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A globalização e os idiomas

Mariana Cruz

Por mais que não se queria entrar na intimidade alheia, depois do advento do celular isso se tornou um tanto difícil, principalmente para quem não é eremita, misantropo ou surdo. Basta circular pelas ruas, frequentar restaurantes, andar de elevador, ou estar em qualquer espaço público para “ficar por dentro” involuntariamente da vida daquela pessoa que está ao seu lado e que você nunca viu antes (e provavelmente nunca mais verá). Para os usuários de transportes coletivos, como eu, o único jeito de escapar do blábláblá imposto pela vizinhança é refugiar-se no i-pod ou concentrar-se em uma leitura para lá de interessante. A primeira opção não uso por motivos de segurança; a segunda, porque me causa tonteira. Mas se antes ficava irritada com a indiscrição das pessoas que, aos berros, davam detalhes da noite anterior, do caráter duvidoso da colega de trabalho ou da doença da mãe, relaxei: é algo que não tem como controlar, só me resta aceitar. Foi assim que, à minha própria revelia, comecei a deleitar-me com os fiapos de conversa dos indiscretos que não estão nem aí para quem está ao seu redor. Legal também é que, pelo o que a pessoa fala, a gente pode brincar de adivinhar a profissão, o estado civil, o time, a religião, as preferências políticas, sexuais... Torna-se uma espécie de jogo. À primeira vista, o último papo que escutei não tinha nada de interessante: nem drama mexicano, nem romance arrebatador. Era simplesmente uma supervisora, gerente ou algo assim que dava ordens a uma subordinada. Apesar do conteúdo pouco estimulante, chamou-me a atenção não o que foi dito, mas sim o modo como foi dito. Comecei a pensar na diversidade existente em nossa língua, o modo como ela é usada de acordo com a classe social, a profissão, a tribo e a idade do falante, entre tantas outras variantes. Pelo que pude “pescar”, a moça trabalhava em uma empresa de medicamentos e, dentre as várias funções que exercia, coordenava uma equipe que montava stands para divulgação dos produtos em feiras especializadas.

Sua aparência era bem compatível com a função: usava um terninho azul escuro, cabelo preso em um rabo de cavalo sem um único fio fora do lugar e sapato de couro preto fechado. Ressalto isso pois, não raro, nesses casos (já me considero uma especialista no assunto) a imagem que a pessoa passa nem sempre é compatível com o discurso proferido no celular (como outro dia, no metrô: o cara todo engravatado, penteado, perfumado, parecia recém-saído da Sorbonne, mas quando atendeu seu aparelhinho, tive a impressão de que deixaria ruborizado o mais desbocado frequentador da extinta geral do Maracanã, tamanha a quantidade de palavrões que vociferava; entre as poucas palavras publicáveis, percebi que referia-se a um jogo de futebol ocorrido na véspera, quando seu time de coração havia perdido).

No caso da nossa trabalhadora, não, sua aparência era totalmente condizente com o discurso pró-ativo e focado no trabalho. Dava para perceber que ela realmente gostava do que fazia e o quanto era dedicada. Apesar da firmeza e segurança na fala, seu vocabulário era recheado de erros gramaticais, o que me deu a impressão de que era de origem humilde, mas que, graças a muita luta e perseverança, acabou ascendendo profissionalmente. Seu modo de se expressar mostrava claramente esses dois mundos. O fato é que nossa personagem era pouco amiga dos plurais, e não cansava de dizer frases tais como “aquelas menina não trabalha direito”; “os medicamento ficou tudo dentro da caixa”; mas não ficava só nisso, ouvi-a dizer também “eu tô meia atrasada”; “ela disse que era para mim ir lá”.

Apesar dessas falhas, ela se fazia respeitar, sem ser autoritária ou grossa, portava-se como pregam os manuais de autoajuda de administração de empresas: como uma líder, e não como uma chefe. Não sei se conscientemente, falava de várias estratégias de marketing, utilizava eufemismos como “cativar” determinada cliente no lugar de “puxar o saco”. Pedia para que sua funcionária lhe passasse “o contato” de beltrano e não o telefone. Mas o que realmente me chamava a atenção em sua forma de falar era a quantidade de palavras inglesas contidas em seu vocabulário e, principalmente, a naturalidade com que as empregava: dizia para armar o stand, trazer o folder, ler o release, dar o feedback para a chefe, distribuir o kit com o produto de roll-on e spray, chegar antes do coffee-break, fazer um check-list antes de sair e,  por fim, pedia que sua funcionária lhe mandasse um e-mail com o release do evento. Apesar disso, é bem provável que aquela mulher – que não sabia utilizar regras gramaticais de seu próprio idioma corretamente – não soubesse falar uma única frase em inglês.

Mas não, não pretendo fazer uma crítica à invasão dos vocábulos gringos, até porque penso que não há com o que se preocupar, pois o brasileiro tem a capacidade de apropriar-se de tais palavras e transformá-las como fez com os verbos surfar, deletar (não só com palavras inglesas como também as africanas: tanga, quitanda, macumba, dendê... Ou as árabes: berinjela, alicate, almofada, cetim, chafariz e de tantos outros idiomas). A nossa língua persiste, antropofagicamente, reinventando-se a cada dia. Essa discussão deixo para os linguistas, puristas, nacionalistas ou globalizados. O que me chamou atenção na fala da moça foi a mobilidade social que suponho que tenha passado, sua chegada a um cargo relevante em uma empresa a despeito de sua formação falha.

Claro que isso não significa que os plurais devam ser deixados de lado, mas isso não foi impedimento para que ela conseguisse um lugar de destaque. Valorizou-se por sua habilidade, sua capacidade de liderança. Sua origem não a impediu de crescer profissionalmente, tal qual um sistema de castas, mas talvez tenha dificultado. Provavelmente quanto mais ascender nesta ou em outra empresa, maior será sua necessidade de se expressar corretamente.

Espero daqui a alguns anos cruzar com ela novamente no ônibus e constatar que aprendeu a usar os plurais e, quem sabe, com isso ela tenha conseguido mais rapidamente dar um upgrade na carreira...

Publicado em 01 de junho de 2010

Publicado em 01 de junho de 2010