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Vôo sem plumas

Luis Estrela de Matos

Ensaísta, escritor e professor universitário

Ainda que João Cabral seja bastante citado em tempos mais recentes, tenho sérias dúvidas se realmente sua poesia é tão partilhada assim pelos leitores interessados em poesia. Essa afirmação tem sua base no seguinte argumento: em sua quase totalidade, os poemas cabralinos fogem da tradição lírica derramadamente romântica e autoumbilical de nossos poetas. O poeta demiurgo, o poeta voz-da-nação, o romântico intransferível, toda essa turma está longe da poética do autor de Cão sem Plumas. Mas os românticos de plantão estão aí, sempre avisando que a poesia vem do coração e, o pior, que o poeta é um ser iluminado e que ao leitor cabe o lugar passivo de mero receptor.

João tinha outro olhar e outra direção. Além disso, sua métrica segue outras escolas. E, afirme-se o já sabido, João Cabral é realmente um engenheiro da composição. E espesso. E seguiu isso à risca. Antimusical, conforme se definia, os versos são rigorosos, pensados, construídos. As palavras não estão ali por inspiração. O suor e o rigor sempre acompanharam a criação poética do pernambucano cidadão do mundo. Transpira-se, eis uma chave.

Dá trabalho ler João Cabral. Mas também imensa alegria, pois partilhar algo bem elaborado com um poeta da qualidade dele nos torna mais preparados e menos dependentes. Longe do redondo, do fácil, seus poemas são angulosos, têm a marca do corte. Gostam da faca. Amam a lâmina de quem lê com atenção e trabalho. De certa maneira, é único. Quero dizer, abriu espaço para uma linhagem que vem crescendo nas últimas décadas. Não foi à toa que os concretistas perceberam nele um certo precursor.

Estas linhas vão num crescendo, e se assim continuar termino meu texto sem deixar a voz do poema apresentar-se. Segue um trecho do espesso Cão sem plumas:

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Tudo bem que o Capibaribe, o Recife, os homens caranguejos, as palafitas, os cães, tudo isso está ao longo do poema. Desde que não os socializemos demais. Tudo bem que existem leituras e leituras. Mas também existem chaves. Um bom poema apresenta suas chaves. É porque tenho medo de regionalismos excessivos que faço esses comentários para meu possível leitor. Há algo perigoso no pensamento localista: ele empobrece e circunscreve. Acredito que os voos são outros. Sigo noutra direção e sempre que releio o Cão sem plumas meu esforço concorre mais para entender esse espesso da vida, essa lama, esse homem aquém do homem, esse denso e rigoroso sangue tão sangue em seus poemas. Continuo:

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

É preciso comer a maçã, não apenas vê-la. Platão encabula. O rio fica mais denso, viscoso, pesado, lamacento, e Heráclito duvida se é possível banhar-se nele. Os homens estão sem plumas. João experimenta. Realmente é uma estranha paisagem, onde o rio e onde a lama. Onde há vida é linguagem. A cada dia a sua linguagem. Um voo se conquista.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu voo)

Publicado em 13/07/2010

Publicado em 13 de julho de 2010