de upgrades urgentes. Sei que muitos já falaram sobre isso, há pelo menos uns 10 anos se fala sobre isso, mas ainda assim é perceptível a forte resistência de todos, todos mesmo, quanto à consciência efetiva dessas ‘outras’ formas de pensar e suas práticas redimensionadoras dos comportamentos cognitivos, emocionais e físicos. Desta feita, há a constante necessidade de livros e livros sobre o assunto.

Só que é justamente aí o meu incômodo. Livros e livros sobre o assunto, e a velha performance do ‘aprender a aprender’ com um privilégio absurdo sobre a concepção do conhecimento. Hoje eu quero pensar, junto a você, sobre o aprender fazendo, algo importante aos cérebros aprendentes, às relações afetivas (ou não) e à chamada ‘criatividade’. E sem querer eu me defrontei com a leitura de um livro de/sobre Paulo Barros (carnavalesco) e suas formas de pensar (criar) enredos carnavalescos. Eu então parei para pensar em outra dimensão: o mundo de Paulo Barros na escola.

Há um mantra na escrita e na fala acadêmica: a geração atual (aprendentes da modernidade/nativos digitais) precisa aprender por desafios, por colaboração, através da proatividade e de forma contextualizada. Mais do que os conteúdos, é preciso criar uma ‘neuróbica’ das informações até a criação de pensamentos que solucionem atividades ou que gerem criticidades realistas e criativas. Nossa, que lindo! Só que todo docente quer saber: como? Essa é a pergunta do docente do século XX, com conhecimento do século XIX, pensando no aluno do século XXI: como? Diante de nós, a percepção da mudança das formas de pensar e agir criando dificuldades para os docentes imersos em políticas públicas pouco afeitas à valorização da Educação e do educador, por exemplo. Há o choque de sensações. Há o sentido real da obsolescência. Há grande dificuldade nas resiliências. Mas o como permanece sem sutilezas.

Somos todos inteligentes. Somos todos sensórios em processo de racionalização para sobreviver e conviver. Logo, desafiar perpassa algumas palavras-chave: curiosidade, flexibilidade, disponibilidade e, por fim, criatividade. A inteligência – capacidade de se orientar em meio a situações novas e desconhecidas, a partir, por exemplo, da curiosidade (desejo de conhecer) – é estimulada quando, segundo Sidarta Ribeiro, o cérebro é desperto à realização de atividades cujas predições criam outras neurovias comparativas contínuas em busca de soluções ou resultados. Em cena, a dopamina, neurotransmissor que se ativa imediatamente após o estímulo e a recompensa. Há o acontecimento de um processo cognitivo complexo e a neuroplasticidade, adaptação do sistema nervoso às diferentes exigências internas e externas para continuar sobrevivendo, acontece intensamente. O aprendente cria memória, aprende ‘a saber’ e sabe!

Do que estamos falando? A experiência de expressão de si para o outro ‘fora da caixa’. Estamos falando da possibilidade de experiências (projetos) fora do padrão. Estamos falando de cérebro necessitando de estímulos diferentes para também pensar diferente. Estamos falando em inaugurar criatividades. E Paulo Barros pode nos ajudar. Para começar a discussão, vamos entender o que seja essa tal ‘criatividade’.

Criatividade (do latim creatio, criação) é a capacidade de pensar produtivamente à revelia de regras; é criar coisas novas combinando de maneira inusitada o saber já disponível. Todos nós estamos à procura de uma ideia luminosa. Segundo Kraft (2004, p. 46), “desde a invenção do fogo, da roda e da imprensa, até a penicilina e a fissão nuclear, nosso desenvolvimento evolutivo só foi possível graças a um fluxo inesgotável de lampejos criativos do intelecto. E onde todas essas ideias tiveram origem? No cérebro!” É um processo psíquico, mas, além de inédita, a presença da criatividade precisa ser útil e adequada aos estímulos (atividades, projetos) propostos: prática de ensino é fonte do conhecimento de longa duração, e não engodos ou passatempos.

Mas tudo é promessa, parte de uma promessa, cujos aliados devem ser o desejo, o foco, a atenção e a prática. Nesse nosso mundo ‘diferente’, a criatividade só surge se incentivarmos ou tivermos mentes abertas, pouca autocensura (controle da cognição) e calma. Vamos acalmar o nosso córtex pré-frontal e criar pequenos desligamentos, por exemplo, das regras/certezas/aprendizados/egos/práticas de sucesso. Vamos escutar os outros e nos sensibilizar realmente. A criatividade precisa de atenção desfocada: é pensar além do próprio umbigo. Fuga do mesmo. Mais ondas alfa no córtex pré-frontal, típicas da vigília relaxada. Então, um lembrete: em geral, a criatividade não sabe trabalhar com pressão.

Não nos enganemos: em nenhuma profissão, nada deve ser encarado como um dom de realizar ações magníficas e de sucesso. Não somos Midas em tempo integral! Aprender a fazer é fazer racional e não apenas enlouquecer o imaginário ou o futuro em prol da moda inovação. Segundo Barros (2013), prestem atenção, segundo Paulo Barros,

show de estratégia e criação dependem muito de trabalho, comprometimento, sorte e [aí sim] criatividade. É fazer a diferença apesar de tudo, mas com responsabilidade, escuta e compartilhamento. É procurar soluções para o que então parecia impossível. Enfim, o que prende a atenção não são os protocolos preestabelecidos, mais sim os encantamentos.

Fato: nem só de teorias vive a educação. Educar é uma questão de humanizações constantes ao bem-estar e à convivência de qualidade em sociedade. Não há passe de mágica! Soluções inovadoras se realizam a partir do conhecimento e aprendizado, de tentativas e acúmulo de experiência em muitos contextos. Há limitações técnicas para a execução do trabalho? Há, sim. Mas também deve haver o desejo sincero de superá-las. “Talvez não encontremos respostas, mas é bem provável que encontremos novas perguntas. E podem tirar o cavalinho da chuva porque, com essas, nós teremos que nos virar, [ou seja] provocar o imprevisível, o imponderável e o inesperado” é o que deveria mover os diferentes docentes na atualidade (Barros, 2013, p. 45).

Temos que ter, como docentes, mais descontração e distância do que nos causa estresse e/ou ansiedade. Estamos dentro do processo de discernimento, ponderação, equilíbrio convergente de pensamento e emoções. “Em um momento qualquer, novas associações irrompem e o espírito criativo finalmente recebe a tão esperada recompensa: a iluminação, o conhecimento intuitivo” (Barros, 2013, p. 51),a criatividade de pensamento. Ou como afirma Paulo Barros, em um momento qualquer, devemos trocar de lugar com o outro e “buscar descobrir como ele vai se sentir, interagir, estimulando sensações que já fazem parte do cotidiano das pessoas [que] podem surpreendê-las porque se manifestam onde menos se espera” (Barros, 2013, p. 55).

Mas a falta de inventividade não é aliviada. Alguns chamam de ‘preguiça mental’; outros, de displicência, indiferença, desmotivação. Uma pena! A criatividade não é um dom dos deuses, ela precisa ser estimulada e, muitas vezes, treinada.

É preciso criar condições básicas necessárias para se aproveitar ao máximo o potencial criativo de cada um, bastando para isso mudanças na postura e nas condições circundantes que se oferecem. E o que está em questão, de início, são coisas aparentemente muito simples: curiosidade, vontade de surpreender-se, a coragem de derrubar certas muralhas intelectuais e a confiança em ser capaz (Kraft, 2004, p.46).

É preciso se automotivar para ‘pôr a mão na massa’ e, de novo, interferir e provocar os processos de mudança.

Nessa perspectiva, será que o imponderável é eliminado? Não! “Tem coisas que você não espera e acontecem e outras que você espera e não acontecem” (Barros, 2013). Logo,

propor mudanças é saber enfrentar normas estabelecidas que muitas vezes limitam o seu trabalho. É preciso conhecer as regras e usar os instrumentos do passado para construir um futuro diferente. Essa é a maior dificuldade. Uma solução diferenciada que não (fira) o regulamento, mas contorne o obstáculo imposto a ele (p. 71).

Projetos inovadores devem causar memórias de longo prazo: nunca esquecimento! “Não se conta a verdadeira história do homem só com poesia e prazer. As cicatrizes da alma são a melhor forma de proteção contra novas feridas” (Barros, 2013, p. 57). É preciso enxergar e não somente ver: este é um condicionamento para autoconhecimento e mudança da direção do olhar, e assim desvenda-se a mágica do saber viver e do saber fazer.

Segundo Barros (2013, p. 80), “o mais difícil é desligar o piloto automático de quem faz a mesma coisa há anos. Eu dependo de outras pessoas e os projetos muito diferentes esbarram em dificuldades. Eu dependo de que cada um cumpra bem o seu papel”. E, na escola, o processo de mudança é uma luta constante. As pessoas insistem num padrão por comodismo. O padrão constrói o conforto. E o conforto engessa, estatiza. Difícil remexer nessa lagoa e abrir caminho ao mar. “Qualquer processo mais elaborado, tecnicamente pensado, muda a execução. Logo muda-se a forma de construção” (p. 81). São criadas novas situações e se torna necessário dar mais elasticidade e mobilidade a esse invólucro. Difícil mudar o costume do pensamento estático (padrão) e dar movimento, outros movimentos ao fazer pedagógico, levando em consideração os novos contextos, as novas formas de pensar e as novas relações. Difícil superar o ‘tá bom assim’, ou o ‘sempre funcionou assim’, ou ainda o ‘não liga, vai funcionar de qualquer jeito’ (p. 81): eis o princípio do como com que iniciei o texto.

Como o pensamento e a ação criativos exigem trabalho e rotina, o docente deve iluminar pontos do seu conteúdo de diferentes ângulos conhecidos e desconhecidos. Soluções novas surgem da reordenação de ideias, noções e intuições existentes, como peças de um jogo de montar. É o aprender fazendo. É experimentar outros comos de forma a cotejar potencialidades silenciosas/silenciadas. Portanto, como fazer?

Siga algumas dicas para o pensamento criativo:

  • Descobrir e espantar-se com a rotina.
  • Aceitar e acreditar em momentos de inspiração.
  • Admirar-se com as diferenças, principalmente de pensamento.
  • Ter coragem e liberdade de pensamento.
  • Saber investigar.
  • Reservar tempo para sonhar acordado.
  • Ser curioso.
  • Oportunizar momento de relaxamento.
  • Fortalecer a percepção.
  • Descrever sensações e objetos de maneira incomum.
  • Entusiasmar-se com as mudanças.
  • Mudar as formas de ver e utilizar os objetos/sentimentos.
  • Ler o mundo de maneira positiva.
  • Executar tarefas em ordem não convencional.
  • Entender suas motivações.
  • Tentar se desligar de problemas/tensões.
  • Distrair-se.

Referências

BARROS, Paulo. Sem segredo: estratégia, inovação e criatividade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

CHRYSIKOU, Evangelia G. Mente criativa em ação. Criatividade: é possível exercitar a capacidade de ter boas ideias e encontrar soluções com mais facilidade. Revista Mente & Cérebro, Editora Duetto, ano XIX, nº 235, p. 30-39, agosto 2012.

KRAFT, Ulrich. Em busca do gênio da lâmpada.Inteligência e criatividade. Revista Mente & Cérebro, Editora Duetto, ano XIII, nº 142, p. 44-51, novembro 2004.

Publicado em 02 de agosto de 2016