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Minha aluna Antônia

Alexandre Alves

Antônia fazia parte de uma turma excelente – ainda que bem variado (talvez até por isso), em que vários alunos se destacavam. Havia o grupo do Ricardo e da Sueli, formado por alunos um pouco mais jovens e mais joviais. Mas sobre eles eu falarei em outra oportunidade.

Antônia era uma senhora, no sentido mais respeitável que se possa imaginar, e mais conservador também. Era a líder do grupo das senhoras da sala, que se destacavam por estarem sempre juntas, em silêncio e arrumadas em uma turma que tinha um índice significativo de defasagem idade/série, como chama o MEC. Elas eram a velha guarda numa turma que não tinha gente assim tão nova. Tinham em comum o fato de serem donas de casa, de terem voltado a estudar quando sua família estava constituída, seus filhos, crescidos e formados e quando não tivessem forte oposição do marido para se ausentar de casa. No caso de Inês, voltou a trabalhar um pouco antes, como auxiliar de enfermagem, em função da doença do companheiro.

Essa turma vinha junta desde o Ensino Fundamental e se entendia pelo olhar. Todo mundo sabia e dava notícias sobre os outros alunos (por que faltaram, filhos, empregos, dificuldades, doenças...) e suas famílias.

Dona Antônia e suas amigas eram um pouco peixe fora dágua ali, mas tinham sempre atitude e opinião em relação aos eventos da sala, exigindo disciplina, silêncio, respeito e “matéria no quadro-negro”. Sendo assim, estranhavam as aulas do Rogério, de História, que propunha muito mais frequentemente fazer discussões e debates do que colocar os conteúdos escritos na lousa.

Comigo era a mesma coisa: se eu passasse duas aulas só trabalhando interpretação de texto, lá vinham elas: “professor, quando é que vamos falar de gramática? Estou sentindo uma falta...” Foi a primeira pessoa que ouvi falar que sentia falta de gramática.

Pelo que conta, ao voltar a estudar, filhos crescidos, ainda encontrou resistência no marido, mas o incentivo dos meninos venceu. Parece que nos últimos tempos o marido já havia se conformado, mas queria ver os cadernos da esposa.

Sempre bem vestida, frequentemente com um casaquinho ou um xale sobre os ombros, Dona Antônia volta e meia se metia em discussões com os colegas. Porque lembrava de atividades pedidas pelos professores e esquecidas pela turma, porque criticava a roupa usada por um ou outro aluno mais moderninho...

Ela não admitia que houvesse qualquer tipo de pontuação de aluno por participação em aula: “mas vai premiar o que é nossa obrigação?”; suas notas tinham que ser as melhores da turma – especialmente melhores que as da Sueli, do Ricardo e do Pará, o marombeiro oficial; porém nem sempre isso acontecia, o que era motivo para ela vir cobrar meio ponto que fosse para ultrapassá-los, com desculpas do tipo “o senhor deve considerar também que eu nunca falto, mas eles, de vez em quando, o senhor sabe...”

Numa visita a uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, ela fez questão de levar sua filha, que estava concluindo o curso de Administração. A moça fez comentários bastante interessantes ao final, e se enturmou bem com os colegas da mãe. Um dia escolhi uma música do Legião Urbana para trabalhar com eles – acho que Eduardo e Mônica. Imediatamente veio o resmungo: “por que não trouxe uma canção do Lupicínio Rodrigues ou de Dolores Duran? São melodias tão mais bonitas...” Esse era o estilo de Dona Antônia.

Houve um momento muito especial: ela veio falar comigo antes da aula, bastante séria, para avisar que a Nevinha estava voltando às aulas depois de uma semana, porque tinha perdido o marido. Então, se ela chorasse no meio da aula, para eu não ficar assustado, preocupado e não parar a aula pra perguntar nada. Assim fiz; no fim da aula a viúva veio conversar comigo e agradecer a compreensão. Como se eu tivesse feito alguma coisa excepcional, fora de série. “Só fiz como Dona Antônia sugeriu”.

Num Dia do Mestre, vieram as quatro (Antônia, Nevinha, Graça e Inês) falar comigo: tinham um presente para mim, que fizeram questão que abrisse em sala: uma bela camisa social “bem do tipo que o senhor usa, não é?”. Aliás, eu a uso até hoje, anos depois, sempre me lembrando das três.

Tempos depois de aquela turma ter concluído o Ensino Médio, chego à escola e lá estava Dona Antônia, no pátio. Entre reclamações sobre os “minúsculos shorts das meninas” e dos bonés dos alunos, ela me disse que estava precisando do diploma, porque a faculdade estava cobrando o documento para deixá-la matricular-se nas disciplinas do terceiro semestre. “Ora, que coisa boa, você já está na faculdade!” “Já, estou fazendo História, quero ser professora como vocês, mas não de Português, que é muito chato”.

Ela estava parada ali, mas com as ideias fervilhando: “meu marido está se aposentando, você sabe se tem faculdade de História em Araruama, ou Macaé? A gente está pensando em mudar pra lá... Meu filho já casou, a menina está noiva e o Rio está muito estressante. Conforme for, nós nos mudamos e eu vou estudar lá. O que você acha?”. Acho ótimo esse jeito de Dona Antônia, sempre olhando para o futuro.

Publicado em 08 de junho de 2010

Publicado em 08 de junho de 2010