Ausência de sucesso na escola: um problema apenas do aluno ou do sistema escolar de reprodução de conceitos?

Marcelo Bittencourt Jardim

Mestrando Profissional em Educação Básica (UERJ); especialista em Psicomotricidade, Educação e Clínica (IBMR); graduado em Educação Física (Licenciatura e Bacharelado – Unipli); aperfeiçoamento acadêmico em Educação Pública (Cecierj) e Saúde Coletiva: Sistema Único de Saúde (UFRJ); membro do Comitê Editorial Internacional da Revista ODEP (ULAGOS – Chile)

Muito se tem falado a respeito da educação de qualidade nas instituições públicas do Rio de Janeiro e em programas de pós-graduação vinculados à educação, propondo um sistema em que os discentes tenham uma autonomia de pensamento, das aptidões, para serem pensantes e não para seguirem caminhos preconcebidos, mecanicamente reproduzidos, capazes de no máximo copiar seus docentes, sendo alunos passivos e sem espontaneidade (Faar, 1982). Atualmente, o atraso escolar tem ganhado destaque em debates e conversas, por suas causas intrínsecas (de aprendizado do aluno) e extrínsecas (fatores estruturais dos sistemas educacionais). No Brasil, as porcentagens de reprovação escolar e o número de estudantes com atraso escolar alcançaram valores significativos, segundo a análise de Boruchovitch (1994) comentando os dados do MEC de 1980, que considerou esse um importante fator relacionado ao abandono escolar de muitos estudantes. De acordo com os dados da Unesco, a retenção escolar no Brasil está entre as maiores da América Latina (O Estado de S. Paulo, 1997), o que contribui para a alienação e o atraso escolar com consequências devastadoras para a evasão escolar.

Segundo Sir Ken Robinsson (2013), em uma palestra adaptada para animação, os pais matriculam seus filhos no colégio por dois motivos: alocá-los (ocupá-los, para minimizar a ociosidade), pela educação, no mercado de trabalho, e, para que eles tenham uma noção de identidade cultural da realidade onde estão inseridos e da sociedade como um todo, mas, segundo Faar (1982), muitos discentes continuam sem iniciativa para resolver novas situações e descobrir as coisas por eles próprios. Para buscar esses objetivos, os pais inserem os seus filhos em escolas cuja proposta pedagógica, na maioria das vezes, obedece a um modelo obsoleto e ultrapassado de ensino, o que faz a maior parte das crianças não ver sentido em ir à escola e estudar. Fernandez (1990) propõe dois grupos de fatores vinculados às dificuldades de aprendizagem: o primeiro é relacionado à estrutura educacional; o segundo corresponde a causas internas (intrínsecas) individuais do sujeito ou de seus familiares. Segundo Lindahl (1988), em nossa sociedade a escola mantém-se como o principal veículo de educação sistemática, restringindo-se a transmitir às crianças de modo geral apenas os valores, conhecimentos e comportamentos da cultura dominante, nem sempre considerando o que a criança traz consigo de aprendizagens anteriores à escolarização. Com isso, a desadaptação da criança aos padrões esperados pela escola pode decorrer da descontinuidade das vivências sociais e das diferentes expectativas de cada classe social (Amorim, 2013).

Para Nuttin (1984), pensar a escola tem a ver com a estimulação da personalização da motivação dos discentes, dos docentes e do ambiente escolar. O comportamento intrinsecamente motivado não se limita ao tipo de experiências especiais ou de situações excepcionais nas quais o sujeito está completamente absorvido para satisfação de sua curiosidade e seu interesse. O mais frequente é uma atividade ser determinada simultaneamente por motivos intrínsecos e extrínsecos, sendo de extrema importância a motivação dos docentes para ministrar aulas, a estrutura no ambiente escolar e os discentes serem motivados a estudar, a participar das atividades para o desenvolvimento do seu conhecimento e entendimento do que estão observando e aprendendo.

Os efeitos adversos do fracasso escolar (Faar, 1982), quando a criança não desenvolve sua capacidade intelectual, têm apontado para a existência de relação entre dificuldades de aprendizagem e baixa autoestima (se sente inferior ou até mesmo, na expressão popular, “burra”), aceitação (ser aceita no âmbito social) e popularidade perante os colegas (no espaço escolar). Segundo Okano (2004), lidar com o insucesso escolar, com o baixo rendimento intelectual na escola e com as várias implicações para a autoavaliação da criança, para a família, docentes e comunidade onde está inserida constitui-se em tarefa complexa e muito desafiadora, para a qual não se tem ainda uma resposta acabada e pronta, o que aponta para a necessidade de buscar alternativas e estratégias, disponibilidade do profissional e o mais importante: as instituições devem estar abertas para as mudanças que possam minimizar tal situação. Os estresses psicossociais estão presentes na história de vida das crianças e podem caracterizar-se como agente que fragiliza o sujeito, favorecendo as dificuldades sociais, culturais, organizacionais e curriculares frente às demandas escolares.

Fatores relacionados que contribuem para o atraso escolar

Jardim (2016) relata sua experiência na rede pública municipal de ensino do Estado do Rio de Janeiro, constatando que as instalações precárias de infraestrutura e as dispensas recorrentes das aulas causam bloqueio intelectual e afetivo muito grande na vida das crianças pertencentes às comunidades carentes, o que gera uma visão deturpada de que a instituição “escola” não é um lugar de aprimoramento, não serve para desenvolvimento de suas vidas e, portanto, não apresenta relevância para o futuro. Argumenta ainda que, em muitos casos, os pais, as mães e os irmãos dessas crianças não almejam um futuro profissional que inclua o estudo depois da sua formação básica escolar, pois essas pessoas passaram pelas mesmas situações adversas, o que provoca influência negativa e fonte de desestímulo para as crianças que convivem e estão inseridas nesse ambiente social e cultural.

Andrade e Laros (2007) afirmam que não existe determinismo absoluto de alguma variável no desempenho escolar dos estudantes, ao dizerem que, “embora seja evidente que as condições socioeconômicas dos alunos influenciam diretamente o desempenho acadêmico, constata-se, todavia, que a escola também faz diferença. Esse fato é verificado uma vez que alunos oriundos de um mesmo contexto socioeconômico podem apresentar desempenho escolar diferenciado em razão de estudarem em escolas distintas”.

Esses autores também expuseram padrões que expõem a correlação de algumas variáveis com o desempenho escolar, como o estudo feito por Soares e colaboradores, que verificou que no Saeb de 1997 os alunos com melhor condição socioeconômica, trajetória escolar regular, do sexo masculino e que estudavam em escolas particulares eram aqueles com melhor desempenho em Matemática. O interessante é que, posteriormente, com base nos mesmos dados, Barbosa e Fernandes (apud Andrade e Laros), utilizando outra análise estatística, constataram que, depois do controle do nível socioeconômico do discente, variáveis referentes à infraestrutura e aos equipamentos escolares são preditoras de um bom desempenho dos alunos, em concordância com a análise de Jardim (2016), que fala a respeito desse tema em vários trabalhos.

O modelo de fábrica da escola: uma verdade ou uma criação utópica

O que se discute aqui, portanto, é uma reflexão de até qual extensão o atraso escolar pode chegar (gerando discentes alienados ou pensantes), sendo realmente um problema da criança ou até que ponto constitui-se em um problema do modelo padronizado educacional (Amorim, 2013).

Robinson e Mosé (2013) criticam categoricamente, em seus vídeos, o modelo de escola tradicional que é utilizado no Brasil e no mundo. Segundo esses pensadores, a escola está moldada em um padrão de fábrica, no qual os alunos são categorizados por idade, as disciplinas possuem tempos curtos e delimitados, são divididas por um sinal sonoro, salas separadas e colocação seriada dos conteúdos programáticos, dando a entender, literalmente, a produção em série da aprendizagem.

Para Faar (1982), a queda da qualidade do ensino vem sendo pesquisada ultimamente, como lembra em seu livro, não apenas em relação aos que chegam à universidade como também quanto ao fracasso das tentativas de diminuir as taxas de reprovação e evasão nas primeiras séries da escola pública.

Todas essas características apontam para a segmentação e normatização do ensino, tratando a educação como um produto e as crianças como uma mercadoria com data de fabricação, colocando-as todas em um mesmo patamar e ignorando completamente as suas peculiaridades, como a aptidão de um estudante mais em Física do que em Literatura, em mais em Educação Física do que em Matemática, ter melhor rendimento de noite do que dia, ser mais eficiente em pequenos grupos do que em grandes turmas e por aí vai. Sem dúvida, essa lógica da produção de conhecimento em massa é responsável por grande parte dos casos de atraso e desenvolvimento escolar, prejudicando e tendo como maiores vítimas crianças cujas aptidões não se encaixam na ementa escolar cobrada, e que, por vezes, são repetentes por causa de uma deficiência em alguma disciplina específica, levando-as a sofrer todos os efeitos emocionais e afetivos já descritos (Amorim, 2013).

Questões cognitivas relacionadas ao aprendizado do aluno

Para a neurocientista Márcia Relvas (2013), a questão social interfere na aprendizagem. Ela argumenta que crianças que possuem mais oportunidades e mais qualidade do que quantidade de estímulos apresentam desempenho melhor na sala de aula. Apesar de reconhecermos a influência que o molde educacional acarreta na vida dos estudantes, bem como os aspectos socioeconômicos de cada um e a infraestrutura da escola em que estão inseridos, não pretendemos, esgotar o assunto apenas com essas justificativas. É inevitável admitir que, em certo grau, a incidência do atraso escolar é acometida também por questões cognitivas. Essa questão não significa a impossibilidade de aprendizagem, apenas a necessidade de um tempo maior para a assimilação de algum conteúdo. As causas de tal atraso cognitivo podem ser diversas, envolvendo condições genéticas (síndrome de Down ou fenilcetonúria, por exemplo), problemas oriundos da gravidez (rubéola durante o período de gestação), problemas decorrentes do nascimento (falta de oxigênio suficiente, que pode afetar o desenvolvimento mental) e problemas da saúde propriamente (como sarampo e meningite).
Segundo Rappaport (1981), a riqueza ou a pobreza de estimulação tanto no plano físico como no social vão interferir no processo de desenvolvimento da inteligência. A pesquisadora diz que numa família cujos integrantes têm linguagem elaborada e expressão verbal rebuscada a criança terá maior probabilidade de desenvolver um repertório verbal amplo e complexo do que se vivesse em uma família cujos membros tenham linguagem habitualmente pobre, com muitas gírias, concreta e reduzida. Ela conclui:

Entenda-se, pois, que, no caso da linguagem ou de outros aspectos que dependem do desenvolvimento cognitivo, o sujeito herda a capacidade para a aprendizagem e o desempenho. Mas a plena realização dessas capacidades depende das condições que o meio ambiente irá oferecer.

Conclusão

Por meio das abordagens brevemente citadas, pretendeu-se colocar à luz a complexidade do assunto e a forma de discutir essa questão, e os diversos fatores que podem contribuir para o fracasso e o atraso escolar são altamente variáveis e distintos. Somam-se a isso todos os problemas já abordados acerca do modelo pedagógico tradicional, que normatiza e padroniza os estudantes. Diante desses fatos, não admira que a questão do atraso e fracasso escolar seja um assunto recorrente, que precisa ser debatido com muita seriedade e atenção. Nós relutamos a considerar essa realidade como um problema, pois assim poderíamos estar cometendo a injustiça de atribuir o impasse unicamente ao nível da criança. Para nós, docentes, isso se constitui em um fato empírico que precisa ser analisado de maneira mais panorâmica. Assim como muitos fatores convergem para esse padrão, acreditamos que a abordagem desse assunto envolve também muitas saídas, tais como a mudança de um plano pedagógico coerente, a colocação do aluno no centro do processo de aprendizagem como único (e não a massificação dela ou a reprodução de conceitos preestabelecidos dos próprios professores), o apoio afetivo por parte da família e demais profissionais da educação e a abordagem médica apenas nos casos específicos e comprovados por exames, tomando o cuidado de não rotular os alunos e, assim, contribuir para o não surgimento do bullying na escola (Amorim, 2013).

Referência

AMORIM, Renan. Aspectos envolvidos com o atraso escolar: um problema apenas do aluno? Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2013.

ANDRADE, Josemberg M.; LAROS, Jacob A. Fatores associados ao desempenho escolar: estudo multinível com dados do Saeb/2001. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 23, n. 1, p. 33-42, jan./mar. 2007.

FAAR, Regis. O fracasso do ensino no Brasil: reportagem. Rio de Janeiro: Codecri, 1982.

JACOB, Adriana V.; LOUREIRO, Sonia R. Desenvolvimento afetivo – o processo de aprendizagem e o atraso escolar. Paideia, FFCLRP/USP, Ribeirão Preto, fev./ago. 1996.

JARDIM, Marcelo B. Amor que educa: o afeto como instrumento primordial na atuação do educador físico com crianças e jovens de comunidades carentes. Rio de Janeiro: Kimera, 2016.

NUTTIN, J. R. Motivattion, planning, and action. Leuven University Press & Lawrence Erlbaum, 1984.
OKANO, Cynthia B.; LOUREIRO, Sonia R.; LINHARES, Maria B. M.; MARTURANO, Edna M. Crianças com dificuldades escolares atendidas em programa de suporte psicopedagógico na escola: avaliação do autoconceito. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 17(1), p. 121-128, 2004.

RAPPAPORT, Clara R. Psicologia do desenvolvimento. Vol. 1 – Teorias do desenvolvimento. Conceitos fundamentais. São Paulo: EPU, 1981.

Sites pesquisados:
https://www.youtube.com/watch?v=DA0eLEwNmAs
http://www.youtube.com/watch?v=YRRzVBkAS04
http://g1.globo.com/globo-reporter/noticia/2013/06/o-que-fazer-para-que-meninas-e-meninos-tenham-o-mesmo-desempenho-na-escola.html
http://www.psicopedagogavaleria.com.br/site/index.php?option=com_content&view=article&id=43%3Adeficiencia-intelectual-ou-atraso-cognitivo&catid=1%3Aartigos&Itemid=11

Publicado em 20 de março de 2018