Professores da Educação Infantil e a triagem auditiva na escola

Claudia Maria Ribeiro Silva

Graduanda em Fonoaudiologia (PUC-Minas – Câmpus Coração Eucarístico)

Giovana Gabriele Alves de Almeida

Graduanda em Fonoaudiologia (PUC-Minas – Câmpus Coração Eucarístico)

Laura Fernandes Silva

Graduanda em Fonoaudiologia (PUC-Minas – Câmpus Coração Eucarístico)

Rebeca Fernanda de Almeida Coelho

Graduanda em Fonoaudiologia (PUC-Minas – Câmpus Coração Eucarístico)

Tiago Mendonça Attoni

PhD em Neurociência (UFMG), professor do Departamento de Fonoaudiologia e de Psicologia (PUC-Minas – Câmpus Coração Eucarístico)

A Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), câmpus Coração Eucarístico, oferta no curso de Fonoaudiologia a disciplina Fonoaudiologia Educacional, que tem por objetivo fomentar a prática fonoaudiológica na escola por meio de práticas curriculares de extensão sobre promoção de saúde e inclusão.

O presente relato se deu a partir da capacitação realizada pelas acadêmicas de Fonoaudiologia do 4º período junto ao corpo docente da Escola Municipal de Educação Infantil no bairro Gameleira (EMEI Gameleira), em Belo Horizonte/MG, quanto ao uso e implantação do Instrumento de Triagem Auditiva Infantil (ITAI).

O ITAI consiste em um questionário desenvolvido pelo Conselho Regional de Fonoaudiologia da 6ª Região em parceria com as Secretarias de Estado da Saúde e da Educação para uso de professores e profissionais da saúde na identificação de fatores de risco que indicam alterações auditivas em crianças de 12 a 48 meses (Crefono 6, 2019).

A audição é um dos principais fatores que permitem o pleno desenvolvimento global da criança. Alterações, sendo essas perdas auditivas de grau leve a profundo, relacionadas a episódios de otites médias ou casos congênitos, podem acarretar atrasos de linguagem e, como consequência, dificuldades de aprendizagem que reduzem o desempenho escolar (SILVA et al., 2010).

Os sinais e sintomas de perdas auditivas, principalmente de grau leve a moderado, dificilmente são identificados por pais e professores, o que impede diretamente o diagnóstico precoce e a redução das consequências dessa perda para o desenvolvimento da criança (SILVA et al., 2010).

Dessa forma, tornou-se importante capacitar os professores para implantação e uso do ITAI visando o diagnóstico precoce de crianças em idade pré-escolar.

Metodologia

Inicialmente, como proposta da prática curricular de extensão, foi realizado um diagnóstico institucional para detectar as demandas em saúde presentes na EMEI Gameleira. O diagnóstico foi feito com base em um questionário elaborado pelas acadêmicas que contém questões sobre aspectos socioeconômicos, infraestrutura, corpo docente, coordenação pedagógica e demandas fonoaudiológicas da escola.

Com o recolhimento de informações, foi elaborada a proposta de capacitação dos professores para a implantação e uso do Instrumento de Triagem Auditiva (ITAI). Apresentamos o ITAI e a seguir é descrito o processo de capacitação das educadoras.

Instrumento de Triagem Auditiva Infantil (ITAI)

O ITAI consiste num material para a promoção de saúde no ambiente escolar, elaborado na parceria entre a Secretaria do Estado de Saúde (SES/MG), a Secretaria de Estado de Educação (SEE/MG), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) e o Conselho Regional de Fonoaudiologia da 6ª Região (Crefono 6). O objetivo é identificar precocemente crianças suscetíveis a apresentar alterações auditivas, visando minimizar os danos causados pela perda auditiva na primeira infância (Crefono 6, 2019).

O ITAI é dividido em três formulários, de acordo com a idade; o primeiro formulário é para crianças de 12 a 18 meses; o segundo, de 19 a 36 meses; e o terceiro, para crianças de 37 a 48 meses. Esses formulários são divididos em dois eixos (Eixo I e Eixo II), que apresentam questões sobre a realização da Triagem Auditiva Neonatal (TAN), também conhecida como “teste da orelhinha”, e relativo às ações que precisam ser realizadas de acordo com as etapas do desenvolvimento infantil (Figura 1).

Figura 1: Eixos I e II (12 a 18 meses)

Fonte: Crefono 6.

É necessário que a aplicação seja realizada por um profissional da Saúde ou da Educação desde o momento da matrícula escolar até os primeiros dias do ano letivo. Inicialmente, o profissional deve ler em voz alta as questões para o responsável pela criança e assinalar as respostas, com as opções “sim”, “não” ou “não se aplica”. Após a aplicação, que tem duração em média de cinco minutos, a interpretação deve ser realizada; se em todas as questões as respostas foram “sim”, a criança não apresenta risco de perda auditiva; caso alguma das respostas para o Eixo II seja “não”, a criança apresenta risco de perda auditiva.

A partir da identificação do risco de perda auditiva, a criança deverá ser encaminhada para uma unidade básica de saúde (UBS), onde ocorrerão os atendimentos multiprofissionais, além do encaminhamento para a realização dos exames audiológicos e a comprovação da perda auditiva (Figura 2).

Figura 2: Resultado do encaminhamento

Fonte: Crefono 6.

O ITAI deve ser aplicado anualmente até os quatro anos ou sempre que houver queixas relacionadas à audição por parte dos professores os familiares.

Processo de capacitação dos professores da EMEI

A capacitação quanto ao uso do ITAI ocorreu junto aos professores da EMEI Gameleira, que se localiza na Rua Quarenta e Um, no Bairro Gameleira, Belo Horizonte/MG. Foram realizadas duas visitas para a exposição do conteúdo – uma no período da manhã e outra no período da tarde. Ao todo, dezesseis professoras, incluindo a coordenadora pedagógica, participaram da atividade. O conteúdo foi apresentado com o auxílio de slides por duplas de acadêmicas. 

No que se refere aos temas abordados, inicialmente tornou-se necessário enfatizar a importância do ambiente escolar como promotor de saúde, em que a relação próxima entre professor e aluno permite a identificação de alterações no educando que podem dificultar o processo de aprendizagem e como consequência influenciar o desenvolvimento do plano pedagógico.

As alterações apresentadas pelos alunos podem ser diversas; uma delas é a perda auditiva, que impede o contato efetivo com o ambiente para a aquisição de informações e desenvolvimento de habilidades, como a comunicação oral. Assim, para a ampliação do conhecimento dos professores foram apresentados os tipos de perda auditiva – congênitas, temporárias e progressivas –, além de suas causas e consequências.

Quanto à aplicação do ITAI, inicialmente tornou-se necessário enfatizar que o objetivo é a identificação precoce de crianças que apresentam risco de desenvolver perda auditiva. Logo após, os formulários foram apresentados de acordo com a idade, que só podem ser utilizados com alunos de até 36 meses de idade e devem ser aplicados pelo profissional da Saúde ou da Educação no momento da matrícula. Diante da apresentação do risco de perda identificado pela resposta “não” em alguma das questões do Eixo II, foi dada a importância do encaminhamento da criança para a UBS da qual faz parte.

Ao término, foi reservado um tempo para o esclarecimento de dúvidas, e uma cópia do Instrumento foi entregue à coordenadora para implantação e uso nos próximos anos letivos.

Resultados e discussão

Durante a apresentação do ITAI aos docentes, foram citados os principais indicadores de risco de perda auditiva, com o intuito de elucidar e justificar a funcionalidade e a importância do instrumento e assim despertar um olhar atento e direcionado aos alunos que porventura se enquadrem nos critérios. As acadêmicas alinhavaram aos tipos de perdas auditivas: complicações no parto; anóxia neonatal; permanência em incubadoras; nascimento pré ou pós-termo; uso de medicação ototóxica; histórico familiar positivo para surdez; e quadros de otites (Façanha; Fontenele; Câmara, 2005).

Tendo como suporte os indicadores de risco durante a gestação ou na infância, a apresentação seguiu sob o âmbito de que os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento de habilidades auditivas e da linguagem (Façanha; Fontenele; Câmara, 2005). A perda auditiva na infância é considerada fator de risco para o atraso no desenvolvimento (Mondelli et al., 2010). Portanto, o diagnóstico audiológico no primeiro ano de vida propicia um prognóstico favorável ao desenvolvimento global das crianças devido à consequente intervenção precoce (Façanha; Fontenele; Câmara, 2005). Nesse sentido, o ITAI se torna um recurso auxiliador para identificação dessas crianças e para que a conduta aconteça precocemente, visto que o público alvo do instrumento ainda se encontra dentro da etapa de aquisição de linguagem (Mousinho et al.,2008).

Durante a explicação dos tipos de perdas auditivas, buscou-se dar exemplos de sinais clínicos e comportamentais que as crianças podem apresentar em virtude da privação sensorial acarretada pela surdez; essa privação interfere negativamente na estrutura e na função do sistema auditivo central, afetando assim o desenvolvimento cognitivo e de linguagem (Mondelli et al., 2010).

Uma das características marcantes é a desatenção. A criança com acuidade auditiva defasada possui dificuldade de decodificar lexicalmente o que ouve; demora para processar estímulos auditivos; perde ou não registra informações na memória, o que interrompe o fluxo de informações e interfere na concentração e persistência nos eventos auditivos (Mondelli et al., 2010). Com base nessas informações, as educadoras conseguiram relacionar dificuldades que alguns alunos apresentam.

Pelo questionamento de uma das educadoras, as acadêmicas destacaram a importância de uma investigação clínica criteriosa, a fim de averiguar se a desatenção em questão provinha exclusivamente de uma possível surdez, ressaltando que outros diagnósticos, como a desordem do processamento auditivo e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), entre outros, eram possíveis (Carvalho; Novelli; Colella-Santos, 2015).

Sob essa demanda, foi abordado que o transtorno do processamento auditivo refere-se à dificuldade de processar informações auditivas. São habilidades do processamento auditivo, por exemplo, discriminação de sons; separação de som principal e ruído de fundo e reconhecimento de sons familiares (Carvalho; Novelli; Colella-Santos, 2015).

Unindo esse entendimento ao fato de que problemas auditivos podem vincular-se a dificuldades de aprendizagem e distúrbios fonológicos, concluiu-se que o bom funcionamento do sistema auditivo (periférico e central) é fundamental para o desenvolvimento da linguagem oral e escrita (Carvalho; Novelli; Colella-Santos, 2015).

Referindo-se ao processo de capacitação dos professores, pode-se observar grande interesse por parte deles no ITAI. Nenhuma das profissionais conhecia o instrumento. Elas disseram que, sempre que percebem algo de “diferente” em alguma criança, têm dificuldades para expor suas observações, e esta seria uma forma de auxiliá-los em suas condutas dentro da sala de aula. De acordo com Silva et al.(2010), muitos professores sentem-se despreparados para lidar com crianças com necessidades especiais e voltam-se para o conhecimento do senso comum no que diz respeito às dificuldades auditivas.

As professoras também levantaram questionamentos quanto às perdas auditivas e sua relação com otites recorrentes, cuidados e prevenção. As perdas auditivas severas ou profundas podem ser facilmente detectadas, porém as perdas leves e moderadas, tão comuns na primeira infância, são mais difíceis de serem identificadas e acarretam prejuízos significativos no aprendizado (Silva et al., 2010). Por isso a escola é tão importante, pois na maioria das vezes essas perdas leves somente são descobertas pelos professores no ambiente da sala de aula, ao perceberem pequenos atrasos no aproveitamento escolar da criança. Muitas vezes, essas perdas podem passar despercebidas pelos pais e professores; então deve ser feito um trabalho em conjunto para uma ação sistematizada que envolva a família, a escola e os profissionais da Saúde. Este é o objetivo do ITAI: garantir que as dificuldades auditivas sejam detectadas precocemente e devidamente tratadas e acompanhadas.

Ainda de acordo com Silva et al. (2010), a maioria das professoras declarou nunca ter adquirido conhecimento acerca do tema em sua formação acadêmica e todas sentem-se despreparadas para lidar com tais questões. Isso mostra a necessidade de as áreas da Educação e da Saúde estarem mais próximas. Por isso, as professoras também concluíram que o ITAI será de grande ajuda para validar suas percepções no que foge à área da pedagogia; será um importante instrumento para registrar junto aos pais um possível encaminhamento à UBS, que encaminhará, por sua vez, essa criança ao profissional mais indicado.

Conclusão

A audição é fator imprescindível para o sucesso na aprendizagem, principalmente para as crianças da Educação Infantil; qualquer interferência nesse sentido pode acarretar prejuízos no processo. Dessa forma, o ITAI poderá auxiliar na triagem de possíveis alterações auditivas na infância. Sendo aplicado corretamente pela escola, pode detectar precocemente possíveis perdas auditivas que poderiam passar despercebidas durante grande parte da vida escolar das crianças. O acompanhamento, em parceria com a família e com os profissionais da Saúde, é capaz de favorecer as melhores condutas dos professores em relação às crianças que apresentarem tais alterações.

A partir da capacitação para o uso do ITAI, realizada como proposta da prática curricular de extensão da disciplina Fonoaudiologia Educacional, observou-se o grande aproveitamento dos professores, que se mostraram dispostos a fazer uso dele. Para as acadêmicas, a execução da prática foi fundamental para gerar experiência e aprendizado interdisciplinar que servirá de eixo para a futura prática profissional.

Referências

CARVALHO, Nádia Giulian de; NOVELL, Carolina Verônica Lino; COLELLA-SANTOS, Maria Francisca. Fatores na infância e adolescência que podem influenciar o processamento auditivo: revisão sistemática. Revista Cefac, São Paulo, v. 17, nº 5, p. 1.590-1.603, 2015.

CONSELHO REGIONAL DE FONOAUDIOLOGIA - 6ª REGIÃO (Belo Horizonte). Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais (Org.). Saúde Auditiva no Ambiente Escolar: identificação de crianças com risco de perdas auditivas. 2018. Disponível em: http://www.crefono6.org.br/arquivos/site/campanhas/cartilha-versao-digital.pdf. Acesso em: 29 set. 2019.

FAÇANHA, Rachel Costa; FONTENELE, Marília; CÂMARA, Silva. Estudo das emissões otoacústicas produto de distorção (EOAPD) em crianças com indicadores de risco para perda auditiva. Revista Brasileira em Promoção da Saúde, Fortaleza, v. 18, nº 3, p. 136-139, 2005.

MONDELLI, Maria Fernanda Capoani Garcia et al. Perda auditiva leve: desempenho no teste da habilidade de atenção auditiva sustentada. Pró-fono - Revista de Atualização Científica, São Paulo, v. 22, nº 3, p. 245-250, 2010.

MOUSINHO, Renata et al. Aquisição e desenvolvimento da linguagem: dificuldades que podem surgir nesse percurso. Revista Psicopedagogia, Rio de Janeiro, v. 25, nº 78, p. 297-306, 2008.

SILVA, Denísia Raquel de Carvalho et al. Conhecimentos e práticas de professores da Educação Infantil sobre crianças com alterações auditivas. Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, Belo Horizonte, v. 15, nº 2, p. 197-205, 2010.

Publicado em 08 de junho de 2021

Como citar este artigo (ABNT)

SILVA, Claudia Maria Ribeiro; ALMEIDA, Giovana Gabriele Alves de; SILVA, Laura Fernandes; COELHO, Rebeca Fernanda de Almeida; ATTONI, Tiago Mendonça. Professores da Educação Infantil e a triagem auditiva na escola. Revista Educação Pública, v. 21, nº 21, 8 de junho de 2021. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/21/21/professores-da-educacao-infantil-e-a-triagem-auditiva-na-escola