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A importância da doença na vida segundo Nietzsche

Marlon Baptista

Neste texto faço uma reflexão sobre a condição de estar enfermo, com dores e variados desprazeres físicos, e de como que, por meio da experiência com a ocasião de estar doente, é possível que sejam reveladas características humanas fundamentais e desenvolvidas certas habilidades. Trata-se de uma condição em que se pode aprender sobre si mesmo, em que elementos aparecem para a compreensão sobre o sentido da existência no mundo consigo e com os outros, de modo que pretendo afirmar que a presença da doença na vida é imprescindível, até mesmo para que possamos entender melhor e determinar o quanto vale e o que significa estar sadio e as motivações de nossas ações e relações com os outros.

Na dor pode se revelar a maldade como último poder

Numa célebre passagem de sua novela Memórias do Subsolo, Fiódor Dostoiévski (1821-1881) faz seu protagonista afirmar ter prazer numa dor de dentes, pois durante a dor ele não fica em silêncio, ele geme, mas com gemidos que não são sinceros, e sim maldosos. A condição de estar sob o peso do sofrimento mais inexorável, que é o proveniente das leis inflexíveis da natureza, fere o orgulho que temos pelo nosso espírito, por nossa espiritualidade, que não é meramente um organismo regido por leis mecânicas, mas que, por ser sustentada por ele, tem que participar também das suas dores: das dores do corpo. Diante de um possível sentimento de humilhação devido à fragilidade e insignificância do funcionamento de uma máquina com problemas técnicos, o ser humano pode extravasar sua insatisfação por meio da obtenção de um prazer peculiar à sua espécie: agir maldosamente, ou seja, causar o mal a si mesmo e ao outro com a única finalidade de fazer o mal.

Segundo Dostoiévski, o indivíduo com dor de dentes, a partir de um certo grau da duração de seus tormentos, passa a gemer não mais como gemia antes, por dor; pois já passou muito tempo gemendo, e de nada vai adiantar continuar a gemer, nem para si, e muito menos para os outros. Pelo contrário, ele sabe que tortura a si mesmo e os outros com seus malditos gemidos:

“Sabe que até o público, perante o qual se esforça, e toda a sua família já o ouvem com asco, não lhe dão um níquel de crédito e sentem, no íntimo, que ele poderia gemer de outro modo, mais simplesmente, sem garganteios nem sacudidelas, e que se diverte, por maldade e raiva” (DOSTOIÉVSKI, 2000, p. 27)

Esta seria uma das últimas formas possíveis de expressão de poder do doente, que poderia lhe causar extremo prazer: “estou com dor, mas todo mundo vai ter consciência e se lembrar de que eu estou com dor”; ou nas palavras de Dostoievski: “Senti-vos mal, ouvindo os meus gemidos ignobeizinhos? Pois que vos sintas mal; agora, vou soltar, em vossa intenção, um garganteio ainda pior...” (Ibid, p. 28).

Dostoiévski escreveu isso em 1864, enquanto o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), em 1878, ao interpretar o sentido da provocação da compaixão em alguém, escreveu o seguinte:

“(...) tenhamos contato com doentes e pessoas mentalmente afligidas, e perguntemos a nós mesmos se os eloquentes gemidos e queixumes, se a ostentação da infelicidade não tem o objetivo, no fundo, de causar dor nos espectadores, na medida em que estes percebem ter ao menos um poder ainda, apesar de toda a sua fraqueza: o poder de causar dor. O infeliz obtém uma espécie de prazer com o sentimento de superioridade que a demonstração de compaixão lhe traz à consciência; sua imaginação se exalta, ele é ainda importante o suficiente para causar dores ao mundo. De modo que a sede de compaixão é a sede de gozo de si mesmo, e isso à custa do próximo (...)” (NIETZSCHE, 2000, p.54, §50).

Isso é facilmente perceptível nas crianças que choram falsamente ou para conseguirem o que desejam, ou mesmo, percebendo que não vão ter o que querem, por pirraça, choram e esperneiam. Nietzsche estava ocupado, no projeto de uma crítica à moralidade dos costumes, que supõe a soberania do valor do bem, em refletir sobre o quanto a maldade é um estimulante para a vida e uma característica humana inegável. Obviamente o leitor pode discordar dessas interpretações sobre os gemidos de dor, mas neste momento, não é a tese da maldade humana que mais me interessa, e sim a reflexão sobre modos possíveis de o indivíduo lidar com o mundo ao seu redor - mas principalmente consigo mesmo - de uma forma muito peculiar quando é acometido pelo intenso sofrimento físico.

A partir de agora farei o seguinte: analisarei o aforismo 114 do livro Aurora de Nietzsche chamado Do conhecimento daquele que sofre, juntamente com alguns apontamentos de questões relacionadas ao modo de lidar com o estado da doença em outros dois livros desta mesma época, Humano, Demasiado Humano I e II. Vamos ao aforismo.

As descobertas e técnicas do sofrer

Além dos benefícios intelectuais trazidos pela solidão daquele que está enfermo - como a possibilidade para se repensar sobre a própria vida - e dos possíveis frutos do repentino descompromisso com horários, trabalhos e obrigações em geral, segundo Nietzsche (e, não muito dificilmente, segundo qualquer um que já esteve doente), o modo como o doente olha para o mundo a seu redor assume uma certa frieza, pois não lhe anima o que costumeiramente o animaria e aos demais quando saudáveis; não sente bem o gosto dos alimentos – ou mesmo sequer tem fome - e sente dores que impedem que sua atenção seja despendida tranquilamente à fruição de algum prazer, por exemplo. Parece uma grande ilusão a lembrança de coisas, agora sem o menor sentido, que outrora puderam proporcionar tanto entretenimento e mesmo prazer. Às vezes, ao se lembrar de coisas boas no estado de saúde, durante a doença, chega-se a sentir asco, como a lembrança de alguma comida suculenta para aquele que está com dores no estômago e enjoo.

É interessante atentar para um primeiro efeito que a força da doença é capaz de causar na disposição daquele que sofre: a sobriedade, o pé no chão que é a dor de uma inflamação, uma ferida ou uma moléstia qualquer, o sentido de realidade de que a dor é capaz. Diante de devaneios, abstrações, excessos do espírito e ideias, a dor tem um poder avassalador, de modo que, conforme um poeta português de quem não me lembro o nome disse uma vez: “o que é uma dor de amor perto de um cancro na garganta?”.  É notável como em outro momento, no prólogo de Humano, demasiado humano II, Nietzsche, ao pensar sobre a sua própria trajetória de pensador, se refere a um momento de sua produção que considera doentio - e importante justamente por isso - porque fez com que ele percebesse qual de fato era a sua tarefa, o que afinal ele tinha que fazer. Isso porque, sem a dor, teríamos a tendência de seguir pelo caminho mais fácil, de ludibriar o misterioso imperativo residente dentro de nós que nos diz o que devemos fazer, o que nos diz respeito de verdade. Acontece que, às vezes (muitas vezes), dar ouvidos a este imperativo significa encarar o caminho mais difícil, o da verdade sobre o sentido daquilo pelo que nos decidimos. A doença seria capaz de romper com esta tendência de nos deixar levar pelo caminho mais leve e nos fazer nos re-apropriar, nos reencaminhar no rumo de nossa legítima tarefa:

“esse tirano dentro de nós exerce uma terrível represália a cada tentativa que fazemos de evitá-lo ou dele escapar, a cada prematura resignação, a toda equiparação àqueles que nos são alheios, a toda atividade, ainda que respeitável, que nos distraia de nosso tema principal, e mesmo a toda virtude que nos proteja do rigor da responsabilidade mais própria. A doença é a resposta, cada vez que queremos duvidar do direito à nossa tarefa – que começamos a tornar as coisas mais fáceis para nós” (NIETZSCHE,  2008, p. 11)

Assim, a apatia e a frieza geradas pela doença, por uma lado, correspondem à sobriedade, por outro, no sentido de nos ajudar a perceber o que realmente é prioritário a ser feito de nossas vidas, de modo que a doença coloca em cheque justamente a nossa sinceridade conosco mesmos ao nos fazer reavaliar o aproveitamento que estamos realmente fazendo de nossas vidas quando estamos sadios. Ou seja, estar doente auxilia como que a nos ver de fora por algum momento, ainda que mergulhados na dor; sendo que a reflexão sobre nossa vida como um todo pode aparecer nos momentos de alívio da dor, no repouso e no ócio a que a doença nos obriga. Pois diante da pergunta “voltar a ficar sadio para quê?”, é necessária uma resposta contundente, de modo que a convalescença legítima, de modo a se apropriar ativa e positivamente da vivência da doença, capaz de causar mudanças em nós por conta de um processo reflexivo que ela pode provocar, exige daquele que sofre da enfermidade o retorno à saúde com disposição para carregar um fardo mais pesado do que carregava até então por meio dos atalhos e facilitações que poderiam na verdade estar distanciando-o de sua verdadeira “tarefa”: “Raramente quebramos a perna quando subimos trabalhosamente na vida, mas sim quando começamos fazer corpo mole e tomar caminhos fáceis” (NIETZSCHE, 2008, p.118, §266)

Nietzsche, no aforismo 114, chega a relacionar palavras de Cristo pregado na cruz com essa sobriedade oriunda de um desencantamento. Ao dizer “Meu Deus, por que me abandonastes?”, Cristo estaria revelando, por conta da dor extrema, a sua descrença em qualquer idealização ou convicção - até mesmo de Deus (que ele próprio supostamente encarnaria) ele não espera mais misericórdia ou atenção. Trata-se de “um desencantamento e esclarecimento geral sobre a ilusão de sua vida; no instante da dor suprema ele foi clarividente quanto a si mesmo (...)” (NIETZSCHE, 2008b, p. 86).

Para enfrentar a força da dor e a tendência de um possível auto-abandono que, em última instância, seria o próprio suicídio diante de um sofrimento insuportável, o intelecto do sofredor faz uso da estratégia de lançar sobre tudo o que olha uma nova luz, um novo sentido, um novo atrativo para tornar a vida minimamente suportável. Surge então um outro sentimento oriundo da mudança de olhar ocorrida na marra com o sofredor: após a sobriedade e frieza, ao conseguir ver cor novamente em torno de si, ele sofre uma mudança quanto ao seu critério de avaliação e encara com o sentimento de desprezo o estado tranquilo e agradável do homem sadio. Devido à sua situação de desprazer, ele encara como tolas ilusões os momentos de prazer com a vida, “tem satisfação em evocar esse desprezo como que do mais profundo inferno, provocando na alma o mais acerbo sofrimento: com esse contrapeso não se dobra à dor física” (Ibid). Um orgulho demasiado humano, diante de uma força tão violenta como a da dor, que quase nos obriga a testemunhar contra a vida por meio de alguma resignação, desistência ou pessimismo. Assim, esse sofredor triunfa por meio de seu desprezo, se colocando acima de seu próprio sofrimento, tomando-o como se fosse uma punição que ele mesmo tivesse dado a si. Com isso ele assume a dignidade de um juiz e a breve irresponsabilidade de um algoz. Ele assume para si a responsabilidade da sentença e aplica a pena sobre si mesmo. Por meio de uma estratégia psicológica complicada e questionável como essa o indivíduo conquistaria a postura de afirmar a vida numa situação que teria tudo para fazê-lo rejeitá-la. Assim, negar o pessimismo tem a ver diretamente com o orgulho, que se opõe à situação de humilhação que seria o pessimismo, por ser um sintoma do sentimento de derrota.

Nietzsche busca uma hipótese de interpretação psicológica para compreender a dinâmica de funcionamento de um corpo humano com forças para continuar desejando viver, inventando motivos, convencendo-se de seu valor diante do momento doloroso. Em Humano, demasiado humano II ele afirma que, por mais que o doente deseje, por momentos, o bálsamo da ausência de dor, da mais completa tranquilidade, “sem saciedade nem necessidade”, é questão de pouco tempo, caso ele alcance este estado, para vir o tédio: “este é o vento do degelo para a vontade congelada: ela desperta, movimenta-se e gera novamente desejo após desejo. - Desejar é sinal de melhora ou convalescença” (NIETZSCHE, 2008, p.144, §349).

Assim, depois de “ataques de altivez”, a situação se abranda e se aproxima a convalescença. Neste momento o indivíduo que convalesce muda novamente de perspectiva e encara o excesso de orgulho do estado anterior como tolice, como se se tratasse de um momento único e fosse o centro do mundo. Por ter se passado tempo demais voltado para si mesmo por conta das dores, o momento seguinte exige uma maior impessoalidade, um “ir um pouco para fora”, um voltar-se para a natureza e para a vida, percebendo-a de um modo diferente, como se lhe arrancasse o véu. Depois de chegar a desprezar o que se goza na saúde, o convalescente retorna com um novo conhecimento sobre o ser humano e a natureza, e com maior desejo. Cansado do excesso de sobriedade, pretende voltar para a tepidez da ilusão do gozo simples de ter saúde. “Não nos aborrecemos quando os encantos da saúde recomeçam seu jogo – olhamos como que transformados, abrandados e ainda exaustos. Nesse estado não se pode ouvir música sem chorar. –“ (NIETZSCHE, 2008b, p.86).

Por esses tempos ouvi num simpósio sobre Nietzsche uma crítica à valoração da doença de uma forma positiva, ao dizerem que não precisamos passar pelos piores sofrimentos para sabermos o valor e o verdadeiro sabor da saúde. Mas me parece ser inegável que alguém que sabe realmente o que é vivenciar a dor de perto desenvolve a habilidade pelo menos de lidar com um pouco mais de serenidade com as peripécias da vida, por conhecer bem a que níveis de desprazer ela pode nos levar. Com a doença, somos coagidos, praticamente sem chances de resistência, a um estado de renúncia, de grande renúncia, que nos provê da capacidade muito mais desenvolvida de lidar com as renúncias menores, fazendo mesmo que certas renúncias se tornem menores, gerando em nós até mesmo o “orgulho da virtude graças ao qual passamos a facilmente obter muitas pequenas renúncias de nós” (NIETZSCHE, 2008, p.156, §403).

Nietzsche, por ser um pensador trágico, afirma a doença com um papel insubstituível e imprescindível, afirma o lado obscuro da vida como uma necessidade sobre a qual devemos pensar e, além disso, tirar o máximo de proveito para a intensificação do cuidado de si mesmo e para o reconhecimento e apropriação de nossas verdadeiras metas. Finalizo com a citação de um outro aforismo de Aurora intitulado Ânimo para sofrer: “Tal como somos agora, podemos suportar uma boa quantidade de desprazer, e nosso estômago é regulado para esse pesado alimento. Sem ele, talvez julgássemos insípida a refeição da vida; e sem a boa vontade para a dor teríamos que deixar de lado muitas alegrias” (NIETZSCHE, 2008b, p.203,§354)

BIBLIOGRAFIA

DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Memórias do Subsolo. Tradução de Boris Schnaidermann. São Paulo: Ed. 34, 2000.

NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano II. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

NIETZSCHE, Friedrich. Aurora. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2008b.

Publicado em 6 de abril de 2010

Publicado em 06 de abril de 2010