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Marcos Bagno

Alexandre Amorim

A ideologia na linguagem

Imagem da página inicial do site
http://www.marcosbagno.com.br

Marcos Bagno escreve livros de ficção (inclusive para crianças), obras de divulgação científica, e se define como escritor, professor e militante. Militância lembra combate, e Bagno sabe que sua luta é longa e cansativa: nos campos acadêmicos, educacionais e mesmo nos mais diversos meios sociais, o inimigo é o preconceito linguístico. A discriminação social exercida através dos preconceitos e desajustes com a linguagem, que é, segundo o professor, “uma das formas mais sutis e perversas de exclusão social”. Seu site tem como principal objetivo divulgar essa militância e as obras científicas (inclusive de outros autores) sobre o assunto.

Desde seu mestrado, na Universidade Federal de Pernambuco, o autor analisava de modo sociolinguístico as diferenças em livros didáticos de português. Sua tese de doutorado pela USP, Dramática da língua portuguesa, publicada pela Editora Loyola, se debruçava sobre as diferenças entre a língua utilizada pela população e a língua determinada pela norma culta, baseada em regras ultrapassadas e veiculada de forma autoritária pelas gramáticas tradicionais e pela mídia. A língua portuguesa, viva e mutante, acaba sendo ignorada por essa máquina conservadora, que cisma em manter um corpo linguístico inexistente no cotidiano.

Essa cisma acaba por impor uma exclusão social que achata em subempregos e afasta das rodas intelectuais qualquer um que não respeite a língua portuguesa como ela é apresentada em gramáticas tradicionais. A norma culta funciona como ferramenta de manutenção de poder, e a prova disso está no preconceito de uma dita elite intelectual brasileira contra a eleição, para presidente da República, de um cidadão cujo discurso não está de acordo com essa norma culta.

Preocupado em impedir que a norma culta se cristalize e passe a ser imposta como requisito parta aceitação social, Marcos Bagno publicou livros em que discute as várias “línguas portuguesas”, especialmente o português de Portugal e o do Brasil, questiona a norma culta e descreve a relação entre a linguagem e o poder. Em seu site, o autor publica ainda artigos em que são investigados assuntos como a real intenção em realizar reformas ortográficas, principalmente esta última, que proclama ser unificadora da língua portuguesa pelo mundo.

Pode parecer que o autor milita contra regras e normas em geral, mas não é o caso. É justamente através de um estudo científico que Bagno defende seu ponto de vista, apontando contra o senso comum. Se a linguística se preocupa justamente com a mudança de uma língua viva, o senso comum tende a cristalizar normas sociais arcaicas, que se tornam sem sentido e acabam servindo apenas para correção, se transformando em ferramenta de poder. Como afirma Bagno, “se a língua é entendida como um sistema de sons e significados que se organizam sintaticamente para permitir a interação humana, toda e qualquer manifestação linguística cumpre essa função plenamente. A noção de ‘erro’ se prende a fenômenos sociais e culturais”. A noção de erro na língua é tão relativa quanto o próprio uso da língua.

O site de Marcos Bagno, como se vê, é rico em discussões necessárias para que se estabeleça um pensamento vivo do que é linguagem. Além de artigos do próprio autor, outros linguistas também são publicados. Assuntos pertinentes à área também são discutidos no Fórum do site, e sua atualidade se mantém em constantes pesquisas e reproduções de matérias jornalísticas. Mesmo que a visão do leitor não seja a mesma do autor, cabe a leitura e a visita ao site, para que ideias não se cristalizem em normas e opiniões não se percam em preconceitos. E, antes de tudo, para que a ideologia seja ferramenta de crítica, nunca de conservação de ideias.

Publicado em 15 de junho de 2010

Publicado em 15 de junho de 2010