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Acaso, destino e escolha ou o velho dilema entre o casamento e a aquisição da bicicleta

Mariana Cruz

Imaginemos aquela viagem dos sonhos para uma ilha paradisíaca programada para o final de semana. Os mais pés-no-chão não deixariam se envolver tanto pelo idílio tropical e, objetivos por natureza, tratariam de checar a previsão do tempo. Com sol, tudo bem, com chuva: viagem cancelada. Os tô-nem-aí nem de longe pensariam em acessar o site de serviços meteorológicos: a imprevisibilidade dos acontecimentos serve-lhes de motor. Para eles, literalmente, “não tem tempo ruim”; se fizer sol, tomam banho de mar; se cair um temporal, tomam banho de chuva.

Tais modos opostos de pensamento não se restringem a uma viagem; estendem-se a diversas situações ao longo da vida. Existem aquelas pessoas que, desde muito novas, já traçaram o futuro, estabeleceram suas metas, sabem onde querem fazer o ensino médio para passar no vestibular em determinado curso de determinada faculdade, para que, após se formar, trabalhar na empresa tal. E antes dos trinta já se pretendem casados com dois filhos, de preferência um casal – pena que, quanto ao sexo dos rebentos, não poderão deliberar.

No lado oposto estão aqueles que seguem o refrão do batido pagode: “deixa a vida me levar...”: não têm planos nem para o que farão daqui a uma hora. A vida é um total improviso. É o caso sujeito que está no meio da faculdade (cujo curso ele escolheu na hora da inscrição), vai passar férias em uma praia deserta e se apaixona pelo lugar, decide morar lá, virar pescador e nem se dá ao trabalho de trancar a matrícula. Quem sabe um dia volta, ou segue viagem para outro lugar, quem sabe?

Tais diferentes modos de levar a vida têm, como grande parte das coisas, suas vantagens e desvantagens. Aquele indivíduo pertencente ao primeiro tipo pode vir a arrepender-se por não ter dado chance ao acaso, e o do segundo pode lamentar-se por não ter construído nada devido às constantes mudanças de rumo. Por vezes, de nada adianta cercar-se de informações meteorológicas se de uma hora pra outra chega uma frente fria inesperada da Argentina e cai uma tempestade pegando a todos de surpresa e fazendo com que tudo vá, literalmente, por água abaixo. O ato de planejar-se rigidamente, sem estar aberto ao acaso, é nocivo na medida em que, frente a algum imprevisto, fica faltando a ginga necessária para se desvencilhar.

Uma ironia com tal rigidez é bem ilustrada em uma tira da Mafalda, em que ela está desenhando no chão a linha de sua vida – um grande rabisco cheio de curvas –, até que seu pai chega mais perto e, distraído, pisa em um pequeno traço. A menina, desesperada, diz ao pai que ele acabou de arruinar sua viagem de estudos para o Japão. Apesar de ser ficção, isso faz pensar que, por mais que esteja tudo milimetricamente calculado, existe o inesperado.

A impossibilidade de controlar o acaso não é empecilho para que planos sejam traçados, mas existem coisas que estão além das próprias possibilidades, como uma história que meu pai costumava a contar sobre um técnico de futebol que estava orientando o craque do time a driblar um, dois, três, passar pela lateral e, por fim fazer o gol. No que o jogador pergunta, “é, mas você já combinou isso com o pessoal do time adversário?”.

Não dá para ter um pacto fechado com o acaso, mas dá para fazer um esboço do que se pretende e, caso ocorra uma imprevisto, criar outra solução em cima disso. Em contrapartida, aquele que não se programa em nada pode passar por muitos desconfortos desnecessários, que poderiam ser evitados com o mínimo de planejamento. Voltando ao exemplo da viagem, se o inconsequente tivesse dado importância à chuva prevista, por mais que tal motivo não fosse suficiente para desistir do passeio, poderia ao menos ter levado uma capa e ter evitado pegar uma pneumonia (que fez com que passasse todo o feriado de cama).

O filme alemão Corra, Lola, corra trata de como certas tomadas de decisão, por mais bobas que pareçam, podem ser determinantes no desenrolar de nossa trajetória. Na película, uma história é contada três vezes, e em cada uma delas acontecem pequenas ocorrências que modificam toda a série, dando um desfecho bem diferenciado às três versões. É o famoso “E se eu tivesse chegado um minuto mais cedo...”. No caso do filme, a mocinha do título tem que correr contra o tempo para conseguir uma alta soma em dinheiro até a hora marcada, a fim de salvar o namorado de ser assassinado por um grupo de gângsteres. Através de alterações em fatos aparentemente irrelevantes, as histórias podem acabar tanto em tragédia como em happy end. Tudo isso de acordo com as escolhas feitas por Lola. Saímos do cinema com a sensação contraditória de que, apesar da força do acaso, temos também uma grande capacidade de mudar as coisas.

Virar prisioneiro dos planos ou ser prisioneiro da liberdade são posturas extremas. O primeiro caso necessita de malemolência; o segundo, de prumo. E se a previsão do tempo falhar? E se a chuva prevista para o fim de semana der lugar a um incrível sol? E se, até os 30 anos, não encontrar a pessoa dos sonhos? E se não puder ter filhos? Lidar com tais imprevistos não significa que não se deve elaborar planos, apenas que há de se estar atento à parte imaginativa para saber lidar com o inesperado sem se descuidar da parte racional para evitar cometer erros banais. E, acima de tudo, usar a criatividade. Afinal, como ensina o poeta Chacal:

É proibido pisar na grama
O jeito é deitar e rolar.

Publicado em 19/01/2010

Publicado em 19 de janeiro de 2010

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