Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Fonética em sala de aula: um momento de ampliação cultural

Beatriz Fontes e Juliana Carvalho

No que se refere aos conteúdos de língua portuguesa estudados no ensino médio, certamente a fonética é aquele a que nós, professores, damos menos atenção. Se o cronograma é corrido, se estamos atrasados com a matéria ou se precisamos contar com algumas aulas para revisão, não tenha dúvida; o conteúdo a ser excluído será esse. Isso quando a fonética entra no programa, pois muitas vezes ela é cortada já no plano de aulas.

É comum pensar que o estudo da fonética é supérfluo em relação aos outros conteúdos de língua portuguesa, e muitos a veem como mais necessária para fonoaudiólogos do que em sala de aula. O estudo dos fonemas, porém, pode gerar momentos de ampliação cultural, com a análise de músicas e poemas, além de um ótimo momento interdisciplinar, se unirmos a fonética aos conteúdos de literatura.

Para ilustrar este artigo, faremos uma análise do poema Tem Gente com Fome, de Solano Trindade; esperamos que a abordagem realizada forneça subsídios e encoraje você a trabalhar com a fonética criando análises de outros poemas e músicas.

TEM GENTE COM FOME

Solano Trindade

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiii

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bonsucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar

Psiuuuuuuuuuuu

Solano Trindade (1908-1974), poeta negro (e com muito orgulho!), publicou este poema em 1944, em seu livro Poemas de uma vida simples. Sua estrutura e sonoridade, que lembra um trem em movimento, remete a um famoso poema de Manuel Bandeira, Trem de ferro (1936). Em comum, ambos são construídos em cima de versos de cinco sílabas, também chamados de “redondilha menor”, que, junto aos versos de sete sílabas (ou “redondilha maior”), são a base da literatura popular. No entanto, as semelhanças ficam por aí, já que o poema de Solano Trindade é marcado por forte crítica social, característica que permeia sua obra. 

O cenário: Rio de Janeiro, trem (sujo) da Leopoldina. A ausência de pontuação ajuda a enfatizar o movimento constante desse trem que, ironicamente, ao invés de dizer “café com pão” (como no poema de Bandeira), parece dizer “tem gente com fome”. O trem de Trindade é urbano, meio de transporte de massa, usado diariamente pelo trabalhador para ir e voltar do batente. Ao contrário, o “trem de ferro” de Bandeira cruza o interior, passando por pastos, galhos, riacho...

O trem, em Tem gente com fome, constitui-se em metáfora estrutural do poema, através da substância conquistada por meio da seleção semântica e da sonoridade. Na primeira estrofe, o trem é transformado em anáfora dos versos:

T(r)em gente com fome
T(r)em gente com fome
T(r)em gente com fome

O trem movimenta-se (metaforicamente) em |T|em  |g|en|t|e  |c|om |f|ome, pois a aliteração das linguodentais |t|, alimentada pela palatalização do gen|t|e, permite que a sonoridade dê forma ao correr do trem, com o imaginário que se constrói sobre ele. A nasalidade (marcada pelos dígrafos vocálicos presentes em todas as palavras dos versos) nos faz vibrar no mesmo ritmo da máquina do trem. Além disso, os versos terminados pelo vocábulo |f|ome, iniciado pela consoante constritiva, fricativa labiodental, amplia a sensação do movimento do trem.

1. Consoante oclusiva linguodental surda
2. Consoante constritiva palatal sonora
3. Consoante oclusiva surda velar
4. Consoante constritiva labiodental surda

A sonoridade das oclusivas garante a explosão pelo impedimento da passagem de ar na glote e, por isso, imita o arranque do trem. Já as constritivas permitem a continuidade da passagem de ar, como no |g|,  no segundo |t| – que na pronúncia carioca é “chiado” – e o |f|, ocasionando a imitação do movimento do trem que carrega a fome.

A segunda estrofe é composta de apenas um verso (“Piiiiiii”), que nada mais é que uma onomatopeia que significa o apito longo e agudo do trem por conta da repetição da vogal |i|, que remete justamente a um som estridente. É o apito do trem quando para na estação.

Cabe observar que as anáforas e os paralelismos que permeiam o poema contribuem para a ênfase do registro obsessivo da imagem do trem movimentando-se. O poema possui “estrutura cinética” e, também, cinematográfica. O primeiro verso do poema é mais longo (possui sete sílabas) e dá justamente a sensação do momento em que uma câmera captou o trem da Leopoldina em movimento, como se uma lente grande angular, numa panorâmica, de repente se detivesse na figura desse trem.

Na terceira estrofe, os pressupostos implícitos nos versos “de novo a dizer/de novo a correr” permitem supor que o trem tenha parado na primeira estação: Caxias. Ou seja, partindo de uma observação do ponto de vista da Pragmática, podemos aferir que o trem retoma o seu movimento. O paralelismo encontrado entre “correndo correndo” e “parece dizer”, na primeira estrofe, e “...a dizer” e “...a correr”, na terceira, garantem a continuidade e a linearidade: o trem não saiu da linha (ou melhor, do trilho).

Na quarta estrofe, o trem percorre as estações. E elas próprias assumem o ritmo constante do trem. A sonoridade parece querer trazer a visibilidade de um passeio panorâmico pelas estações, além de brindar com uma escolha sonoplástica através da camada fônica que podemos extrair das palavras. Até que, no verso “Triagem, Mauá”, em que implicitamente há a coordenação |e|, o trem chega a seu destino final. Em seguida, vem a repetição de toda a primeira estrofe.

Nos onze primeiros versos da quarta estrofe, quando são relacionadas as estações por onde passa o trem, graças ao encadeamento entre alguns versos, a leitura continua a fluir no mesmo ritmo de outrora (cinco sílabas poéticas). Além disso, analisando mais detidamente a camada fônica já citada, podemos observar que continua a haver predomínio de consoantes constritivas e consoantes oclusivas, normalmente intercaladas. Verifique:

1. Consoante constritiva sonora labiodental
2. Consoante oclusiva velar sonora
3. Consoante constritiva palatal sonora
4. Consoante constritiva alveolar lateral
5. Consoante oclusiva velar surda
6. Consoante oclusiva velar surda
7. Consoante oclusiva linguodental sonora
8. Consoante constritiva labiodental sonora
9. Consoante oclusiva bilabial
10. Consoante oclusiva linguodental sonora
11. Consoante oclusiva bilabial surda
12. Consoante oclusiva bilabial surda
13. Consoante constritiva alveolar surda
14. Consoante oclusiva velar surda
15. Consoante constritiva lateral alveolar
16. Consoante oclusiva linguodental surda
17. Consoante constritiva alveolar surda
18. Consoante constritiva linguodental sonora
19. Consoante oclusiva bilabial surda
20. Consoante constritiva lateral alveolar
21. Consoante constritiva alveolar
22. Consoante constritiva velar
23. Consoante oclusiva bilabial sonora
24, 25, 26. Consoante constritiva alveolar surda
27. Consoante oclusiva velar surda
28. Consoante constritiva alveolar lateral
29. Consoante constritiva palatal surda
30. Consoante oclusiva velar sonora
31. Consoante oclusiva linguodental surda
32. Consoante constritiva palatal sonora
33. Consoante oclusiva bilabial nasal 

Observe-se ainda que, em muitos casos, há repetição de sons, o que também contribui para estabelecer o barulho do trem, como no caso do último fonema do segundo verso e o primeiro fonema do terceiro, na quarta estrofe. As rimas internas, predominantemente nasais, contribuem também para estabelecer um tom tristonho, reforçando o tema central do poema.

Na quinta estrofe, mais uma similaridade com o poema de Bandeira. Nela, a “câmera” se volta para o interior do trem. As rimas internas continuam a insistir na nasalidade, as consoantes constritivas e oclusivas continuam a praticamente se intercalar. A metonímia faz com que as lentes se aproximem e a objetiva permite que “tantas caras tristes” substituam o “todo”, ou seja, as pessoas que povoam os trens para o subúrbio. Novamente, a anáfora garante a insistência do registro. Entretanto, há a primeira contradição: entre o trem da Leopoldina “correndo correndo” chegando nas estações e as “tantas caras tristes/querendo chegar/em algum destino/em algum lugar”, reforçando a indefinição do pronome que se repete.

Na sexta estrofe ocorre mais uma vez a repetição da primeira estrofe. Em seguida, na sétima estrofe, o trem claramente, muda de ritmo. O terceiro verso marca essa desaceleração, com suas oito sílabas. O vocábulo “lentamente” também ajuda a diminuir a velocidade do trem e, a partir de então, são intercalados versos de seis e de quatro sílabas. O eu-lírico, com a desaceleração do trem, passa a ouvir o trem de outra forma, e é como se o trem assumisse uma nova postura. Ele já não comunica apenas que “Tem gente com fome”; ao contrário, através da condicional “se”, questiona: “se tem gente com fome” – e propõe a solução: “dá de comer”. O curioso é que a sonoridade de “Se tem gente com fome/dá de comer” é praticamente idêntica a “Tem gente com fome”. O trem, enquanto metáfora estrutural, possui a imagem daquele que “contém” (como recipiente) as “caras tristes” e o próprio movimento do trem, além do movimento social.

O poema termina com mais uma onomatopeia: “Psiuuuuuu”, que, através da repetição do u, transmite a sensação de negação, simboliza o som do freio de ar. Ela silencia não só o som do trem, mas cala as vozes que desejam chegar a algum destino, a algum lugar. É a autoridade que dita a norma de conduta, que para tudo. Como ilustração, vale lembrar que o poema, sendo de 1944, foi publicado no fim da ditadura de Getúlio Vargas.

Publicado em 03 de agosto de 2010

Publicado em 03 de agosto de 2010