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Diferente sim e daí: uma reflexão acerca da diferença em contos e filmes infantis

Bonnie Axer

Mestranda do Proped/Uerj

Neste artigo, busco fazer um diálogo com meu artigo anterior a respeito da diferença em leituras destinadas à infância. Mas, diferentemente da análise de livros, veremos agora dois contos infantis, A Bela e a Fera e Shrek, e suas adaptações para o cinema: o primeiro, um clássico da Disney (1991); o outro, produção recente da Dream Works (2001). Ambos trazem ideias acerca do respeito, convívio e aceitação das diferenças a partir do questionamento de alguns padrões de beleza.

Vivemos num mundo que cultua excessivamente a beleza; constitui-se também das diferenças que ainda não são devidamente reconhecidas e respeitadas. Esse apelo à estética, essa ditadura da beleza na qual estamos inseridos atinge também nossas crianças. É buscando entender, refletir e analisar como esse apelo à beleza atinge nossas crianças que proponho uma discussão sobre tais contos.

Escolhi essas leituras – o conto e o filme de cada história – porque as encaro como produções culturais que fazem parte de uma cultura midiática cujas imagens, sons, vestimentas e leituras ajudam a tecer a vida cotidiana, modelando opiniões políticas, padronizando comportamentos sociais e fornecendo o material com que as pessoas forjam suas identidades. “Assim, o rádio, a televisão, o cinema e os outros produtos da indústria cultural fornecem os modelos daquilo que significa ser homem ou mulher, bem-sucedido ou fracassado, poderoso ou impotente”(Kellner, 2001).

Uma primeira análise que faço é a utilização do estereótipo nas histórias infantis, principalmente nas consideradas aqui, como uma estratégia de dominação, uma forma arbitrária de fixar uma característica do sujeito que acaba formando identidades e rotulando o sujeito. O estereótipo situa no sujeito algo que o diferencia dos demais e que não permite avistar as suas características restantes, impedindo, assim, a circulação do significante na medida em que aliena o corpo do sujeito (Bhabha, 1998). O estereótipo é ainda uma estratégia de fixação de identidades e demarcação da diferença como exclusão, questão que será discutida mais à frente. Muitas vezes as características físicas dos personagens se sobrepõem às características emocionais, reforçando o valor da aparência em detrimento de sua essência.

A fada, a princesa, a mocinha são sempre protótipos da raça ariana: cabelos longos e loiros, olhos azuis, corpo esbelto, altura média, roupa imaculada (...). O mocinho, o príncipe, é alto, corpulento, forte, elegante (Abramovich, 1994, p. 36-37, 39-40).

A partir dessa estratégia de limitação de ação do sujeito por parte do estereótipo, discuto o entendimento de diferenças – e para tanto me baseio no conceito de diferença utilizado por Bhabha (2003): “a diferença cultural não pode ser compreendida como um jogo livre de polaridades e pluralidades no tempo homogêneo e vazio da comunidade nacional”. Concordo com o autor quando penso que a diferença não pode ser vista por meio de antagonismos fixos, mas sim como um processo de nomeação, em que, na relação com o Outro, é possível perceber o que somos e o que nos falta.

Nesse sentido, Silva (2000) diz que a diferença, assim como a identidade, são relações sociais sujeitas às forças de poder, produzidas na diferenciação com que a sociedade se produz e se organiza, pelas exclusões, inclusões, demarcação de fronteiras, classificações e normalizações. Identidade e diferença se traduzem em declarações de quem pertence ou não, de quem é diferente ou não, de quem é normal ou não.

Sobre tal teorização, é possível encontrar em histórias infantis o emprego de ilustrações e textos que fazem alusão a princesas representadas sempre com as mesmas características: brancas, loiras, jovens e bonitas. Torna-se então fundamental problematizar a fixação de identidades e a demarcação de diferença como exclusão, a fim de questionar as relações de poder presentes nas relações de identidade e diferença.

Fixar uma determinada identidade como a norma é uma das formas privilegiadas de hierarquização de identidade e das diferenças. A normalização é um dos processos mais sutis pelos quis o poder se manifesta no campo da identidade e da diferença. Normalizar significa eleger – arbitrariamente – uma identidade específica como parâmetros em relação ao qual as outras identidades são avaliadas e hierarquizadas. Normalizar significa atribuir a essa identidade todas as características positivas possíveis em relação às quais outras identidades só podem ser avaliadas de forma negativa. A identidade normal é “natural”, desejável, única (Silva, 2000, p. 83).

Nesta perspectiva, só é considerado aceito aquilo que vai de encontro ao que não é aceito. Portanto, uma identidade é sempre produzida em relação a outra; todas as instituições sociais e culturais fundamentam as identidades pelas marcações da diferença (Woodward, 2000). Essa identidade “hegemônica” é constantemente assombrada pelo Outro.

É a partir desses conceitos de estereótipo e diferença que inicio minhas análises das histórias Shrek e A Bela e Fera. Analiso primeiramente a história de Shrek, visto que poucas pessoas sabem que o conto homônimo é anterior à sua forma cinematográfica. Mas, como sua versão literária é pouco conhecida, vou deter a análise à versão para o cinema, até por ser o filme um sucesso entre as crianças e os adultos, principalmente por ser uma paródia dos contos de fadas clássicos.

Ainda assim julgo necessário trazer, mesmo que de forma resumida, a história de Shrek em seu conto original. Shrek é largado no mundo pelos pais, por ser muito feio. Começou a andar sem rumo, assustando as pessoas, até que uma bruxa lhe disse que casaria com uma princesa muito feia; mas, para isso, teria que derrotar um cavaleiro muito feroz. Shrek então sai em busca da princesa, luta contra um dragão e um cavaleiro. Chegando à Sala dos Espelhos, onde a princesa estava presa, encontrou a princesa mais horrorosa de todo o planeta. Percebendo que nasceram um para o outro, casaram-se e viveram “horríveis para sempre”.

No cinema, Shrek se apresenta como um conto de fadas moderno, que tem como principal objetivo bagunçar os contos já existentes, buscando questionar alguns aspectos presentes em contos clássicos, como a questão da beleza, na qual vou me fixar.

No cinema, Shrek é um ogro com aparência grotesca e feições nada convencionais para um herói infantil, sendo totalmente fora dos padrões de beleza com os quais estamos acostumados. Shrek vive sozinho num pântano, mas tem sua solidão ameaçada com a invasão de personagens de contos de fadas, quando o governante Lord Farquaad – outro personagem que desfia o padrão estético, pois é um príncipe baixinho, sem postura de homem forte e belo que conhecemos – decide expulsar todas as criaturas mágicas da floresta e colocá-las no pântano.

Shrek tem então a missão de buscar a mulher dos sonhos de Farquaad, a princesa Fiona, que vivia presa num castelo. Fiona carrega consigo um segredo: de dia é uma “linda” princesa; à noite transforma-se em um “ogro”. Essa transformação é fruto de um feitiço que só chegaria ao fim com o encontro da sua verdadeira essência e quando fosse beijada por um príncipe. Fiona ora é uma princesa, ora é uma “ogra” gordinha e verde; mostra-se uma mulher forte, dona do seu próprio nariz, não submissa aos homens presentes no filme (característica forte nas princesas dos contos de fadas), determinada, mas que em nenhum momento perde sua feminilidade, tampouco sua beleza. Shrek, apesar de aparentemente grotesco, é doce, sensível e aprende a reconhecer e demonstrar suas inseguranças e fragilidades.

Este conto/filme tem uma proposta muito interessante de desmistificar a magia que existe por trás dos contos tradicionais: nada é perfeito e belo como parece. A história de amor que nasce entre os dois é um amor entre os diferentes, pois Shrek é um ogro, e Fiona, apesar de ser enfeitiçada, é uma princesa, bela como todas as princesas, apesar de ser mais forte e mais decidida das princesas que conhecemos. Ambos se encantam com o que está além das aparências.

Apesar de toda essa postura, Shrek é um filme que possui magia passível de ser questionada, pois, ao ficarem juntos, Fiona torna-se tão feia quanto Shrek, assumindo sua verdadeira identidade de ogra com o fim do feitiço. Nesse sentido, o filme traz a necessidade de semelhança de um com o outro para que sejam felizes para sempre!

O fato de Fiona se igualar a Shrek, além de trazer essa necessidade de semelhança entre os dois, traz uma postura machista, pois é Fiona quem tem que abrir mão de sua beleza e de sua vida anterior – e vai morar no pântano; a princesa diferente de todas as outras por sua postura forte perde essa força ao se submeter ao seu amor.

Shrek é um filme que reflete sobre o que é o belo, sobre o feminino, o masculino, o amor, a amizade; e, acima de tudo, sobre a possibilidade de conviver com diferenças sem julgamentos de valor. É um filme muito interessante que permite ter outra visão sobre o que é visto e reproduzido como verdade; mas, infelizmente, é uma história que mantém a estrutura e a necessidade de deixar as coisas bem ao seu final, e, para isso, Fiona se assemelha na feiura de Shrek – ela poderia continuar sendo princesa mantendo o respeito às diferenças propostas na história.

É interessante observar que a mensagem é complexa para a criança – que ao ver Fiona se transformando em ogra não consegue fazer a ligação proposta pela mensagem, que é cada qual com o seu igual.

O mesmo acontece com o conto A Bela e a Fera, história escrita por Jeanne-Marie Leprince de Beaumont (Madame de Beaumont). Cabe aqui fazer a análise do conto e do filme de forma interligada, pois, apesar de algumas mudanças – como a quantidade de personagens e o enredo –, meu foco é a relação entre os diferentes; no caso de A Bela e de Fera, são os mesmos nas duas produções.

Fera, um personagem que sofre com sua aparência monstruosa e grotesca – que por vezes se assemelha à de um animal – também é fruto de feitiço a ser quebrado com a retribuição de um verdadeiro amor. A imagem de Fera é arraigada no imaginário infantil pela divulgação da Disney em sua versão cinematográfica do conto (adaptação mais conhecida entre as crianças). Interessante destacar que a feição “bruta” e “grotesca” de Fera é mais uma forma de fixar uma identidade através da utilização do estereótipo. Por não ser tão delicado e com feições europeias como a Bela, as características de Fera são ressaltadas exatamente por essa falta – transformando-as em algo ruim e malvado.

Bela (uma jovem inteligente) troca de lugar com seu pai – que virou prisioneiro do castelo de Fera ao se perder na floresta no caminho de volta para casa. Bela chega ao castelo e lá faz um acordo com a Fera: ficar para sempre no castelo em troca da liberdade de seu pai. Bela é então vista por todos no castelo como alguém que tem a chance de quebrar o feitiço. Mas isso só acontecerá se a Fera amar alguém e essa pessoa retribuir seu amor. Bela, a partir de sua convivência com a Fera, logo passa a ver o que há por trás da aparência assustadora do outro, aparência que esconde o coração e a alma de um príncipe humano, e acaba se apaixonando por ele. “Bela se torna um exemplo de etiqueta e estilo ao transformar esse brutamonte tirano e narcisista em um modelo do “novo” homem, sensível, atencioso e amoroso (...)”(Giroux, 2004).

Tanto no conto como no filme, a narrativa se encerra com a Fera se transformando em um belo príncipe e se casando com Bela, a única que conseguiu amá-lo apesar de sua aparência assustadora. Mesmo com a aceitação de Bela em relação à sua feiura, ele se transforma num belíssimo príncipe – com traços delicados e características europeias, arianas, padrão ao tratar de príncipes e princesas. Mais uma vez existe a necessidade da semelhança para um final feliz.

A busca pela aceitação é algo comum entres essas duas histórias; tanto Fera quanto Shrek têm seu conflito resolvido ao tornarem-se “semelhantes” para serem bem aceitos. O que acaba ocorrendo pode ser entendido como anulação das diferenças a partir da transformação das subjetividades. O discurso hostil de repúdio ao diferente não é desconstruído – permanece oculto nos finais felizes dessas duas histórias.

A partir das análises feitas, podemos perceber o questionamento de ordem estética e de valores que fica à margem quando se adota a diferença como principal motivo da exclusão. Nesse sentido, a forma com que as leituras presentes na vida das crianças vem lidando com esse tipo de questão deve ser observada pelos adultos de forma que leve à reflexão sem buscar respostas exatas e adotadas como “verdades”.

Então se faz necessário que a formação das crianças seja crítica e reflexiva em relação ao que é lido, assim como a atuação do professor e de todo profissional de educação. Deve-se assumir o papel de mediador, com prática de ação/investigação, em que seja feita leitura crítica da história, analisado todo seu contexto, a possível formação de identidades, a presença de preconceitos, valores e padrões preestabelecidos que possam ser apropriados pelas crianças, de modo que elas não caiam nas artimanhas dos preconceitos sugeridos diante de identidades adotadas como perfeitas.

A educação escolar possui, nesse sentido, papel fundamental como espaço de possibilidade de problematização de tais mensagens, lugar onde esses discursos podem ser (re)significados, superados ou, pelo menos, contestados. Livros e filmes que trazem tais histórias não são meramente objetos destinados a entreter o público infantil; trata-se também de suportes cujo conteúdo envolve crenças, ideologias, estereótipos e conceitos dos mais variados, pois são produções culturais que não são neutras, pois trazem características dos contextos históricos e sociais nos quais estão inseridos.

A mesma história que diverte e instiga e envolve é também um instrumento relevante para ensinar conhecimentos que a criança vai acrescentando à sua bagagem cultural e, dessa forma, compreendendo e (re)elaborando o mundo em que vive.

Bibliografia

A BELA E A FERA. Porto Alegre: Edelbra, 2001.

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil, gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1994.

BHABHA. H. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.

GIROUX, Henry A. Os Filmes da Disney são bons para os seus filhos? In: STEINBERG, Shiley R.; KINCHELOE, Joe L. (org). Cultura infantil, a construção corporativa da infância. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

STEIG, William. Shrek. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2001.

SILVA, Tomaz Tadeu da; HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença – a perspectiva dos estudos culturais. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.

WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da; HALL, S &WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença – a perspectiva dos estudos culturais. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2000.

Sites pesquisados

http://www.animatoons.com.br/movies/beauty_and_the_beast/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Beauty_and_the_Beast_(Disney)
http://www.shrek.com/main.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Shrek

Publicado em 11/05/2010

Publicado em 11 de maio de 2010