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Desafios da ciência contemporânea: nem especialista, nem generalista

Mariana Cruz

O cenário científico da atualidade traz uma figura cada vez mais presente: o especialista, isto é, aquele indivíduo que domina plenamente a teoria e os instrumentos de uma determinada área do saber. Se por um lado tal função se mostra necessária pelo fato de o edifício científico estar ganhando novos andares bem como novas divisões e subdivisões, por outro torna-se cada vez mais raro aquele indivíduo que conhece o prédio por inteiro, uma espécie de síndico. Os habitantes de tal construção têm domínio e conhecimento única e exclusivamente da área que lhes diz respeito. Assim, o que fazer quando ocorre um abalo na estrutura do prédio?

Em suma: o conhecimento aprofundado do especialista gera, em contrapartida, alienação do que se passa ao redor. Isso caracteriza descentralização do homem e de seus saberes. Não se pode impor limites ao conhecimento, o que muitas vezes ocorre com o vício da especialidade, em que o sujeito estuda até a parte que diz respeito somente ao seu campo de saber, e quando os tentáculos da pesquisa começam a se estender para outras áreas eles são muitas vezes decepados. Há, assim, que se emancipar, separar o conhecimento do pesquisador. O conhecimento deve ser visto com algo independente, autônomo, para que assim possa ser utilizado por outros indivíduos, aprimorado, modificado, retificado.

Existe também aquele indivíduo que, para fugir da alienação que o aprofundamento em uma única área específica de saber pode gerar, passa a estudar diversas áreas, sem se aprofundar realmente em nenhuma delas. É o que podemos denominar especialista em generalidades. Mas de que adianta saber diversas coisas e não saber como articulá-las? Tal pesquisador pode ser definido como um eclético, isto é, alguém que transita por várias disciplinas mas sem identidade própria, isto é, desvinculado de um saber original. Vemos, assim, que nesta época das especializações existe o risco de cair nesses dois extremos: ou se tornar um especialista em um determinado assunto e ignorar completamente o que se passa fora do seu feudo ou saber diversas coisas de forma superficial. Com esse dois perfis, ao sofrer um abalo estrutural, o edifício científico continuara correndo risco de desabamento, uma vez que nenhum deles está apto a consertar tal ruptura.

Para que tal solidificação seja feita, é necessário que haja um pesquisador capaz de relacionar várias áreas, alguém que use sua especialidade como ponto de interseção, um fio condutor que amarre, fortaleça e una diversas disciplinas sem, no entanto, fazer uma colcha de retalhos. Tal fio condutor, porém, não precisa ser sua disciplina de origem, e sim sua disciplina de maior interesse e compreensão. É necessário também que tenha uma sólida formação intelectual para que possa ultrapassar e até mesmo transgredir os saberes estabelecidos, uma vez que tem visão mais ampla (sem ser superficial) do edifício como um todo. Tal conduta, porém, não precisa ser exercida por somente um indivíduo; pode (e deve) ser realizada pelo debate com pessoas de diferentes áreas. Isso possibilita o surgimento de novo saber. Além de fazer com que cada indivíduo consiga, com da discussão junto a outros especialistas, enxergar sua própria disciplina de forma mais global.

Na contemporaneidade, são cada vez mais comuns as disciplinas transdisciplinares, como a ecologia e a engenharia genética. Tais saberes apresentam um acúmulo de conhecimento proveniente de diversas áreas. Os desafios da ciência – e por que não da educação? – seriam superar a fragmentação de um campo que se constitui a partir de diversas subdisciplinas e a busca de um patamar comum de discussão epistemológica.

A postura do cientista

Durante muito tempo a ciência foi vinculada à ideia de que os cientistas eram construtores de teorias, e nada mais. Tal concepção, porém, é incompleta, uma vez que cabe aos homens da ciência saber como manipular os instrumentos e como usá-los devidamente. O cientista é aquele indivíduo que ataca as coisas nelas mesmas. Para ele, os livros servem de apoio teórico à sua pesquisa, que é principalmente empírica. Com o objetivo de aperfeiçoar sua pesquisa, faz-se necessário que ele tenha total conhecimento e controle dos instrumentos de trabalho. Tais instrumentos são os que ele utiliza na sua prática diária; dessa forma, são essenciais ao desenvolvimento de sua pesquisa. É somente através deles que se pode, por exemplo, captar determinadas coisas impossíveis de serem percebidas a olho nu. Ou seja, trata-se de uma investigação de um nível de realidade que não é mais perceptível.

Na contemporaneidade retira-se da prática cientifica qualquer áurea de genialidade; não há mais espaço para os insights. A concepção de que a ciência é feita somente por gênios é algo que já no século XIX começou a cair. Fazer ciência requer trabalho árduo. A prática científica exige tempo, paciência, medição, repetição, tal qual um trabalho feito por operários. Não está mais baseada na ideia de lampejo. É nesse momento que se pretende reorganizar a universidade, de modo a valorizar a figura do especialista – e não mais do gênio.

A imagem que atrela o cientista ao gênio é algo combatido, a ciência agora é vista como aquilo que requer esforço não só mental, como outrora, mas físico também.

Publicado em 27 de julho de 2010

Publicado em 27 de julho de 2010