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A Varanda do Frangipani e os personagens do silêncio

Fábio Santana Pessanha

Mestrando em Poética (UFRJ) e editor do Dicionário de Poética e Pensamento

Mesmo não sendo um livro tão recente, este romance de Mia Couto, publicado em 1996, merece nossa atenção. Afinal, a obra de arte (no caso, literária) não tem idade ou validade; ela empreende o arrebatamento de quem se disponibiliza a recebê-la sem se ater à cronologia de uma dada época, causando espanto e incitando belos e fundamentais momentos de questionamento. Obviamente, uma obra de fato não se restringe ao elogio acadêmico ou ao sucesso comercial, nem se detém num aglomerado de palavras vazias, fúteis, de simples entretenimento; é aquela que possibilita a abertura ao pensar, que convoca para a tensão de caminhar rumo ao inalcançável, fazendo-nos lembrar de nossa perene condição de habitantes da liminaridade entre vida e morte, ser e existir.

Esse romance se compõe de uma narrativa personativa por mostrar o que cada personagem sente e reflete no decorrer de suas ações. O narrador não é aquele constituinte figurativo que meramente se encarrega de contar a história, é uma faceta múltipla estendida pela trama ao refletir e confidenciar aquilo que experienciou na cisão personativa dos vários entes narratológicos.

Em especial, temos Ermelindo Mucanga (o xipoco): o personagem que nos enviesará pelos entremeios de um mosaico imagético, de imagens-questões que nos farão repensar o comum do cotidiano e a semântica irregular das palavras desencaixadas da afirmação lexicográfica. Por seu trajeto intra-humano, os demais se manifestam, isto é, enquanto instalado no corpo do policial Izidine Naíta, sua narrativa é decorrente do que vê enquanto o “polícia” segue com sua missão de desvendar o assassinato de Vasto Excelêncio,diretor do asilo no qual a trama transcorre.

O modo como o enredo se desenvolve desdiz a configuração tradicional de uma narrativa se apresentar. Quando nos detemos na leitura do romance A Varanda do Frangipani, enclausuramo-nos na abertura de um texto que não se conserva na grafia de impressões narrativas. A mesma se dá complexamente ao ser revelada pela ótica do fantasma – o Ermelindo Mucanga –, figurando tanto como personagem quanto como narrador (que, de certa forma, servirá como nó da rede dialógica presente), como pela fala dos outros personagens habitantes desta “varanda”. Podemos depreender, então, que temos uma diversidade de fontes narrativas, uma vez que os demais personagens traçarão os acontecimentos conforme seu ponto de vista.

Mergulhado na densidade dos acontecimentos e enredado nas fabulações dos personagens, o inspetor se envolve completamente na complexidade que compõe cada um deles. Nesse percurso, percebe-se intruso de si mesmo devido ao afastamento da tradição de seu povo. Izidine é um negro em desraização que conhece o novo mundo que se instaura, por isso, dotado da ambivalência entre o passado tradicional (que está sendo enterrado com os idosos) e o modo de vida imposto pela cidade. Diante de tal situação, consegue ganhar a confiança dos idosos, como vemos no capítulo intitulado “A revelação”, no qual a trama manifesta sua radicalidade mito-histórica ao confluir acontecimentos historiográficos embebidos do entusiasmo mitopoético. Nesse momento da narrativa, o inspetor se vê deitado no chão, em meio a um ritual em que personagens como Nãozinha – mulher que se dilui em água todas as noites, a feiticeira habitante do entre-vivos-e-mortos – lhe revelam a própria morte e quem o matará.

Da tríade varanda, frangipani e mar brotaram os sonhos de uns esquecidos que tentavam resguardar um pouco do que ainda restava de uma terra sem guerra. Esse conjunto de imagens transborda o horizonte de sonhos no qual um pouco da história de libertação moçambicana, em especial o pós-guerra, se poetifica no entrelaçamento de vidas que cheiram a terra e têm o mar como passagem ao infinito. A varanda é o eixo de articulação entre o que se passara no conflito colonial e o que se tinha como expectativa de um porvir, isto é, se “por aquele terraço escoaram escravos, marfins e panos” (p. 13), naquele trampolim também os personagens se puseram a vislumbrar a paz acalentada no azul do mar.

A varanda é onde a terra e o tempo, o histórico e o poético se sacralizam num entre-vida-e-morte. Essa liminaridade se dá na frangipaneira por ser a via de comunicação entre vivos e mortos. Suas raízes estão fincadas no mistério da terra enquanto seus galhos ganham a infinitude do céu. Suas flores são dádivas divinais de reconforto aos vivos: “A meu lado estavam brancas flores do frangipani. E adormeci ao consolo daquele perfume” (p. 138); e, retomando o que já fora mencionado, é reforçado o símbolo da circularidade entre vida e morte: “Então, desci do meu corpo, toquei a cinza e ela se converteu em pétala” (p. 151). O asilo é o recôndito memorial, o último resquício dos “antigamentes”. Nesse lugar, a história se desistoriografa, é um mundo inaugurante de pessoas-personagens que se desmascaram num esparramar histórico-mítico. Suas vozes são suas crenças, e suas crenças, ao contrário da fuga interpretada superficialmente pela leitura recolhedora de fatos, são a imersão na verdade naquilo que essencialmente se apresenta: a memória da tradição, de uma tradição obliterada pela guerra, encharcada de sangue inocente e destroços humanos:

A guerra cria um outro ciclo no tempo. Já não são os anos, as estações que marcam nossas vidas. Já não são as colheitas, as fomes, as inundações. A guerra instala o ciclo do sangue. Passamos a dizer ‘antes da guerra, depois da guerra’. A guerra engole os mortos e devora os sobreviventes (p. 127).

É nessa realidade onírico-presentificada que a trama do romance de Mia Couto se apresenta. Ao mesmo tempo que nos deparamos com relatos histórico-historiográficos, estes se revelam numa simbiose mítico-históricas. É a tradição, a voz dos antigamentes na figura dos idosos vivendo não como uma reminiscência que se deflagra num súbito memorial, mas elevando radicalmente o sentido mnemônico como a própria acontecência do acontecível, como tempo silencioso de um nada não niilista, e sim proveniente. A memória é, nesse sentido, o mito em pleno vigor de passado, presente e futuro num só instante. E este é o instante de união, de inaugurabilidade da verdade na fala e no gesto de cada personagem. Podemos perceber a dimensão do que dissemos agora no seguinte trecho:

Viram o helicóptero?, perguntou Izidine, excitado.
Qual helicóptero?
A velha feiticeira soltava as gargalhadas. Aquilo que o polícia tomava por máquina voadora era o wamulambo, a cobra das tempestades (p. 150).

Diante desse fragmento, defrontamo-nos com a dualidade simbiótica da visão modernizada de Izidine e do olhar místico da feiticeira ao reconhecer no helicóptero a cobra das tempestades primordiais – o wamulambo. Esse movimento duplo não dicotômico percorre toda a narrativa, desfazendo a fácil categorização do romance num simples estilo literário.

A tensão instaurada pela guerra pode ser entendida no ecoar do “antigamente” nos idosos, sendo eles a própria essência dessa tradição, assim como no “depois da guerra” manifestado em Izidine Naíta, o branco de cor negra que carrega a deveniência da modernidade no pós-guerra moçambicano. Nesse atravessamento histórico, o respeito aos anciãos se esvai mediante a perda da consciência de um passado em que eles tinham a última palavra nas decisões e diante do apressamento temporal de um novo cotidiano: o das máquinas e da modernidade.

A antiga fortaleza colonial é onde o passado se guarda. Ela detém os restos não só de um país que se modifica, mas de um povo que está na iminência de perder sua genealogia mito-histórica. Fora do asilo, o que temos é a cidade em caos, devastada pela guerra e pelo esquecimento do antigamente. Tal situação é clarificada nas palavras do personagem Salufo Tuco aos idosos, quando foi vitorioso numa tentativa de fuga mas retornou ao asilo-exílio, atropelado pela decepção da desimportância que os jovens e toda sociedade moderna atribuíam aos anciãos, além de perceber que o asilo figurava como último sopro de um passado em que se prestava respeito à tradição:

vocês [os velhos] são a casca da laranja onde já não há nem sobra de fruta. Os donos da nossa terra já espremeram tudo. Agora, estão espremendo a casca para ver se ainda sai sumo (p. 112, colchetes nossos).

Na conjugação asilo-cidade, percebemos traços da dimensão política pela qual passa Moçambique, quando Marta Gimo menciona a tentativa de um golpe de Estado:

Você nunca vai entender. O que se está a passar aqui é um golpe de Estado.
Um golpe de Estado?
Sim, é isso que o deveria preocupar, senhor polícia (p. 102).

Porém, como já fora dito, este romance não é uma narrativa política ou policial. É um dar-se textual-poético-mítico em que as imagens presentes abundam em significância, conforme a interpretação do leitor que dialoga com a excessividade do entorno infinito-inaugural da poíesis como essência do agir. Portanto, da vida em acontecimento, do mito como voz do sagrado e da memória em entre-realidades do real.

Por fim, percebemos o contexto político de Moçambique, que vive um tortuoso pós-guerra, na visão dos entes narratológicos absorvidos na realização concreta da fala de um passado em decadência. O vigor mítico de dizer o presente se revela na acontecência da tradição figurando personagens do silêncio.

Referência

COUTO, Mia. A Varanda do Frangipani. 7ª ed. Lisboa: Caminho, 1996.

Ficha técnica do livro:

  • Título: A Varanda do Frangipani
  • Autor: Mia Couto
  • Gênero: Romance
  • Produção: Companhia das Letras

Publicado em 11/05/2010

Publicado em 11 de maio de 2010