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O que é a internet em nuvem

Marlon Baptista

Doutorando em Filosofia

A internet

Vivemos num momento em que o sentido do termo internet é algo tão pressuposto às pessoas em geral que por muitas vezes não se sabe ao certo o que caracteriza a sua definição como rede interligada de computadores. Pois a característica fundamental da internet é o modo como os computadores se ligam um ao outro por meio da identificação de seu IP (internet protocol), ou seja, um número de protocolo de internet que é único para cada computador a ela conectado. Pelo IP é possível rastrear todas as páginas visitadas pelo usuário, todos os momentos e a frequência de visitas, atividades, downloads e todas as movimentações de alguém que está conectado. O que significa que a internet é a forma de interatividade que mais exige o fornecimento de informações do usuário dentre os meios de comunicação desenvolvidos até hoje.

Com isso, é possível pensar numa primeira questão: quem é que, por meio de seu IP, tem acesso a todas essas informações? Pode ser um hacker que identifica o seu endereço de rede e monitora você, ou o servidor que você utiliza – como o Google, por exemplo. Pretendo com este artigo refletir um pouco sobre uma nova tecnologia de armazenamento, processamento e conexão de dados, denominada “internet em nuvem” como uma revolução quanto aos métodos de informação digital e, juntamente a isso, pensar problemas que podem vir a ser gerados devido ao modo como a internet pode intervir na maneira como vivemos.

A nuvem

Os sistemas de processamento de dados tradicionais remontam aos centros de dados (data centers) da década de 1960: imensos prédios com vários computadores de alta potência em corredores refrigerados a uma temperatura constante. Por conta do alto custo e da complexidade de redistribuir funções entre as máquinas, alterando a finalidade de seu processamento, cada computador era responsável por uma única tarefa; por exemplo, no centro computacional de um banco, um computador seria responsável pelo trabalho com os cálculos do mercado de ações e investimentos, outro pela folha de pagamento dos funcionários, outro pelas transações realizadas pelos clientes etc. Outra característica do processamento e armazenamento tradicional de dados, para além desses grandes centros de dados, é a existência de microcomputadores, máquinas de menor potência que carregam consigo sistema operacional, memória e velocidade delimitada. Essas duas características são o meio por onde posso começar a falar sobre o diferencial da chamada “internet em nuvem”.

Por falta de nome melhor, esta tem sido a denominação para um tipo de manipulação de dados que faz com que diferentes computadores trabalhem como se fossem um só. E o que isso significa? Que se no sistema tradicional, por conta da especificidade da função de cada computador de um centro de dados, havia momentos de até 80% de ociosidade de computadores voltados para determinada função, com a virtualização criada pela internet na nuvem, há altíssima otimização da utilização do sistema de dados. Por exemplo, durante a abertura e momentos de pico de investimentos da bolsa de valores, os data centers se organizam e voltam sua atividade para esses dados, enquanto à noite sua atividade se volta mais para sites de entretenimento utilizados por uma quantidade muito maior de pessoas. Mas a tecnologia da nuvem faz mais que isso, ela cria como que “máquinas-fantasma” para o processamento de dados para determinados fins; quando a meta é alcançada, o sistema virtual simplesmente desaparece, de modo que os servidores ficam liberados para exercer outras funções. Ou seja, essa tecnologia possibilita maleabilidade no desenvolvimento de diversas funções na rede de computadores, conforme a diversidade da demanda.

Assim nos referimos já a outra característica da internet em nuvem: o fim da necessidade de base material por meio de máquinas e sistemas operacionais pessoais para o seu funcionamento. A Nasdaq, por exemplo (bolsa americana de empresas de tecnologia), pôde criar um sistema de dados sobre milhares de ações sem ter que gastar milhões em suporte tecnológico próprio fazendo uso do serviço na nuvem. O que significa que, ao invés da compra de equipamento no interior do qual seria armazenada e processada a informação, paga-se uma mensalidade para usar a nuvem como espaço de manipulação de dados. Desse modo, se até então o sistema operacional era um produto, agora ele passa a ser um serviço. Assim, em pouco tempo não será mais viável investir dinheiro em máquinas que contêm fisicamente um hardware que armazena informações; ao invés disso, somente se comprará um teclado e um monitor a partir dos quais se tem acesso aos dados e programas que hoje em dia são armazenados no interior de uma máquina pessoal e comprados como produtos.

A mobilidade no processamento de informações com esse novo sistema é tamanha que já existem voluntários que cedem parte do processamento ocioso de seus próprios PCs para a realização de pequenos fragmentos de pesquisas científicas das mais variadas – desde o desenvolvimento de um tipo de arroz geneticamente modificado para se tornar mais nutritivo até o melhoramento do uso da energia solar por meio de painéis solares mais eficientes. A IBM mantém um sistema que conecta 1,2 milhão de computadores de voluntários ao redor do mundo para a realização de pesquisas científicas; esse processamento de dados em rede torna muito mais rápido o andamento das pesquisas, de modo que a velocidade de seu funcionamento equivale a 200.000 vezes a de um PC comum.

A nuvem na vida ou a vida nas nuvens

Com essas duas diferenças básicas quanto ao modo de funcionamento da internet em nuvem em comparação com o modo tradicional de processamento de dados, mantemo-nos ainda a um passo aquém da real radicalidade de sua novidade. Já estão em teste nos Estados Unidos e na Europa tomadas elétricas que contêm um chip que as conecta a internet, de modo, por exemplo, a poder ser desligadas a distância, pela internet; e que, além disso, fornecerão informações quanto ao seu funcionamento e quanto ao consumo maior ou menor de um determinado produto, o qual futuramente também estará conectado à internet. Esse tipo de tecnologia poderia contribuir para a economia de até 75% de energia em uma cidade com esse tipo de conectividade.

Na Coreia do Sul está sendo construída a cidade de Nova Songdo, a qual terá praticamente todos os objetos que a compõem ligados à internet, graças à tecnologia da nuvem. A embalagem de qualquer produto estará chipada, de modo que, quando se faz uma compra no mercado com pagamento por cartão de débito ou crédito, há o registro do que o cidadão está comendo, suas preferências quanto a determinadas marcas e a possibilidade de análise destes dados, de modo a criar produtos destinados a determinados públicos consumidores. Para além do interesse comercial, esse modo de interatividade pode ser interessante também para o governo, que pode ter acesso, por exemplo, a práticas de descarte inadequado de lixo reciclável, como uma embalagem plástica jogada em meio ao lixo orgânico, de modo a poder ser aplicada uma penalidade ao cidadão simplesmente pela conferência, no chip da embalagem, que conta o seu histórico. Ou mesmo a partir de monitoramento de automóveis chipados pode-se, por meio da identificação de seus caminhos e velocidades, diagnosticar um engarrafamento antes mesmo que ele aconteça.

O ápice da implementação desse projeto é a presença de monitoramento, por meio de chips, de cada nervo, cada músculo, cada órgão de nossos próprios corpos. Assim, diante de um ataque cardíaco de um indivíduo, poder-se-ia determinar o que ele estava fazendo logo antes do ataque, o que ele vinha comendo, com que frequência, de modo que as decisões do médico poderiam estar amparadas numa quantidade tão grande e imediata de informações que elas poderiam ser mais eficazes e pontuais do que, por exemplo, a tradicional técnica de investigação do histórico de um paciente pela comunicação verbal, ou, quando ele não está em condições de se expressar, por meio de exames pós-traumáticos, que abrem margem para várias interpretações do que ocorreu e de como realmente aconteceu o trauma.

É preciso pensar sobre as nuvens

Com essa tamanha interatividade, é salientado o benefício que é possível de ser trazido à vida humana. Mas também é deixado espaço a outros modos de uso que podem figurar como pratos cheios para sistemas políticos autoritários e para a manipulação de opinião e gosto por meio das grandes corporações que visam interesses comerciais. Há uns meses a Amazon acessou a biblioteca virtual Kindle – que é um leitor de livros criado e comercializado pela Amazon – e simplesmente retirou de lá vários títulos que foram considerados sem licença necessária para serem comercializados na internet. Com isso, foi causado um rebuliço, mesmo com o anúncio do reembolso dos livros confiscados. Um detalhe interessante desse acontecimento é que um dos livros retirados da biblioteca virtual foi 1984, de George Orwell, em que é narrada a história de um sistema de controle oculto que teria acesso à privacidade dos cidadãos, recolhendo e organizando todo tipo de informação em prol de um sistema vigiado pelo grande irmão (big brother).

O modo como fica armazenado todo o histórico de acessos de cada PC à internet é algo também problemático. O presidente da Google alega que o armazenamento desse histórico possibilita o aperfeiçoamento do próprio sistema de busca, assim como auxilia a evitar fraudes, como a presença de sites que conseguem aparecer na relação de páginas que o usuário procura mas que, na verdade, não têm nada a ver com a busca, sendo somente uma estratégia publicitária de apresentar uma propaganda para o internauta. Ele diz que é o armazenamento desse histórico que possibilita que, quando uma palavra é digitada de forma errada no espaço de busca, o Google, por uma rápida análise da frequência de buscas por uma palavra parecida responde “você quis dizer isso, e não aquilo”. Mas, por outro lado, esse excesso de informação pode causar embaraços.

Recordo-me do livro O Estrangeiro, de Albert Camus, em que o protagonista, acusado de homicídio, é tachado de ter sangue frio e ser mau por não ter chorado no enterro da mãe. Camus quis mostrar o ápice do absurdo das atribuições interessadas de sentido do ser humano, mas a atual tecnologia fornece condições para situações parecidas ou piores. Por exemplo, um criminoso acusado de estupro injustamente pode ter sua acusação agravada caso seja verificada a recorrência de visitas ao Pornotube – quando essa recorrência poderia ser também sinal de solidão e busca de satisfação sexual de forma não violenta, utilizada, diga-se de passagem, por milhões de pessoas mundo afora como meio de sexo via banda larga. Com os atentados de 11 de setembro, o governo dos Estados Unidos aprovou uma lei (o Patriot Act) para poder violar legalmente de forma mais ostensiva a privacidade dos cidadãos. Assim, pode surgir o tipo de lógica que vincula a recorrência de acesso a sites árabes como sinal de se tratar de alguém que é terrorista em potencial.

Os problemas em torno da ética da informação abrangem vários âmbitos de intervenção social, antropológica e política. Mas, no que diz respeito ao que tratamos especificamente neste artigo, podemos pensar sobre até que ponto ainda será dada ao cidadão a possibilidade de escolha dos limites de abertura de sua privacidade. Poderemos escolher não ter nosso organismo monitorado? Com nosso corpo com chip –o que poderia ser o ápice da interação entre máquina e humano – não seria possível, numa questão de tempo, até mesmo prever problemas de saúde? Ótimo, poderíamos evitá-los de forma mais eficiente. Mas com esse nível de previsão de nosso organismo, não teríamos também o âmbito das relações sinápticas de nosso cérebro analisadas? A partir da dinâmica de seu funcionamento, outras pessoas e instituições poderão ter acesso aos nossos sentimentos, ao nosso ânimo, aos nossos possíveis maiores talentos. E, em última instância, à nossa personalidade! Essa seria a invasão de privacidade mais exacerbada, que poderia entrar no que há de mais interior, para muito além da superficialidade das câmeras ou do histórico dos sites que visitamos, o que seria uma violência praticada contra algo que desde Aristóteles foi pensado como algo distintivo do ser humano, a necessidade de um âmbito de existência que não é público, que diz respeito somente aos íntimos ou a si mesmo. Algo que o artigo 5º da Constituição Brasileira nos garante, assim como o artigo 12º da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 – para citar somente dois documentos legais que são símbolo da democracia moderna.

Referência

http://veja.abril.com.br/120809/vida-digital-indice-p-59.shtml

Publicado em 26 de janeiro de 2010

Publicado em 26 de janeiro de 2010