Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Triste fim de um jovem poeta

Luis Estrela de Matos

Escritor, ensaísta e professor universitário

Ter força um dia pra quebrar as roscas
Desta engrenagem que empenando vai.
- Não mandar telegramas ao meu Pai,
- Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Mário de Sá-Carneiro

Alguns poetas nos deixam cedo demais. Além dos ultrarromânticos e a fama que a morte, brevemente, iria lhes trazer, um poeta português, Mário de Sá-Carneiro, após engolir 5 frascos de arseniato de estricnina, parte para outras viagens, outras paragens. Ano de 1916. Veste-se a rigor, deita-se no quarto de hotel e despede-se dandicamente do cotidiano de uma vida parisiense. Veredas não muito descritivas, talvez. No famoso bairro de Montmartre, em Paris, Sá-Carneiro sofre um rapto da morte, deixando tristeza aos seletos amigos em Lisboa, entre eles o solitário Fernando Pessoa, e acarretando ao modernismo português, uma perda realmente irreparável. Há que perguntar, é claro: o que seria o modernismo português sem a perda de Sá-Carneiro? No mínimo, outro modernismo, responderia sabiamente Alberto Caeiro.

Parecia ter os dias contados esse Sá-Carneiro. Alguns de seus melhores versos apontam isto, como se ele tivesse telegrafado (não havia internet ainda) à morte. Cito uma estrofe do famoso poema Quase:

Um pouco mais de sol - eu era brasa.
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Telegrafando ou não, cartas e mais cartas tornaram-se lendárias e importantes enquanto documentos fiéis da escrita de dois grandes modernistas. Ou quase modernistas... Até porque modernistas pode não querer dizer, nos tempos contemporâneos, muita coisa.

A verdade é que Sá-Carneiro andava mencionando nas cartas a sua morte anunciada ao seu grande amigo, Pessoa. Excesso de pontuação, exclamações, traços da escrita apollinairiana, desesperos financeiros e existenciais em forma de silêncio das entrelinhas, tudo isso desenhava o drama íntimo, a ponto de fatos biográficos e elementos literários confundirem-se de tal maneira que o leitor precisa estar mais do que atento para não escorregar nas armadilhas ficcionais de toda boa escrita. Se uma escrita não engana, não está a cumprir seu papel, é claro. De realismos o Ocidente está repleto. Há que fingir, há que mentir. Mas, no caso Sá-Carneiro, o suicídio conseguiu transformar-se numa espécie de elo final entre o ficcional e o não ficcional. Para finalizar este texto quase ficcionalmente fictício, antes que eu tenha um deslize biografizante, reproduzo, na íntegra, o poema intitulado Fim:

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá-Carneiro
(Lisboa, 1890 – Paris, 1916)

Publicado em 10 de agosto de 2010

Publicado em 10 de agosto de 2010