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A Genialidade, Segundo Vigotski

Cristina Maria Carvalho Delou

Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Coordenadora do Curso de Educação Especial e Inclusiva da Fundação Cecierj

José Geraldo Silveira Bueno

Pedagogo

O interesse pela área da superdotação levou-nos à busca de um texto intitulado Gênio, que não havia sido publicado em português ou em inglês, mas era citado no livro A formação social da mente (Vigotski, 1996, p. 184).Ali se faz referência à publicação do verbete Genial'nost na Grande Enciclopédia Soviética (v. VI, p. 612-613).Há também outra referência a esse texto em Vygotsky – uma síntese (p. 452), com a referência à Bol'shaja Medicinskaja Enciklopedija, confirmando a autoria do texto. A referência de A formação social da mente e a de Vygotsky – uma síntese (que não foi traduzida, mas para este artigo tornou-se, em português, Grande Enciclopédia Médica) demonstra desacordo na passagem para nosso idioma. Quanto ao nome do autor, optamos por usar Vigotski, com grafia aportuguesada, exceto quando é o próprio nome da obra.

Foi feito contato com Jack Eckert, bibliotecário responsável pelo setor de livros raros e coleções especiais na Francis A. Countway Library of Medicine, da Harvard Medical Library, de Boston. Ele localizou a obra e enviou fotocópia do texto.

Pedimos à Embaixada da Rússia que indicasse um profissional; a tradução foi feita por Mihail Iwanow. Como acreditamos que o texto deve trazer grande contribuição aos estudos sobre a inteligência, oferecemos aos pesquisadores brasileiros em Educação Especial esta importante contribuição teórica escrita por Vigotski.

Não se trata de um texto acadêmico, de anotações de sua caderneta particular ou de notas tomadas em aula por algum aluno. Este texto é o verbete genialidade, escrito por Vigotski para a Grande Enciclopédia de Medicina, editada pela Cia. Enciclopédia Soviética em 1929, em Moscou, editada por N. A. Semachko. Eis o verbete:

Genialidade, grau superior de talento, manifesta-se em elevada criatividade, tendo extraordinário significado histórico para a vida da sociedade. A genialidade pode surgir nas mais diversas áreas da criatividade humana – ciências, arte, tecnologia, política. A genialidade distingue-se do talento principalmente pelo nível e pelas características da sua obra: os gênios constituem-se "pioneiros" de uma nova época histórica em seu campo. A proposta de centrar a formulação psicológica da genialidade em uma única função, identificando-a ao extremo desenvolvimento da atenção (James), da atividade consciente (Schopenhauer), da memória ou da vontade etc. não possui qualquer embasamento científico, assim como a proposta contrária, de considerar inerentes a ela todas as funções propriamente psicológicas do indivíduo.

A genialidade, assim como o talento, raramente se revela concomitantemente em todos os aspectos; com frequência constitui-se, em maior ou menor grau, em um desenvolvimento unilateral incomum da atividade criadora em uma determinada área. A estrutura típica da personalidade da pessoa genial, o impacto e a intensidade da criatividade, que superam enormemente ao normal, tudo isso fez com que se percebesse, por longo tempo, a genialidade como fenômeno secreto, místico, de natureza espiritual. O paralelo entre a genialidade e outras doenças psicológicas, vindo de Aristóteles, continuado por Diltey, Schopenhauer, Lombroso e muitos outros, serviu no início de ponto de partida para a tentativa de conceituação da genialidade pelas ciências naturais. A genialidade passou a ser encarada como uma estrutura de personalidade e de criatividade divergente da normal. No entanto, a identificação da genialidade com a doença e a degenerescência e a classificação da genialidade como "uma forma de epilepsia" (Lombroso) ou como "forma epileptoide de degenerescência" (Nordau) carecem de justificativa científica. Aparentemente, o gênio é uma variante em evolução progressiva da tipologia humana (Morcelli). Sua divergência em relação ao tipo normal o afilia à doença, mas essa é uma divergência superlativa, isto é, um desvio para outro lado e de natureza diversa da natureza da degenerescência. Do ponto de vista científico, a genialidade deve ser analisada como uma variação extrema da tipologia humana, e assim sendo todas as pessoas geniais devem obedecer às leis de variação referentes a esse tipo. Desse ponto de vista, os desvios superiores ao quádruplo da norma – isto é, do desvio padrão (4a) – constituem sintomas de genialidade, assim como, por outro lado, sintomas de patologismo da personalidade. Não obstante, as leis e características desse desvio não podem ser estabelecidas com precisão.

A questão da origem hereditária da genialidade não pode, do mesmo modo, ser considerada definitivamente esclarecida. Em todo caso, o que se conhece em relação ao mecanismo da hereditariedade em geral e em relação à genealogia dos gênios permite admitir com mais probabilidade que a formulação hereditária da genialidade é extremamente complexa e conflui para um conjunto enorme de peculiaridades hereditárias singularíssimas ou genes. A genialidade, pelo visto, não se constitui em uma unidade genética fechada e não é herdada em inteireza. A transmissão hereditária de características isoladas ainda não traz consigo a herança do modo pelo qual elas se combinam. Em razão disso, é pouco provável a ocorrência de repetição da mesma combinação ou de uma complexa combinação muito semelhante nos descendentes. Por isso mesmo, particularmente, aqueles talentos que têm base evidente em conjuntos relativamente simples de características elementares (por exemplo, musical) são herdados com mais frequência do que os mais complexos por sua constituição psicológica (por exemplo, talento de poeta). Condições econômicas e sociais favoráveis podem concorrer para um excelente aproveitamento dos talentos inatos.

Se a hereditariedade torna possível a genialidade, somente o ambiente social concretiza esse potencial e cria o gênio. Toda grande descoberta, invento ou qualquer manifestação de criação genial é preparada por todo o curso prévio do desenvolvimento, condicionada pelo nível cultural da época, suas necessidades e imposições. "Os talentos surgem em toda parte e a todo momento, onde e quando existem condições sociais favoráveis ao seu desenvolvimento. Isso significa que todo talento surgido na realidade, isto é, todo talento tornado força social, é fruto das relações sociais" (Beitov). O determinismo histórico das grandes descobertas e de todas as criações das pessoas geniais revela-se ainda em mais um fato notável, propriamente na contemporaneidade. Mentré montou uma tabela contendo até 50 exemplos de descobertas científicas e inventos feitos simultaneamente (por ex.: Geometria Analítica – Descartes, Fermat; cálculo infinitesimal – Newton, Leibniz; Geometria não-euclidiana – Lobatchevski, Gauss, Riman etc.). A genialidade representa, assim, toda uma teia de questões – biológicas, psicológicas e sociais, ainda distantes de estarem resolvidas pela ciência com a devida clareza e plenitude.

Referências bibliográficas

VIGOTSKI, L. S. Genial'nost. Bol'shaja Medicinskaja Enciklopedija. v. VI. 1929.

VIGOTSKI, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

VEER, R. & VALSINER, J. Vygotsky – uma síntese. São Paulo, Unimarco/Loyola, 1996.

Publicado em. 22 de junho de 2010

Publicado em 22 de junho de 2010