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Sexualidade

Tatiana Serra

Dicionário Houaiss

Crianças curiosas e adolescentes bem mais que isso. Como lidar com essas manifestações em sala de aula?

Crianças descobrindo as diferenças entre meninas e meninos... Pais que sequer trocam de roupa na frente dos filhos... Meninas com o lado masculino mais aguçado... Meninos brincando de boneca... Pais que não querem nem pensar nas manifestações sexuais dos filhos...

E adolescentes... Ah, os adolescentes! Fase da vida em que a sexualidade é, no mínimo, um dos principais assuntos pensados e falados. E os educadores, que papel devem ter nessa história?

O educador pode não ser o protagonista na construção de um ser humano, mas sem dúvida é um dos principais personagens, já que o desenvolvimento da sexualidade da criança e o que ela entende como sendo o mundo estão diretamente relacionados com a educação que ela vai ter. Cabe, então, a esse profissional exercer o respeito ao ser humano e às suas diferenças, exigindo o mesmo de todos e não permitindo que haja nenhum tipo de discriminação no ambiente escolar. Preconceitos, valores e opções pessoais não têm espaço na relação entre professores e alunos.

Abordar sexualidade não é simples, mas também não precisa ser uma cena de terror. “Em relação aos comportamentos sexuais observados em sala de aula, como beijos, exploração do corpo do colega e jogos sexuais, o educador pode pautar-se pelos mesmos princípios que usa para outros comportamentos inadequados em aula, ou seja, demonstrar que entende a curiosidade, mas que a escola é um lugar onde se deve respeitar a vontade dos outros e que estão lá para aprender, brincar etc.” É o que sugere Marina Almeida, psicóloga, psicopedagoga e consultora de educação inclusiva do Instituto Inclusão Brasil.

É fundamental que o educador não passe valores morais reprovadores aos alunos, como se a curiosidade fosse algo negativo. “As crianças de 4 ou 5 anos, por exemplo, ainda não agregam valor sexual às atitudes, e os adultos têm dificuldade de enxergar que se trata apenas de curiosidade quanto ao diferente. Os adultos devem impor limites às crianças, como não incentivar que peguem no próprio órgão sexual, acentuando a questão da higiene com a mesma conotação dada a não se levar a mão suja à boca. É importante não brigar nem agregar valor sexual a essa atitude, para que a criança não dê conotação negativa e não veja o ato de se tocar como um problema”, esclarece Cláudia Canavarro, psicopedagoga e coordenadora da educação infantil do Colégio Notre Dame Recreio e da creche Espaço Encantado.

Com os adolescentes, por exemplo, é preciso falar a sua língua, é preciso lidar com o assunto sexo e suas manifestações da maneira mais natural possível, levando aos jovens informações sobre sexualidade humana, saúde sexual, doenças sexualmente transmissíveis, gravidez na adolescência e homossexualidade, entre outros. Ao mesmo tempo, é importante ouvir os jovens e saber o que eles pensam sobre tudo que envolve sua sexualidade. Muitas vezes, o jovem não tem essa conversa em casa e a orientação sexual na escola pode ser sua única fonte de informação.

Nas aulas sobre sexualidade, os jovens podem aprender a conhecer seus desejos, necessidades e afetos (e a lidar com eles). O educador deve ser criativo, a fim de atingir a todos. Por exemplo, para aguçar o interesse dos mais tímidos e/ou preconceituosos, especialmente, é possível promover discussões em pequenos grupos, jogos e outras dinâmicas. Porém, alguns profissionais se perdem na tentativa de serem modernos, “estimulando uma sexualidade precoce ao incentivar danças de músicas atuais erotizadas, namoros entre os alunos, identificação com modelos da mídia, moda das pulseiras coloridas etc.”, lembra Marina Almeida.

Apesar das muitas possibilidades para falar sobre sexo em sala de aula, ainda se vê em diversas escolas um enfoque apenas biológico ao tratar desse assunto, como se não houvesse fatores psicológicos, sociais e culturais que influenciassem a maneira como cada indivíduo vê sua sexualidade. Muitas vezes, os professores até percebem a necessidade de aprofundar mais a educação sexual em sala de aula, assim como outros temas de interesse coletivo, mas falta qualificação adequada.

E não se deve esquecer que “a educação tem como missão elaborar conhecimentos sobre a diversidade da cultura humana e levar as pessoas a tomar consciência da interdependência entre todos os seres humanos”, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). “É por meio do diálogo, da reflexão e da possibilidade de reconstruir as informações, pautando-se sempre pelo respeito a si próprio e ao outro, que o aluno conseguirá transformar e/ou reafirmar concepções e princípios, construindo de maneira significativa seu próprio código de valores”, destaca Marina.

Descobrindo o próprio corpo

Sexualidade é a qualidade do que diferencia macho e fêmea

A sexualidade, por diversas vezes, pode se enquadrar no drama, na comédia ou mesmo no terror... Mas uma coisa é certa: essa história já passou, passa e passará na vida de todos nós. Afinal, a sexualidade é um impulso natural a todo ser humano. E, admitindo você ou não, toda criança passa pelo processo de conhecimento do próprio corpo, e isso inclui a descoberta das diferentes sensações que ele nos proporciona. “O comportamento sexual começa na infância, nas atitudes e curiosidades decorrentes das necessidades de satisfações instintivas que exigem gratificações eróticas. De acordo com as etapas do desenvolvimento, o indivíduo localiza em determinadas regiões do corpo (zonas erógenas) o interesse libidinoso. Libido é a energia que alimenta a conduta sexual”, comenta Marina.

Unindo conhecimento teórico, prático, respeito e bom senso, é possível usar os exemplos que surgem no ambiente escolar para a orientação sexual. Um menino muito mimado que vê na mãe uma personalidade mais forte e tem um pai ausente pode apresentar dificuldades. Tem menino que chega a dizer que quer ser igual à mãe e mostra preferências mais femininas. “Cabe à escola conversar com os pais sobre o comportamento dos filhos. Mas, no caso de uma criança de 5 anos, por exemplo, essas características não definem sua sexualidade. Ela precisa exercitar o igual e o diferente, experimentar. Isso faz parte do desenvolvimento da criança. E os pais é que devem rever suas atitudes. No caso de um pai ausente, por exemplo, ele não deve entrar na vida do filho pela ordem e sim pelo afeto, pelo querer bem”, explica Cláudia Canavarro.

E para falar com uma criança sobre sexo, qual é o momento certo e qual o limite do que pode ser dito? “Para responder aos questionamentos de ordem sexual das crianças, deve-se ter claro que a criança que tem idade para perguntar tem idade para ouvir a resposta. E o tom de voz, o olhar e a postura de quem responde devem ser valorizados para que não sejam artificiais nem repressores”, analisa Marina Almeida.

Adolescentes bem mais que curiosos

Quem convive com adolescentes sabe: o que não falta nessa fase da vida são manifestações sexuais em que os hormônios estão “gritando” e a cabeça está a mil. Porém, você sabe que a sexualidade se expressa de diferentes formas num adolescente. Segundo Marina, “a primeira forma é a repressão do próprio impulso, principalmente se os primeiros contatos forem frustrantes. Outra atitude frente ao ato sexual é aceitar, mesmo sem envolvimento afetivo; e talvez essa seja a forma de expressão mais frequente na adolescência inicial e intermediária. A preferência sexual com afeto é o posicionamento que demonstra postura mais integrada frente à sexualidade, escolha esta que se encontra subsidiada pelas vivências que cada adolescente enfrenta ao longo de sua vida, sejam elas sexuais ou não, e que são socialmente rotuladas de atitudes amadurecidas”.

Na opinião de Cláudia, “o momento em que o indivíduo começa a ter percepção quanto à sexualidade depende da vivência de cada um. Nas camadas mais carentes da nossa sociedade, por exemplo, é mais fácil encontrar crianças que tenham acesso às questões que envolvem sexo bem cedo. Muitas vezes, isso se deve à própria falta de espaço físico em casa; e então elas percebem ou sabem claramente da vida sexual dos pais”.

E quando essa percepção chega, é preciso observar com mais cuidado o comportamento sexual do adolescente. “No caso de um menino de 12 anos, a sexualidade está à flor da pele, e a opção sexual já está definida. Se ele se portar com claras preferências femininas, a escola deve chamar a família e trazer à tona a realidade, sem preconceitos. Cabe à escola alertar e cuidar para que não haja discriminação entre os alunos. E, na maioria das vezes, a família reage como se a escola estivesse sendo preconceituosa”, relata Cláudia.

Sexo: assunto tabu para os pais

Pelo que vimos, as dificuldades vão além dos muros escolares. Os pais podem influenciar de forma acentuada – e, infelizmente, negativa – o comportamento sexual dos filhos. E como abrir os olhos dos responsáveis quanto a isso?

Talvez um dos maiores medos dos pais seja que seus filhos tenham escolhas muito diferentes das dos outros. O que é uma total incoerência, se pensarmos que, ao mesmo tempo, vivemos numa sociedade na qual quem faz sucesso normalmente é quem tem diferencial.

É bom ressaltar que “a sexualidade da criança começa no imaginário dos pais, antes mesmo do nascimento. Todos os pais têm expectativas em relação a seus filhos, conscientes ou inconscientes, e uma delas diz respeito à sexualidade da criança. Esta, ao nascer, pode corresponder à expectativa ou não, e se desenvolverá conforme for a aceitação do sexo da criança pelos pais”, complementa Marina.

O melhor é tratar o assunto sexualidade com naturalidade, atenção e carinho, sem mitos e preconceitos. Afinal, a formação da identidade de um indivíduo passa por vários estágios: como a descoberta do próprio corpo, a compreensão de quem é na sociedade e no mundo, além da observação de atitudes e costumes de seus principais referenciais, sua casa e sua escola.

Publicado em 10 de agosto de 2010

Publicado em 10 de agosto de 2010