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Linguística Aplicada ao ensino de Língua Portuguesa: a oralidade em sala de aula

Juliana Carvalho

Professora e redatora

Hoje em dia, ouvimos muito falar em Linguística Aplicada. Multiplicam-se os programas de pós-graduação dedicados a ela e relacionados ao ensino de línguas estrangeiras. A Linguística Aplicada está realmente em evidência, mas o que ela é de fato? Qual a diferença de outras áreas da Linguística, principalmente as mais tradicionais? Como utilizá-la no ensino de língua portuguesa? Tentando responder a essas perguntas, elaborei este texto em duas partes: uma teórica (que aborda também uma parte histórica), e uma prática, com sugestões de exercícios voltados ao ensino da língua.

A Linguística Aplicada (LA) nasceu há mais ou menos 60 anos, como uma disciplina voltada para o ensino de línguas estrangeiras. O primeiro curso de LA ocorreu na Universidade de Michigan, em 1946, ministrado por Charles Fries e Robert Lado. Na época, tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, a LA representava uma abordagem científica do ensino de línguas estrangeiras.

A LA tem como objeto de estudo a linguagem como prática social – atualmente não só em relação às línguas estrangeiras, mas também no contexto de aprendizagem da língua materna ou em outros contextos em que se aborde o uso da linguagem. Durante muito tempo, a LA foi vista como uma forma de aplicar a Linguística teórica ao ensino de línguas, ou seja, era uma ciência voltada para os métodos e técnicas de ensino. Essa ainda é uma tendência forte na área, mas outras questões surgiram nos meios escolares e acadêmicos. Atualmente podemos destacar três direções para a LA: ensino e aprendizagem, aplicação de linguagem e investigações aplicadas sobre estudos de linguagem como prática social.

Esse braço da Linguística começou a se difundir na segunda metade do século passado, tanto no Brasil como no exterior. Aqui, em todas as regiões do país foram criados programas de pós-graduação ou área de concentração em LA. Alguns marcos dessa expansão são: a criação, em 1970, do Programa de Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas da PUC-SP, posteriormente denominado Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (LAEL), com a criação do doutorado em 1980, conforme informações na página eletrônica do programa. Também na década de 80 foi lançada pelo programa a revista D.E.L.T.A. (Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada); com o surgimento do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Unicamp, nasceu a revista Trabalhos em Linguística Aplicada. Esses dois programas de pós-graduação foram os principais responsáveis pela formação dos “linguistas aplicados” de vários estados brasileiros e pelo desenvolvimento de pesquisa, em conjunto com a produção de muitas outras universidades brasileiras, que criaram áreas de concentração em LA em seus programas de pós-graduação em Letras ou Linguística.

Porém, se a pós-graduação se destaca nos estudos da LA, o mesmo não se pode afirmar da graduação. Muitas universidades conceituadas ainda não dispõem de profissionais especializados nesse ramo da Linguística, e a disciplina é oferecida, quando muito, como eletiva ou optativa nos currículos dos cursos de Letras. O primeiro concurso para contratação de professor de LA para atuar na graduação ocorreu somente em 2004, para a Faculdade de Letras da UFMG. Apesar disso, a área ainda é promissora e faltam profissionais especializados, sendo vasto o campo de trabalho, principalmente no ensino de línguas.

Linguística teórica X Linguística Aplicada

A Linguística é uma disciplina que pode englobar várias matérias, podendo ser usada para dar-lhes substância intelectual. Essas matérias, por sua vez, podem ser entendidas como componentes de outras disciplinas que não a Linguística. A LA é entendida como a utilização de conteúdos linguísticos para aprimorar a prática nas disciplinas que usam a linguagem.

A LA também já foi classificada como uma "atividade", em oposição à Linguística teórica, que é um "estudo". Ela faz uso de resultados de estudos teóricos. O "linguista aplicado" é um usuário, não um produtor de teorias. De acordo com essa perspectiva, a LA se transformaria numa simples tecnologia, diretamente subordinada aos princípios descritivos da Linguística teórica.

Para justificar a diferença do campo de atuação das duas ciências, podemos afirmar que antigamente os profissionais voltados para a LA eram tão poucos que muitas de suas tarefas passaram, naturalmente, a ser realizadas por linguistas, o que contribuiu definitivamente para que a área de LA tomasse emprestado teorias e conceitos da Linguística teórica.

Dando continuidade a essa teoria, é difícil diferenciar as duas ciências, como é difícil delimitar as relações de influência e domínio de uma ciência na outra. Exemplificando: a Linguística é com certeza a ciência de maior influência na LA, mas não a única.

Outra discussão entre os pesquisadores e no meio acadêmico em geral é sobre a noção de LA como sinônimo de estudo científico dos conceitos e da prática do ensino/aprendizagem de língua estrangeira. Muitos estudiosos acreditaram desde o início que o objetivo dessa ciência era apenas a resolução de problemas relacionados ao ensino de línguas estrangeiras e com a tradução automática.

Essa discussão permanece até hoje, mas a LA ganhou força com a criação de uma entidade própria: a Association Internationale de Linguistique Appliquée – AILA – fundada em Nancy, França, em 1964, liderada pelos professores C. C. Fries e R. Lado, ambos preocupados com o ensino de línguas. Na ocasião, houve forte tendência em relacionar o termo LA ao ensino de línguas estrangeiras.

Hoje em dia, a rigidez na definição do objeto da LA e nas tarefas do linguista aplicado se perdeu. O conteúdo dos debates nos últimos congressos tem incluído praticamente todos os campos da atividade humana (tanto em seus aspectos teóricos como práticos) em que a linguagem desempenha algum papel de relevância. Do mesmo modo que a LA se torna independente da Linguística, desvencilha-se também da falsa identidade única com o ensino de línguas e particularmente com o ensino de língua estrangeira.

A Linguística Aplicada ao ensino de Língua Portuguesa

A escola deve incentivar o aluno a atingir seu desenvolvimento linguístico; no entanto, ela divide o ensino em leitura e compreensão, história da literatura, gramática e produção textual. A fragmentação não permite aos alunos refletir e agir sobre a linguagem. O que eles fazem inicialmente é decodificar e, posteriormente, analisar a língua, atividades realizadas em momentos distintos que não os levam a desenvolver satisfatoriamente a capacidade linguística.

O professor deve lembrar-se de que o ensino da língua não se baseia apenas na gramática. O papel dos professores de Língua Portuguesa não é fazer com que os alunos adquiram somente uma variante da língua, mas levá-los a ampliar seus conhecimentos com variantes regionais e outros níveis de formalidade de uso dessa língua. Dessa forma, o ensino gramatical eficaz deve tomar como base conteúdos apresentados por textos dos próprios alunos e de autores diversos, de diferentes regiões do Brasil, que permitam ao aluno identificar essas variantes.

Os estudos gramaticais precisam ser desenvolvidos de forma a ampliar a capacidade comunicativa do aluno. O professor deve partir da produção e recepção de textos de diferentes variedades linguísticas, utilizando o contexto em sua aplicação. Neste caso, é possível perceber a gramática como uma prática textual, discursiva e de uso, ampliando o ensino de língua para além da gramática normativa.

A LA mostra que o ensino amplo de língua materna deve partir da valorização da língua falada, já que é a modalidade de língua que as pessoas aprendem naturalmente desde a infância e que está em constante mutação. Não podemos mais desconsiderar as evoluções linguísticas na sala de aula e viver na concepção da gramática tradicional, sob o domínio da língua escrita. É importante mostrar que a língua falada possui especificidades que precisam ser trabalhadas.

Os PCN enfatizam que o ensino de gramática não pode ser desarticulado da leitura e da produção de textos, uma vez que estes configuram a totalidade. Quando for necessário fazer recortes para facilitar o estudo, eles devem estar relacionados a outros elementos do processo. Por isso, as unidades de gramática, texto e produção de textos devem estar sempre articuladas.

O trabalho com a oralidade na sala de aula

Muitos alunos demonstram dificuldade para escrever e reproduzem a língua oral nas tarefas de produção de textos. Eles escrevem como falam. É importante que a escola trabalhe a oralidade, mostrando as diferenças e semelhanças entre estas duas modalidades linguísticas, fala e escrita.

O estudante precisa saber que não existe uma gramática pronta para a língua falada e que há diferenças léxicas na constituição de textos falados e de textos escritos, uma vez que, na escrita, deve-se utilizar vocabulário mais amplo, construções sintáticas diferentes das usadas na língua oral, menos interjeições e outras diferenças.

Além disso, o professor deve reforçar com os alunos a noção de que a interação da fala se dá pessoalmente, face a face, e a da escrita não. Por isso, a fala não é previamente planejada e a escrita, sim. A escrita pode ser revisada, mas a fala não admite recriação; ao escrever podem ser feitas consultas, e ao falar não. A fala demonstra seu processo de criação; a escrita mostra o resultado.

Sugestões para o trabalho com a oralidade na sala de aula

É importante esclarecer que os estudos gramaticais não devem ficar em segundo plano. Pelo contrário, precisam ser trabalhados de forma a ampliar a capacidade comunicativa do aluno. Para isso, o professor deve partir da produção e da recepção de textos, porque é no texto que as palavras ganham sentido. Além disso, o texto permite ao aluno ter um panorama geral da língua em funcionamento, e não apenas um panorama fragmentado.

A visão corrente em relação à concordância verbal é de que quem não a domina não domina o padrão culto da língua. Entretanto, até pessoas cultas, ao falar, deixam de empregar por vezes regras de concordância verbal. Como já foi dito, o aluno precisa reconhecer que há diferença entre a fala e a escrita e que a falta de concordância verbal nem sempre é aceita, principalmente na escrita.

As sugestões de atividades que relaciono a seguir privilegiam o trabalho com textos, embora não se deva esquecer de que o trabalho com a gramática teórica deve ser utilizado como um recurso a mais no desenvolvimento da capacidade comunicativa do aluno. Todavia, o conhecimento da gramática teórica é sempre importante, já que permite ao aluno conhecer a língua como uma instituição social.

As atividades

  1. Imagine um camelô conversando com seu cliente e tentando vender seu produto:

    O amigo, me diga uma coisa: tu já viu coisa igual na vida? É canivete, descascador, boleador, cortador de unha, abridor de garrafa, lixa, palito de dentes, caneta, alicate, chave de fenda... É dois mil e uma utilidade! E mais uma coisa, só entre eu e você, e o preço? É uma pechincha! Nenhum cliente reclamou até hoje, é coisa garantida!

    1. Nesse texto, o camelô cometeu três erros gramaticais; sublinhe as formas erradas, indique o motivo de serem vistas como incorretas e faça a correção.
    2. Ainda que o problema da repetição de palavras idênticas não seja tão grave na língua falada quanto na língua escrita, podemos tentar substituir a palavra coisa (quatro ocorrências no texto) por outras mais específicas; indique, assim, termos substitutos para os casos abaixo:
      • ...tu já viu coisa igual na vida?
      • ...e mais uma coisa...
      • ...é coisa garantida...
    3. Uma das intenções do camelô é a de ser simpático ao provável freguês, a fim de vender seu produto. Indique dois processos utilizados no texto para criar simpatia.
    4. Outra finalidade do camelô é valorizar o produto que está tentando vender. Identifique no texto um momento em que isso ocorre.
    5. Reescreva o texto original corrigindo os erros gramaticais e substituindo as três últimas concorrências da palavra coisa.
    6. Qual das formas do texto seria mais adequada à situação? A original ou a reescrita por você? Por quê?
  2. O texto que segue é uma reprodução da língua falada. Observe as inadequações no que diz respeito à concordância verbal e faça as devidas correções:

    Tava tendo um jogo na quadra
    Daí veio dois homens de moto
    E chegou um carro e bateu na moto
    Os cara da moto caiu e se machucou
    Daí levaram os cara pro hospital

  3. Observe a letra da música Inútil, do conjunto Ultraje a rigor, e responda às questões abaixo:

    Inútil

    Roger Moreira

    A gente não sabemos escolher presidente
    A gente não sabemos tomar conta da gente
    A gente não sabemos nem escovar os dente
    Tem gringo pensando que nóis é indigente
    (Refrão)
    Inútil
    A gente somos inútil
    A gente faz carro e não sabe guiar
    A gente faz trilho e não tem trem pra botar
    A gente faz filho e não consegue criar
    A gente pede grana e não consegue pagar
    (Refrão)
    A gente faz música e não consegue gravar
    A gente escreve livro e não consegue publicar
    A gente escreve peça e não consegue encenar
    A gente joga bola e não consegue ganhar

    1. A música apresenta alguma ocorrência inadequada em relação ao padrão culto da língua? Explique.
    2. Essa música apresenta particularidades em relação à concordância do verbo. Qual a intenção do autor ao utilizar esse recurso?
    3. Reescreva a letra, transformando-a no padrão culto da língua.
    4. Ao realizar a transformação, a mensagem da música perdeu seu significado? Justifique.
  4. Em cada uma das situações abaixo indicadas foram formuladas duas frases de diferentes estruturas; assinale aquela que lhe parecer a mais adequada:
    1. Situação: um médico para um cliente de baixa cultura:

      (  ) Você deve friccionar a pomada na região lombar.
      (  ) Você deve passar a pomada nas costas.

    2. Situação: dois amigos, para o garçom, no bar:

      (  ) Me dá dois copos, por favor.
      (  ) Dê-me dois copos, por obséquio.

    3. Situação: palestrante em um evento formal:

      (  ) Observem o quadro.
      (  ) Olha pra cá, pra esse quadro.

Exercícios adaptados do livro utilizado no Pré-Vestibular Social da Fundação Cecierj, elaborado pelo prof. Agostinho Dias Carneiro. Módulo 1, Parte 1, ano 2003.

Publicado em 18 de maio de 2010

Publicado em 18 de maio de 2010