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Uma copa global

Alexandre Amorim

Imagina só.

Um grande pai de santo da Bahia, inconformado com o desprezo pela cultura popular, resolve chamar uma coletiva e revelar as visões que teve durante um sonho. Ele teve esse sonho um dia depois de o Brasil ser eliminado pela França na copa de 2006, e a coletiva foi feita nesse mesmo dia. O babalorixá se senta em sua cadeira de balanço, na varanda de sua casa, com os repórteres sentados no chão, e começa a falar:

“Em 2010, chamaremos as cornetas usadas há décadas nos estádios de vuvuzelas e a bola que rola pelos gramados de futebol há mais de um século de jabulani. A África sempre foi um continente exótico para a maioria dos brasileiros, mesmo que a maioria dos brasileiros seja formada por descendentes de africanos, mas sua cultura se mistura com a nossa e vai aparecer para nós por meio de um grande gigante, desajeitado e ignorante. O mundo vai se juntar e pequenos países vão assustar grandes nações. O dinheiro vai comprar e vender pessoas, os filhos da pátria vão se tornar estrangeiros. O mundo não vai reconhecer o próprio mundo”.

E então o babalorixá se levanta, de olhos fechados, e volta para dentro de sua casa, em silêncio. Os repórteres se entreolham, pasmados com a situação, até que um deles começa a rir alto, passa a mão no rosto e gargalha. Acaba de perceber que foi vítima de uma brincadeira do pai de santo. Os outros jornalistas se juntam à gargalhada, que cresce e invade a casa. Duas meninas adolescentes vêm até a porta e falam, com o rosto vermelho de vergonha, que o painho quer descansar e que suas palavras não são brincadeira.

Mas os jornalistas já começam a ir embora. Alguns vão beber e conversar em um bar, outros vão para suas redações. Uma estagiária liga do celular para seu chefe, explica o trote e pergunta o que deve fazer. O redator-chefe responde, sem pensar muito: “vamos dar a manchete na página de esportes: Pai de santo prevê o apocalipse do futebol”. Ela acha a ideia horrível, mas não diz nada. É estagiária, precisa ser contratada e só vai dar pitaco no dia que conquistar a confiança do seu editor. Ninguém mais publicou nada relativo àquela notícia.

Mas 2010 chega, e com ele a Copa do Mundo na África do Sul. E logo depois de terminarem os jogos das oitavas, o babalorixá chama nova coletiva. Como ele é respeitado e temido na comunidade soteropolitana, os repórteres voltam à casa de rezas, dessa vez carregados de cinismo e de vontade de rir, mesmo antes de ouvir as palavras do chefe da casa.

Dessa vez, ele não se senta. Em pé, abre o jornal de 2006 e lê o que havia dito naquele ano. E depois de ler toda a matéria, olha para os jornalistas, muito sério, fecha os olhos e fala:

“O grande gigante que nos mostrou a cultura africana foi a mídia. Esse gigante sem forma e sem conhecimento, que nos empurra o que quer nos empurrar e dessa vez quis nos mostrar a África de um jeito superficial e bobo. A mídia, que nada conhece e que a todos quer ensinar. Ninguém aprendeu muito sobre a África, mas pelo menos o gigante nos lembrou que existe esse continente enorme e rico, logo ali, depois do Atlântico.

Os pequenos países, como a Sérvia, assustaram grandes nações, como a Alemanha. Foi 1x0, não foi? São surpresas que uma copa do mundo como essa traz. Não sei se é bom ou ruim, mas temos que aprender a conviver com esses países tão pequenos nos incomodando, chegando agora e querendo seu lugar.

Também temos que aprender a ver brasileiros se naturalizando estrangeiros, para poder jogar em seleções que paguem melhor ou deem mais condições de vida a eles. Vemos técnicos de um país treinando o time de outro. Uma copa de futebol dividida em seleções de países que não são formadas por gente daquele país. O mundo não sabe mais seus limites, e ninguém pode afirmar se isso é bom ou ruim.

Ruim é saber que essa falta de limites e fronteiras ajuda outro gigante: empresas que se infiltram e se tornam donas de cada cidadão, de cada nação, porque controlam seu dinheiro e suas vontades, vendendo o que querem e não o que o cidadão quer.

Nem me perguntem como eu sabia das vuvuzelas e da jabulani. Minha fé tem seus segredos. Boa tarde”.

Dessa vez, ninguém riu. Mas a estagiária, que hoje é redatora de esportes, bateu palmas e marcou uma consulta com o babalorixá. Mais do que prever o futuro, ela queria aprender a pensar.

Publicado em 13/07/2010

Publicado em 13 de julho de 2010