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Noel Rosa - ironia no retrato popular

Alexandre Amorim

Entre o povo e a música popular, no Brasil, existe uma relação de simpatia quase gratuita quando essa música é feita em forma de crônica, seja como uma pequena história do cotidiano, seja como crítica social, política ou de costumes. Caetano Veloso, por exemplo, em seu livro Verdade Tropical, já chegou a comparar sua Alegria, Alegria à composição de Chico Buarque A Banda, contrastando a letra nostálgica desta com o apontamento moderno de sua composição. O baiano reconhecia, no entanto, que se inspirara na música de Chico para fazer uma marcha, ainda que contemporânea. Ao tratar de temas conhecidos da população, a descrição do personagem que anda com “nada nos bolsos ou nas mãos”, cansado de “tanta notícia” e com o “peito cheio de amores” causa uma empatia com o cidadão comum tão forte quanto a nostalgia de uma ingênua banda que tenta fazer a “gente sofrida despedir-se da dor”. A crônica em forma de marcha – em forma de música, no geral – atinge os sentimentos do homem popular de forma tão direta que, por vezes, passa pela crítica sem despertá-la.

Noel Rosa soube descrever, em seus sambas e marchas, tipos e costumes populares de maneira tão profunda que suas composições nos chegam tocantes ainda hoje, quer por uma questão nostálgica, quer pelo reconhecimento contemporâneo do retrato feito pelo Poeta da Vila. A própria imagem do homem de Vila Isabel que “não vacila ao abraçar o samba” é um quadro ainda singelo e desejoso na memória popular. O personagem do bairro operário, sambista malandro e sem medo de bamba, é ainda cortejado não como se fosse uma mitificação, mas uma entidade que anda pelas esquinas e enleva os habitantes e visitantes do lugar. A obra de Noel faz com que o povo procure pelos personagens que um dia foram retratos pitorescos e hoje são memórias.

Em uma espécie de transição entre nostalgia e descrição do atual estado das coisas no Brasil, podemos ler o samba Coisas Nossas como um cenário do país, certamente infestado de ironia. Assim, a saudade de um tempo que parece ter sido mais feliz, em que a música e a falta de dinheiro eram tratadas como coisas típicas e aparentemente bem aceitas pelo nosso povo, aparece na letra já anunciando uma crítica que se torna mais contundente conforme a letra da música se desenvolve. No mesmo balaio, Noel considera coisas nossas o prestamista (agiota), o vigarista e o meio de transporte precário, todos habitantes do mundo cotidiano de um cidadão carioca dos anos 1920 – e ainda hoje presentes em nossas vidas. Se o cronista afirma que a morena bonita da roça é tão representativa de nossa cultura quanto um vigarista, ele sabe que vive em um país de contradições, onde a malandragem pode ser a qualidade de um homem fiel à sua arte e que não abandona o samba mesmo que passe fome, mas também pode ser sinônimo de agiotagem e de adultérios.

Noel Rosa tem fama de traduzir sua molecagem em sambas, mas a troça utilizada em sua obra é uma ferramenta importante em suas composições, porque essa leitura brincalhona da cultura carioca (e nacional) não deixa de ser uma metalinguagem, uma vez que uma das “coisas nossas” é justamente saber rir de nós mesmos, de nossas qualidades, vícios e contradições. O prazer do samba e a angústia da falta de dinheiro convivem harmoniosamente na personalidade do povo brasileiro, que se reconhece no samba de Noel e se orgulha de ter sido retratado justamente assim, de maneira jocosa. O bonde em péssimas condições é o retrato de um Brasil gaiato, que aos trancos e barrancos vai levando todos os tipos sociais, do dirigente ao vagabundo, do motorneiro ao vigarista. E é esse o Brasil com que o povo prefere se identificar. Ou com o que é mais fácil se identificar: a crítica contida no samba, que afirma que nossas coisas incluem a precariedade e uma dose considerável de mau-caratismo, é polida pelo tom gracejador de Noel. O julgamento do sambista é travestido de ironia e torna os versos ferinos mais palatáveis. Coisas Nossas tem um ritmo de samba acelerado, dançante, e conquista o ouvinte como uma piada autorreferente: rir do samba de Noel é sambar de barriga vazia.

Mas se o compositor carioca soube usar o riso e a ironia, também soube ser crítico de modo mais melancólico. Em um samba de ritmo mais lento e até mesmo mais triste, Noel anuncia a situação agônica de um Brasil que se leiloa. Um país decadente que se vende para estrangeiros: um português e um judeu – na sabedoria do homem comum, o eterno tirano colonizador e o vilão centralizador da economia, respectivamente. A cultura popular entregue como pagamento de um país que não se sustenta.

A identidade nacional parece se desfazer a cada estrofe, conforme podemos ver pelos artigos postos à venda: uma mulata que é formosa, diplomada em samba, mas vaidosa e (muito) mentirosa; um violão que pertenceu ao imperador, mas que está desafinado e não tem braço, fundo e cavalete; e, por fim, um samba feito “nas regras”, mas que só tem estribilho. Os “artigos” já são vendidos com sua falsidade anunciada, e são comprados por pessoas que não têm nenhum interesse particular neles. Um doa a mulata a um jogador de futebol (Russinho era jogador do Vasco) e o outro vai tentar lucrar com o violão, vendendo a peça a um museu. O samba leiloado nem consegue ser vendido, já que não é anunciado nenhum comprador. Ao contrário de Coisas Nossas, a composição Quem Dá Mais? parece querer acabar com a ilusão do que queremos considerar como nossa cultura. São itens falsos, sem valor. Não existe alegria nesse leilão. A piada autorreferente, dessa vez, causa um riso amargo e, se existe ironia, ela é mais ofensiva e cruel. O próprio leiloeiro, que vende o país em três lotes, é brasileiro. O samba denuncia a malandragem popular e o aproveitamento da classe dominante, em uma visão social mais voltada para as diferenças de classes do que para uma identidade cultural nacional.

Quem sabe Noel tenha se tornado mais otimista com o passar do tempo. Afinal, Coisas Nossas foi escrita dois anos depois de Quem Dá Mais?. Talvez, depois de tantas crônicas retratando o cidadão comum, tenha chegado à conclusão de que o Brasil é mesmo uma amálgama de samba e prontidão. O certo é que sua verve crítica se manteve e que sua ironia mostrou que rir de si mesmo não significa se esquecer de sua condição.

Quem dá mais? (Leilão do Brasil)
(Noel Rosa – 1930)

Quem dá mais por uma mulata que é diplomada
Em matéria de samba e de batucada
Com as qualidades de moça formosa
Fiteira, vaidosa e muito mentirosa?
Cinco mil réis, duzentos mil réis, um conto de réis!
Ninguém dá mais de um conto de réis?
O Vasco paga o lote na batata
E em vez de barata
Oferece ao Russinho uma mulata
Quem dá mais por um violão que toca em falsete
Que só não tem braço, fundo e cavalete
Pertenceu a Dom Pedro, morou no palácio
Foi posto no prego por José Bonifácio?
Vinte mil réis, vinte e um e quinhentos, cinquenta mil réis!
Ninguém dá mais de cinquenta mil réis?
Quem arremata o lote é um judeu
Quem garante sou eu
Pra vendê-lo pelo dobro no museu.
Quem dá mais por um samba feito nas regras da arte
Sem introdução e sem segunda parte
Só tem estribilho, nasceu no Salgueiro
E exprime dois terços do Rio de Janeiro?
Quem dá mais? Quem é que dá mais de um conto de réis?
(Quem dá mais? Quem dá mais? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três!)
Quanto é que vai ganhar o leiloeiro
Que é também brasileiro
E em três lotes vendeu o Brasil inteiro?
Quem dá mais?

Coisas Nossas
(Noel Rosa – 1932)

Queria ser pandeiro
Pra sentir o dia inteiro
A tua mão na minha pele a batucar
Saudade do violão e da palhoça
Coisa nossa, coisa nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas
Malandro que não bebe,
Que não come,
Que não abandona o samba
Pois o samba mata a fome,
Morena bem bonita lá da roça,
Coisa nossa, coisa nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas
Baleiro, jornaleiro
Motorneiro, condutor e passageiro,
Prestamista e o vigarista
E o bonde que parece uma carroça,
Coisa nossa, muito nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas
Menina que namora
Na esquina e no portão
Rapaz casado com dez filhos, sem tostão,
Se o pai descobre o truque dá uma coça
Coisa nossa, muito nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas,
São coisas nossas

Publicado em 27/07/10

Publicado em 27 de julho de 2010