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Dois encontros com Saramago

Alexandre Alves

Acabo de receber pelo rádio a notícia da morte de José Saramago. Procuro ir além dos necrológios a serem publicados nos jornais, que dirão que era comunista de carteirinha, ateu (apesar de ter escrito O evangelho segundo Jesus Cristo), jornalista, primeiro escritor de língua portuguesa premiado com o Nobel, autor que já teve livros adaptados para o cinema (Ensaio sobre a cegueira, livro sensacional e filme extraordinário), que tinha vários livros publicados, inclusive textos infantis, de poesia e para o teatro.

Conheci a obra de Saramago ainda na graduação, no Instituto de Letras da Uerj. Fazia uma disciplina que estudava a literatura portuguesa contemporânea. O Memorial do Convento havia sido lançado fazia pouco mais de um ano, mas já tinha recebido a hoje clássica definição de Millôr Fernandes: “Rubem Fonseca é excelente, mas Saramago é definitivo”.

No final do ano, foi publicado A jangada de pedra, seu romance seguinte, com lançamento simultâneo aqui e além-mar. Não podia deixar de conhecer pessoalmente o autor de um livro que tanto me marcou (certamente é um dos melhores que já li, junto com o citado Ensaio sobre a cegueira, Macunaíma, Quincas Borba e Reinações de Narizinho). O lançamento era no centro de Niterói, na Livraria Gutenberg, perto da estação das barcas. Não havia muita gente ainda, pude pegar alguns exemplares da Jangada para dar de presente de natal para uns (felizardos) amigos.

Na hora do autógrafo, além dos livros recém-adquiridos, coloquei na pilha meu exemplar do Memorial, com a capa amarfanhada, algumas folhas com dobras, sublinhados e anotações em quase todas as páginas. Além de estranhar o número de exemplares, ele perguntou o que era aquilo. Expliquei. Ele folheou o livro, voltou à pagina de rosto e escreveu: “Este Memorial do Convento é de Alexandre. Com um abraço, José Saramago”.

Passou-se o tempo, ele lançou diversos outros livros, sempre com muito reconhecimento da crítica (talvez com um pouco menos de acompanhamento do público), tornou-se o mais comentado escritor vivo português para nós, brasileiros.

Em meados dos anos 1990, a Bienal do Livro do Rio de Janeiro escolheu Portugal como país homenageado. A inauguração do evento foi no Consulado Português no Rio, com direito à presença do cônsul, do embaixador português e de alguns escritores – entre eles, Saramago.

Já nessa época indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, que viria a ganhar alguns anos à frente, foi pedido a ele que falasse. No meio do burburinho característico de um coquetel numa casa linda e espaçosa, Saramago foi ao parlatório, no canto do salão principal. Começou a falar da alegria de estar no Rio de Janeiro, no Brasil, da satisfação que tinha com a acolhida que recebia aqui.

Ao contrário do que se esperava, nem com o início de sua fala as conversas diminuíram, e ele pediu que respeitassem sua idade e sua viagem. Pouco adiantou, e ele continuou a falar sobre a importância da literatura, as pressões que sofreu em Portugal por causa do Evangelho segundo Jesus Cristo, comparando com a receptividade que encontrara em nosso país.

Por trás de seus óculos muito grossos, o olhar era de irritação crescente. A conversa continuava. Até que ele disse: “Muito bem, os senhores vieram para um coquetel, não para ouvir um velho. Obrigado”. E desceu do púlpito. Não mais o vi naquela noite. Estou certo de que sua vontade era sair dali imediatamente.

Publicado em 22/06/2010

Publicado em 22 de junho de 2010