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Antes do jazz

Pablo Capistrano

Nossa mente dá significado àquilo que experimentamos. Essa é uma verdade que a gente aprende com o tempo. Minhas experiências com música começaram muito cedo porque um dos locais mais fascinantes da casa de meus pais em Mirassol era a sala de som. Um velho três-em-um Gradiente e um punhado de vinis causaram minhas primeiras e mais fundamentais impressões auditivas, abrindo uma maravilhosa janela no meu cérebro que até hoje não se fechou.

As quatro forças estavam lá: rock, MPB, música erudita e jazz. Tudo em discos grandes e pretos, com faixas visíveis dos dois lados, embalados em um plástico fino e transparente. Dessas quatro forças, minha consciência de criança sorvia bem Beethoven, Beatles, Creedence Clearwater Revival e o Clube da Esquina (meus prediletos, junto com um velho disco de capa verde de música do tempo das cruzadas).

O jazz era meu limite.

Eu não conseguia entender aquilo. Atravessei meus anos, perdi minha velha sala de som, rodei muito em lojas de CDs, sebos cheios de vinis e pubs esfumaçados fedendo a cigarro e cerveja sem entender o significado do jazz. Mergulhei nos anos selvagens embalado por estranhas experiências psicodélicas e um vendaval pouco saudável de abismos internos e delírios químicos. Até que um belo dia, quase na metade do caminho dessa vida, em um tempo em que as esquinas sem lei da juventude pareciam ter ficado mais estreitas e sem graça, meio sem saber como, ouvi Take Five, do Dave Brubeck, e subitamente o jazz fez sentido. Minha mente estava pronta para dar significado àquilo que eu já conhecia, mas que ainda não havia ainda aprendido a sentir.

Art Blakey disse uma vez que “o jazz lava a poeira do cotidiano”. No começo do século XIX essa poeira vinha de um lugar chamado Congo Square, uma área de Nova Orleans que em 1817 fervilhava com as festas dos escravos no domingo à tarde. Mas Congo Square não era um lugar de “africanos da gema”. A maioria dos frequentadores do lugar não vinha direto da África, mas sim das Antilhas, do Caribe. Eram membros de uma segunda ou terceira geração de dispersos da diáspora negra que chegaram para plantar cana de açúcar nas ilhas controladas pelos holandeses ou que saíam das fazendas do interior dos EUA para trabalhar no porto.

Os antilhanos traziam as batidas tribais que mais tarde foram gerar os ritmos caribenhos, tão populares pela América Latina. Os escravos do interior traziam para Congo Square suas plantation songs, que eram derivações dos cantos da Igreja Batista, com chamados e respostas que lembravam, de certa forma, as cantigas de santo dos terreiros de candomblé. Quando essas duas vertentes se aproximaram, faltava muito pouco para começasse a ser gestada a massa que deu origem ao jazz. Havia o ritmo, havia a melodia, mas faltava a alma.

Faltava o blues.

Se os cantos da Igreja Batista faziam o escravo gritar coisas como: Oh God, let me go, o blues, em sua versão mundana e dessacralizada punha na boca do escravo coisas como: hey mister, let me be. O blues libertava o escravo das formulas exóticas que a música de Congo Square havia criado. Lá, naquela poeira das festas de domingo à tarde, os negros escravos eram vistos como “espécimes curiosos de uma selvageria exótica”. Isso gerava muita imitação caricata, como a que os menestréis (brancos pintados de preto) faziam em cima das marchas militares, sincopando, sofisticando o ritmo e imitando os trejeitos das danças africanas para animar os salões de Nova Orleans. Menestréis como Daddy Rice – famoso dos anos de 1840 e 1848, criador de uma canção chamada Jim Crow, usada depois para nomear a política segregacionista e racista do sul dos EUA – transformavam os negros de Congo Square em um tipo grotesco de alegoria.

No mundo do blues a mensagem era incisiva e a alma do escravo não permitia esse tipo de fuleiragem. Os menestréis não conseguiam tocar o coração do blues porque ali havia o núcleo duro da experiência da escravidão. Havia o sentimento intenso do exílio e a marca da saudade de um tempo em que os homens eram livres. Com esse tipo de força não se brinca. Com esse tipo de sentimento não se consegue fazer piada facilmente. Por isso, é justo dizer que antes do jazz havia o blues, e o blues se fez nota e som para injetar, naquela mistura festiva, naquele carnaval burlesco e louco de quadris agitados e de ritmos frenéticos, aquela pitada inquietante de sentimento, dor e êxtase que transformaram a arte criada em Nova Orleans na grande música do século XX.

Publicado em 03/07/10

Publicado em 03 de agosto de 2010