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No tempo da poesia

Pablo Capistrano

O filósofo pensa o Ser, o poeta nomeia o sagrado. Isso um dia foi dito por Martin Heidegger para provavelmente explicar seu interesse especial pela poesia de Hölderlin, Rilke e Trakl - todos filhos de uma mesma linhagem de poesia alemã.

Heidegger não estava falando de poesie (aquilo, por exemplo, que aparece escrito no papel quando Carlos Drummond de Andrade ou Manuel Bandeira fazem um poema). Ele estava se referindo a um outro termo em alemão: Dichtung.

O poético ultrapassa o poema.

Não sei se você lembra, mas no tempo mais radical de furor concretista, quando os irmãos Campos eram a medida da consciência estética nacional, falava-se que o poema era diferente da poesia. Deve haver um dedo de Heidegger nessa distinção, apesar dos concretistas serem muito metafísicos e dualistas para ultrapassar a ideia de objetividade (poema) e subjetividade (sentimento poético) como Heidegger fez.

Na verdade, a poesia nomeia o sagrado porque ela instaura o mundo. Ela constrói, no seu dizer, um lugar de linguagem para o homem habitar. Heidegger gostava dessas imagens misteriosas e achou no poético um canto confortável para encarar sua própria cultura e expandir seu próprio pensamento. Ele costumava dizer que os alemães precisavam enfrentar Hölderlin, um poeta que foi amigo de Hegel e de Schelling, mas que foi relegado pela crítica germânica a uma condição de subalternidade por quase cem anos. Taxado de demente, sua poesia era vista como um detalhe menor no mundo cultural alemão, uma mera curiosidade psiquiátrica.

Dizer que os alemães precisavam enfrentar Hölderlin era dizer que eles precisavam ouvir sua poesia. Precisavam direcionar sua atenção para sua linguagem, porque essa linguagem comunicava algo de fundamental, algo íntimo, que se escondia na interioridade da língua, no espaço mais profundo, onde a vida de um povo se encontra com sua própria fala.

Nós, potiguares, ainda não enfrentamos nossos poetas.

Não aprendemos ainda a ouvir o chamado íntimo da língua, o sinal da palavra que instaura nosso mundo. Estamos, por enquanto, condenados a esquecer o apelo poético de nossa própria fala e fechar os ouvidos para o sinal de nossa linguagem. Esperamos sempre outros, buscando em locais distantes o eco de nosso mundo.

Elegemos um ensaísta da linhagem de Montaigne – Câmara Cascudo – como nosso único referencial intelectual digno de respeito e nos esquecemos de olhar o poético com a atenção necessária. Agora que a obra completa de Jorge Fernandes foi publicada (em um livro fundamental organizado pela professora Maria Lúcia de Amorim), agora que o Sebo Vermelho de Abimael Silva republicou Os Elementos do Caos de Miguel Cirilo, deve ter chegado a hora de aprender a ouvir poesia.

Não se trata de prender a atenção apenas na superfície estilística da língua, no raso horizonte das vibrações gramaticais e das acrobacias linguísticas. Ouvir a poesia é perceber o seu chamado profundo, sua estrutura interna, a intensidade de seu poder retórico e instaurador. Esse poder é o mais intenso e o mais forte porque constrói os mundos em que nós habitamos. Uma cidade, um país, um povo não comunga com sua própria força, nem com sua coragem, enquanto não aprende a ouvir a poesia que constrói sua morada.

Ainda não retornamos ao tempo da poesia. Ainda não aprendemos a ouvir de novo aquilo que um dia nos constituiu. Aqui, nesse mundo novo, nessa cidade em decomposição e expansão, nesse ambiente de morte e renascimento, precisamos aprender a enfrentar nossos poetas, para não sermos despejados, coletivamente, do lugar onde a linguagem monta seus acenos.

Publicado em 6 de abril de 2010

Publicado em 06 de abril de 2010