Aula de Carnaval: possibilidades didático-pedagógicas nas aulas de Artes Cênicas

Ailza de Freitas Oliveira

Doutoranda em Educação(UFPB)

Fernando Antonio Abath Luna Cardoso Cananéa

Doutor em Educação (UFPB)

Aula de carnaval

No início de cada ano letivo, o calendário escolar se depara com o ciclo carnavalesco e a necessidade de comemorar festivamente tal momento. Por ser uma data móvel, algumas vezes ocorre logo nas primeiras semanas de aula, quando os diagnósticos iniciais das turmas ainda estão em processo de formatação e nós, educadores(as), ainda não temos o perfil do alunado para nos auxiliar na seleção de atividades a serem propostas.

Geralmente as ações oriundas dessa comemoração escolar versam sobre bailes de fantasias nos ginásios, onde as crianças participam de forma livre, com sonoplastia, figurinos e uma aparente alegria que perpassa o carnaval, expressa pelo corre-corre de um lado para o outro, sem propósito pedagógico além da socialização, oportunizando um momento similar a um recreio/intervalo prolongado.

Nosso foco não é desmerecer tais práticas, mas refletir sobre uma experiência diferente que teve como conteúdo programático o carnaval e foi desenvolvida nas aulas de Artes Cênicas numa escola da rede municipal em João Pessoa com estudantes do Ensino Fundamental II, em que os 7os anos A e B protagonizaram a experiência e as demais turmas atuaram como coadjuvantes na formação de plateia e na apreciação estética.

Possibilidades didático-pedagógicas nas aulas de Artes Cênicas

Uma tríade motivacional nos impulsionou ao envolvimento no processo de montagem desse projeto pedagógico que, agora sob forma escrita, relatamos e fundamentamos e sobre a qual refletimos tecnicamente ao produzir artigo científico acerca da prática didático-pedagógica realizada.

No início do ano letivo de 2017, estudantes dos 7os anos, empolgados pelas montagens cênicas realizadas nos anos anteriores na disciplina de Artes Cênicas, propuseram que montássemos um espetáculo sobre o carnaval. Cada um(a) já indicando com entusiasmo que personagem gostaria de interpretar, o que conduziu nossa aula de apresentação, planejada para o desenvolvimento de uma dinâmica de entrosamento, a se transformar em um debate coletivo com tempestade de ideias sobre personagens do ciclo carnavalesco e registro escrito dos personagens citados pela turma.

Associado a isso, a orientadora educacional escolar, na arrumação da biblioteca, encontrou e nos entregou alguns livros que julgava serem condizentes com nosso trabalho para fundamentação teórica e/ou coleta de ideias, entre eles Aula de Carnaval e Outros Poemas, de Ricardo Azevedo, que de imediato nos conduziu à leitura, pois chegava as nossas mãos na mesma semana em que os estudantes solicitaram montagem cênica e coreográfica sobre a temática.

A tríade – entusiasmo dos estudantes, poemas do livro e pesquisa sobre o ciclo carnavalesco – fez surgir também em nós o desejo por uma montagem cênica diferente dos bailes de fantasias, já tão saturados por seu uso anual. Dessa forma, analisando o desejo de cada participante, os personagens a serem interpretados foram surgindo e foi iniciado um debate seguido de pesquisa, sobre os blocos carnavalescos da cidade.

Estruturação dramatúrgica coletiva e significativa

Buscar sintonia entre os personagens desejados pelos estudantes, os figurinos disponíveis entre professores(as) amigos(as) e a escrita dramatúrgica do texto cênico não foi tarefa fácil, mas teve auxílio das professoras de Artes Cênicas Soraya de Souza e Lisianne Saraiva na pesquisa histórica, musical e confecção de figurinos e o auxilio da professora de Educação Física Joana de Angeles na montagem e execução da sonoplastia; tudo foi se formatando e o espetáculo nasceu, sendo regado pela motivação de cada estudante.

Escrito como literatura de cordel, o texto integra fragmentos de poemas do Ricardo Azevedo, personagens clássicos da história mundial do carnaval, danças características dos vários carnavais celebrados no Brasil, com aparição dos blocos carnavalescos da nossa cidade e da cultura popular.

A seguir está o texto elaborado e montado com apresentação no Teatro Ednaldo do Egypto no dia 22 de março às 14h, tendo como elenco 42 estudantes dos 7os anos A e B e como plateia o corpo docente e os estudantes dos 6º, 8º e 9º anos, além de familiares dos estudantes em cena.

Texto: Aula de Carnaval
Autora: Ailza Freitas, com fragmentos dos poemas Aula de Carnaval e Sonho Batuqueiro, de Ricardo Azevedo
Personagens: narradores(as), Muriçocas de Miramar, Virgens de Tambaú, Rei Momo, Cafuçu, Colombina, Pierrô, Arlequim, mascarados(as), Ala Ursa, músicos, Frevista, Sambista, Chiquinha Gonzaga e Livardo Alves

I Faixa  1: Abertura
Boa tarde, galera
Chegamos para alegrar
Vamos hoje apresentar
A cultura popular

II
Nossa aula de hoje à tarde
Bem diferente será
Dançando! Cantando! Nunca é tarde
Para aprender sem bê-á-bá

III
Carnavalesco é o ciclo
Que hoje vamos encenar
Com alegria reciclo
Temática tão milenar

IV
Vou começar pelo básico
Mais populoso que há
Em João Pessoa, Muriçoca
Faz muito mais do que picar

V
Começa lá em Miramar
E desce em direção ao mar
Foliões a conclamar
A alegria no ar

VI Faixa 2: Muriçocas de Miramar
Na aula de carnaval
A ordem é ter alegria
A norma é rir todo o dia
A regra é festa e folia

VII
Na aula de carnaval
Não tem palco nem plateia
Todo mundo brinca junto
Que ser brincante é a ideia

VIII
Na cidade de João Pessoa
Tem também irreverência
Trocando roupa de boa
Homem sai sem decadência

IX
Na aula de carnaval
Homem usa sutiã
Mulher tem bigode e barba
Criança vira anciã

X
Nas viagens de Tambaú
Meninos cheios de graça
Figurinos lá do baú
Dão o ar da graça

XI Faixa 3: Virgens de Tambaú
Na aula de carnaval
O nobre vira mendigo
O pobre nada em dinheiro
Rico e pobre é tudo amigo

XII
Na aula de carnaval
A invenção é um estudo
Criação vira exercício
Improviso é quase tudo

XIII
Vamos falar agora
De um personagem de outrora
Que nasceu pra ficar na história:
O Rei Momo, cheio de glória

XIV Faixa 4: Rei Momô
Antigamente na rua
O negócio era se melar
Não adiantava limpar
Nem tampouco reclamar

XV
Era água, lama e talco
Caindo em todo lugar
Ônibus, passarela ou asfalto
Sempre tinha alguém a jogar

XVI
Hoje em dia a brincadeira
É na avenida dançar
Escola de samba inteira
Dinheiro de muito pra arcar

XVII
Agora aqui tem um bloco
Que brega e chique por lá
No cafuçu vendo in loco
É rir até se acabar

XVIII Faixa 5: Cafuçu
Na aula de carnaval
Qualquer um é sempre o tal
Cada qual tem seu espaço
Todo mundo é maioral

XIX
Na aula de carnaval
Esperança é sempre à beça
Fim do mundo? Isso é conversa
Tudo acaba e recomeça

XX
Das histórias de amor
Colombina, Arlequim e Pierrô
Que foram da Itália a Veneza
Satirizando a nobreza

XXI Faixa 6: Colombina
Na aula de carnaval
A folia é uma pesquisa
A fantasia é uma prova
E a alegria organiza

XXII
Agora tirando a herança,
Itália, Veneza, Portugal
Que temos na lembrança
Do carnaval bem legal

XXIII
Vamos aos bailes de máscaras
Nas cortes, fantasias nas caras
E a alegria escancara
Tudo que o anonimato mascara

XXIV Faixa 7: Baile de máscaras
Cada cidade do país
Tem carnaval que refiz
Madrinha, rainha, imperatriz
Marchinha, sombrinha, atriz

XXV
Se formos ao Rio de Janeiro
Escolas de samba ano inteiro
Empresas a jorrar dinheiro
Carnaval lá tem até bicheiro

XXVI
O Brasil é muito legal
Rico em diversidade cultural
No Nordeste, ala ursa é o tal
Batucada e pedindo na geral

XXVII Faixa 8: Ala Ursa
 Na aula de carnaval
Ninguém vive numa ilha
Toda gente é como irmão
E o mundo vira família

XXVIII
Na aula de carnaval
A poesia é coisa séria
Liberdade é documento
E o sonho é sempre matéria

XXIX
Recife é o lugar do frevo
Madrugada tem galo em alto relevo
Olinda nem sei como descrevo
Pra alegria é o lugar que prescrevo

XXX Faixa 9: Frevo e samba
Agora lembrei do sambista
Aquele malandro de pista
Que vive como equilibrista
Da alegria é acionista

XXXI
Maracatu, frevo ou samba
São danças que no carnaval
Deixam qualquer perna bamba
E recebem meu aval

XXXII
Porque brincadeira sadia
Que mistura cultura e poesia
Só faz trazer alegria
E energizar nosso dia

XXXIII Faixa10: Marchinha de Chiquinha Gonzaga e Livardo Alves
Uma vez eu tive um sonho
Sonhei que dentro da escola
Os alunos já podiam
Aprender a tocar viola

XXXIV
Tamborim e cavaquinho
Violão, surdo e pandeiro
Reco-reco, prato e faca
Pra fazer um som maneiro

XXXV
No sonho tinha atabaque,
Caxixi, zambé, ganzá,
Cuíca, agogô, tarol,
Bumbo, timba e maracá

XXXVI
E quando foi carnaval
Lá no mês de fevereiro
O cordão da criançada
Festejou o tempo inteiro

XXXVII
Improvisando e brincando
Fez batuque verdadeiro
Passou dançando e cantando
Um samba bem brasileiro
Faixa 11:  Encerramento

Preparação cênica e seleção de elenco

Como é habitual em montagens cênicas escolares, alguns estudantes espontaneamente desejam aparecer, interpretar textos com falas longas e serem destaque no espetáculo. Estes fizeram as personagens narradoras (três estudantes fantasiadas de bailarina, onça e melindrosa), Pierrô, Colombina, Arlequim, Malandro, Chiquinha Gonzaga, Rei Momô e Livardo Alves.

3.1

Cenas: Narradoras, Rei Momô, Colombina, Pierrô, Arlequim e Chiquinha Gonzaga
Fotos dos autores.

Aos estudantes que desejavam participar, mas sem textos longos e com aparições rápidas, sugerimos a composição dos blocos carnavalescos da cidade e, após pesquisa, foram incluídos os blocos Virgens de Tambaú (bloco do bairro onde a escola está situada), Cafuçus (irreverência com figurinos bregas), Muriçocas de Miramar (maior bloco de João Pessoa) e Ala Ursa (cultura popular presente na cidade), conforme está registrado nas imagens a seguir.

3.2

Durante as cenas: Virgens de Tambaú , Cafuçus e Muriçocas de Miramar
Fotos dos autores.

Uma terceira equipe da turma, por timidez, desejava aparecer participando sem ser reconhecida pelo público, composto na plateia por estudantes das demais turmas da escola; participaram compondo os personagens que entraram no baile de máscaras e na marchinha carnavalesca, todos com figurinos mascarados; puderam então experimentar a vivência cênica como mulher gata, pirata, morte, monstro, fantasma, dama da nobreza, cavaleiros mascarados e anônimos, entre outros.

3.3

Durante a cena: Baile de Máscaras
Fotos dos autores.

Outra equipe, composta por cinco meninos que integram a banda marcial escolar, optou por acompanhar o bloco da Ala Ursa como músicos, tocando e cantando a tradicional frase: “Urso quer dinheiro quem não der é pirangueiro!”. Orquestrados pelo instrutor da banda escolar, esta entrada em cena se deu pela plateia e movimentou toda a apresentação, que até então se passava exclusivamente no palco.

3.4

Atores, durante as cenas da Ala Ursa na plateia e no palco
Fotos dos autores.

Ainda nas mesmas turmas do 7º ano A e B estudavam adolescentes que não desejavam participar do espetáculo de forma direta, por inibição; estes foram convidados a confeccionar os estandartes dos quatro blocos presentes no espetáculo, atuando como aderecistas; num envolvimento com as artes visuais, puderam também ver-se integrantes do trabalho, mesmo que com participação indireta.

Outros personagens interpretados foram: dançarinas carnavalescas, que coreografaram ritmos típicos dos diferentes carnavais do país; com isso, pudemos ver desde o frevo pernambucano ao samba carioca.

3.5

Distribuídos dessa maneira, no papel em que mais confortavelmente puderam colaborar, possibilitamos que toda a turma se integrasse ao processo de montagem cênica, interpretando variados personagens, em sintonia com estudos teóricos sobre os personagens presentes e blocos carnavalescos homenageados.

Desdobramentos teóricos: prática sem teoria se esvazia?

Na entrada do Teatro Ednaldo do Egypto, no dia da apresentação do espetáculo, todos os estudantes envolvidos, desde os que compunham a plateia aos que se apresentaram no palco, receberam um questionário com questões sobre o ciclo carnavalesco para que as aprendizagens adquiridas na aula de carnaval pudessem ser registradas além dos sentidos estético e cênico, também sensorialmente pelo raciocínio pautado na teoria que deu suporte ao projeto pedagógico.

Além do questionário, os estudantes receberam também um fôlder em que apresentamos os nomes dos personagens, do elenco, um resumo do espetáculo e os dados referentes à escola, para assim auxiliarmos na resolução do questionário; ao mesmo tempo, percebemos a elevação da autoestima dos que integram o elenco e de seus familiares e amigos ao receberem nas mãos o material gráfico com seus nomes e imagens.

Como o perfil da revista Educação Pública é socializar processos pedagógicos educacionais, colaborando com as práticas existentes, conduzindo professores(as) a refletir cientificamente sobre o que aplicam nas escolas, colocamos a seguir cópia do questionário distribuído entre os estudantes, para que possa servir de mote inicial (ou não) às futuras montagens de colegas de profissão.

Atenção: Cole esta atividade do 1º bimestre em seu caderno. Observe o espetáculo Aula de carnaval e responda em seu caderno às seguintes questões sobre os elementos do teatro e o ciclo carnavalesco:

  1. Escreva os nomes de dois adereços cênicos utilizados no espetáculo.
  2. Descreva o figurino de um dos personagens.
  3. Anote um trecho de uma das músicas da sonoplastia.
  4. Qual a cor predominante na iluminação?
  5. Quem é o designer gráfico do espetáculo?
  6. Que material publicitário foi utilizado?
  7. Quem compõe o elenco?
  8. Que pessoa assina a direção do espetáculo?
  9. Cite um elemento do cenário.
  10. Escreva o nome de alguém que integrou a coreografia?
  11. Que maquiagem você julga mais adequada ao personagem?
  12. Qual o título da dramaturgia encenada?
  13. Quem realizou a produção executiva?
  14. Qual é a sua opinião sobre a montagem cênica?
  15. Escreva um resumo do roteiro.
  16. Ilustre um dos personagens.

 

O questionário foi respondido individualmente pelos estudantes como atividade de casa em seus cadernos; na aula seguinte à apresentação cênica, já no espaço escolar tradicional, durante a aula de Artes Cênicas, realizamos correção coletiva com escrita das respostas no quadro e debate sobre as divergências de opiniões, sobre a apreciação estética, sobre os elementos do teatro estudados e sobre a temática do ciclo carnavalesco que pôde ser explorada a partir do espetáculo.

Após execução prática da montagem, seguindo o calendário escolar, foi realizada prova escrita com todas as turmas como uma das notas do 1ª bimestre na disciplina de Artes Cênicas. Abaixo, seguem algumas questões que aplicamos sobre os conteúdos ciclo carnavalesco, formação de plateia e elementos do teatro.

3.quadro

Acreditamos que a prática sem teoria se esvazia e que a teoria sem prática se monotoniza, sobretudo quando se trata de processos pedagógicos educacionais; por isso, buscamos atrelar as duas vertentes aos nossos feitos escolares para que, juntas, prática e teoria se complementem e fortaleçam a aprendizagem, tornando-a significativa.

Reflexões pertinentes

Planejamento prévio é de fato um dos aspectos particulares necessários ao cotidiano escolar; ele indica organização, preparação, cuidado e zelo pelo fazer pedagógico educacional. Planejar envolve diferentes necessidades e vários saberes profissionais, em que professores e equipe técnica traçam metas a serem atingidas e formas de fazê-las ocorrer.

Percebemos que “hoje é preciso que os educadores estejam abertos ao novo, com os olhos voltados para o futuro, pois, possivelmente, o que nos poderá parecer exercício de ficção científica para nossos alunos será realidade” (Cananéa, 2012, p. 98-99). Essa forma é uma maneira prática e inteligível de aprendermos, ensinarmos e realizarmos essas duas ações em sintonia com todos os envolvidos no processo, inclusive os estudantes.

No entanto, tão importante quanto estarmos atualizados com nossos planejamentos é também estarmos atentos aos desejos de aprendizagens oriundos dos estudantes. Quando eles sinalizam sobre conteúdos e formas possíveis de atendermos, acreditamos ser prudente ouvir e modificar nosso fazer pedagógico. Uma vez que o ponto de chegada é a aprendizagem, certamente se atingirá de forma mais ampla se o ponto de partida for indicado por quem prioritariamente deve aprender.

Não que o processo de ensino-aprendizagem seja um momento de aquisição do saber exclusivo dos estudantes; pelo contrário, todos os envolvidos ensinam e aprendem, simultaneamente. Conforme aponta Freire (1987) sobre os saberes serem diferentes e nunca maiores ou menores uns que os outros, ou ainda quando ele afirma que “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo; os homens educam-se entre si, mediados pelo mundo" (Freire, 1987, p.34). Dessa forma, professores(as) e estudantes, educando-se entre si, envolveram-se nos carnavais que o mundo oferece e no que deles podemos aprender sobre cultura popular, encenação, fazer pedagógico coletivizado e significativo.

Referências

AZEVEDO, Ricardo. Aula de Carnaval e outros poemas. 2ª ed. São Paulo: Ática, 2006.
CANANÉA, Fernando Abath (Org.). Educação dialogada. João Pessoa: Imprell, 2012.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

Publicado em 25 de julho de 2017