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Informática: uma experiência com moleques

Por Alexandre Amorim

Aquela figura do moleque que joga bola e solta pipa vai aos poucos perdendo espaço para o moleque que joga, conversa e namora pelo computador. Alguns adultos lamentam, nostálgicos, achando que seus dias de infância eram mais felizes. Outros comemoram, impressionados com a desenvoltura das crianças de hoje em manipular mouses, Windows, Googles e outras ferramentas informáticas. Mas ainda existe um terceiro grupo, que não se preocupa em lamentar ou comemorar. É o grupo que prefere ver as crianças tomando suas decisões e se desenvolvendo dentro do seu contexto e do seu tempo.

Toda família com filhos e computador em casa passa pela discussão do número de horas que as crianças podem passar na frente do monitor. Delimitar esse tempo parece fazer parte de uma preocupação dos pais com o estudo e outras responsabilidades que seu filho deve aprender a assumir. Mas também faz parte de certa ignorância dos pais que ainda não entenderam o potencial dessa maquininha. Jogos no computador não precisam ser apenas passatempo, mas uma forma de liberar a imaginação – afinal, ter um personagem e um cenário ajuda muito a criar uma história. Todo educador sabe da importância dos jogos no desenvolvimento social, mas é preciso observar também o estímulo à imaginação. Se esse estímulo não estiver acontecendo, talvez a culpa não seja do jogo ou do computador. É fundamental que os pais entendam que o computador é uma ferramenta, não um fim. Cabe ao usuário saber escolher como usar essa ferramenta. A internet é uma prova disso: filtrar informação, escolher o que mais se aproxima de sua necessidade e de sua vontade é um exercício que se faz constantemente na nossa vida – e não é diferente quando se vai usar a informática.

Leila, Nilton e Luís trabalham com computadores. E com crianças. Na verdade, juntam trabalho, crianças e computadores em uma casa de Niterói, onde ensinam, aprendem e trocam ideias com crianças. Eles são os fundadores da Moleque de Ideias, que nasceu da vontade de educar. E aqui é necessário definir o que é educar. Ou melhor, é necessário não definir. Porque pensar em educação é justamente isso: pensar, criticar, reformular e rever conceitos o tempo todo. Por isso, a Moleque de Ideias trabalha com as ideias dos moleques: os softwares estão ali, prontos para serem abertos e usados pelas crianças, de acordo com sua vontade e as ideias que eles tiverem. Pode ser um desenho, um jogo, uma história escrita, filmada ou mesmo um jogo a ser criado. Pode ser, até, que o moleque não queira usar o computador e vá para a mesa ler ou para um canto da sala pensar. Deixar a criança pensar e desejar é parte fundamental da educação.

Assim, as conversas entre os “professores” e os “alunos”, que poderiam ser apenas discursos de ensinar e aprender, estão muito mais próximas de conversas entre pessoas interessadas em um mesmo objetivo: criar e expressar-se. A informática é mais uma ferramenta, a ser usada quando necessário. Se o ambiente acaba levando aos computadores (afinal, as máquinas estão ali, cheias de softwares, esperando para serem usadas), o importante é saber o que se quer expressar e que ferramentas são mais adequadas. Da vontade de comunicar o que pensa vem também a necessidade de dominar uma técnica. Nessa hora, os “professores” ajudam, passando seus conhecimentos, mas principalmente fazendo os “alunos” entenderem como lidar com a lógica da informática. É mais uma sintaxe a ser conhecida, na enorme variedade de linguagens com que toda criança vai aprender a lidar em sua vida.

Na Moleque de Ideias (www.moleque.com.br), as crianças escolhem como vão se comunicar, e geralmente persistem em sua criação. Escolhem, por exemplo, fazer um filme com massa de modelar. Podem, também, desistir no meio e passar a outro tipo de software: criar um jogo com a história que estava em suas cabeças. O que não adianta é abrir um curso de digitação, um curso que ensine o pacote Office 2000 ou qualquer outra tentativa de fazer os moleques seguirem receitas e memorizarem atalhos no teclado. Se o moleque aprende a saber o que quer, vai aprender a lidar com softwares, atalhos de teclado ou com erros que muitas vezes desanimam a gente de continuar. A experiência de trabalhar com um moleque de ideias é o que alimenta o desejo de Leila, Nilton e Luís. Trabalhar com moleques que têm ideias próprias e vontade de expressar essas ideias. Aprender a técnica, importantíssima para realizar essas vontades, é uma consequência, que tem seu valor próprio, porque técnica e arte estão muito próximas. Mas o “como fazer” vai sendo adquirido conforme o “o que fazer” é definido. Descobrir o que se quer fazer é o primeiro passo para um moleque desenvolver suas ideias.

Publicado em 15 de junho de 2010

Publicado em 15 de junho de 2010