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A voz das mulheres na América Latina

Juliana Carvalho

Como a historiografia literária da América confirma, a literatura latino-americana nasceu marginal com respeito às grandes tradições literárias do Ocidente e se apressou a qualificar-se e encontrar direção própria. Sua principal luta foi pela originalidade.

Durante o período colonial, essa literatura foi um simples apêndice da que se escrevia em Portugal e na Espanha; porém, com os movimentos de independência que tiveram lugar no começo do século XIX, entrou em um segundo período, dominado por temas patrióticos. Na etapa de consolidação nacional, que se seguiu, experimentou seu auge, até que alcançou sua maturidade a partir da década de 1910, chegando a ocupar lugar relevante dentro da literatura universal. A produção literária dos países latino-americanos forma um conjunto harmônico, apesar das diferenças e das características próprias de cada país.

A literatura escrita por mulheres tenta, desde os anos 1970, aprofundar-se sobre o feminino. De fato, em nossos dias, esse é um dos campos de estudo mais promissores e frutíferos ao olhar interdisciplinar, até as severas restrições econômicas que o governo dos EUA impôs às investigações sobre os componentes marginais da sociedade norte-americana (negros, mulheres e minorias). Até então prioritários nos programas de financiamento das universidades do país, sobrevivem na atualidade unicamente os financiamentos destinados aos estudos sobre a mulher, precisamente porque são enfocados com interdisciplinaridade. Isso constitui sua contribuição máxima, ao inferir-lhes uma perspectiva crítica desde a qual se pode questionar os princípios da ciência, da religião, da psicologia e das ciências políticas.

Diversos autores já observaram a importância estratégica desse campo de estudos, ainda mais quando já conseguiu estabelecer-se com certa estabilidade e o âmbito universitário, convertendo-se em um possível núcleo de revisões críticas. Particularmente em humanidades e ciências sociais, os estudos feministas são destrutivos para os modelos tradicionais porque estimulam métodos novos de análise e pesquisa e desafiam a divisão entre trabalho manual e intelectual, entre teoria e prática. É por isso que são estrategicamente importantes.

A escritora Sara Sefchovich afirma que “há quem insista que a literatura feminina é confessional por definição, porém as definições são sempre históricas”. Certamente, longe está o tempo em que a escritura feminina se baseava apenas em gêneros marginais como o diário, a carta ou as memórias, mas estas definições perduram até nossos dias. O sentido e o tom deixaram de ser tão íntimos ou mascaram, com essa mesma intimidade, uma sólida vontade de afirmação. As narrações em primeira pessoa abundam, porém o autobiografismo tem, desde as últimas décadas do século passado, conotação subversiva, paródica, crítica, muito distante da sensibilidade que, sob a definição de escrita confessional, tem envolvido a recepção das obras literárias femininas. Até que ponto a definição repetida por inércia ou por desconhecimento consolidou uma imagem questionável da base da escritura feminina?

Só nos últimos anos, e no empenho de descobrir também as origens de um discurso literário ausente ou perdido, os estudos sobre a escritura feminina do período colonial hispano-americano conseguiram redefinir aspectos importantes. Por exemplo, é sabido que no século XIX escritoras que sonharam fazer parte do cânone literário daquela época deram à luz obras narrativas que não se enquadravam nas tendências e padrões comuns de então. Um novo olhar sobre esses mesmos textos revela em troca o uso consciente desses padrões não para perpetuá-los, mas sim para anunciar, por meio deles, circunstâncias femininas específicas. Fortemente condicionadas por uma imagem romântica do modelo feminino, as interpretações dessas novelas não enfocavam, até há pouco tempo, seus signos subversivos, críticos, contestadores, disfarçados de correção sob aparências legitimadas. Gertrudis Gómez de Avellaneda, escritora e poetisa cubana por exemplo, inicia com Sab, novela antiescravista de 1841, uma afirmação singular da identidade, ao utilizar a figura do escravo negro para pôr em evidência o comportamento mais sangrante e trágico do sujeito feminino, cuja dependência está sem dúvida institucionalizada na tradição como parte ideal do modelo feminino. Contradiz o matrimônio e a maternidade como metas básicas desse mesmo ideal, mostrando uma imagem não convencional ou pouco de acordo com as definições românticas da mulher tradicional.

A publicação de numerosas obras narrativas escritas por mulheres desde os anos 1970 até nossos dias e o auge dos estudos e análises sobre eles demonstram a necessária revisão não só de textos do passado como também da interpretação que até aqui se fez sobre eles. Essa nova visão não consiste em uma exumação de escritoras com desejo de exotismo ou originalidade, e sim em averiguar que papel cumprem esses primeiros textos na definição da narrativa feminina da América espanhola e até que ponto suas interpretações estiveram condicionadas por prejuízo, inércia ou desconhecimento.

Com isso, porém, poderão ser estabelecidos o desenvolvimento e a evolução de importantes conceitos na escrita feminina, orientadas com base na explicação e na conquista da identidade pessoal, como é o caso da flagrante oposição que durante séculos atribuiu virtudes e carências aos espaços culturais, desde premissas baseadas no gênero. No século XVII, a mexicana Sor Juana Inés de la Cruz pôs em evidência a falácia do pensamento masculino ao excluir do âmbito da cozinha o conhecimento ou a sabedoria. “Se Aristóteles houvesse cozinhado, muito mais haveria escrito”, comenta de modo irreverente em sua Carta Atenagórica, resposta a Sor Filotea, de 1691.

No final do século, os espaços comumente associados ao feminino se converteram em espaços de revelação e iluminação, tão poderosos como os espaços abstratos da filosofia masculina (assim sucederá em Lección de cocina,de Rosario Castellanos; Canon de alcoba, de Tununa Mercado, e na maior parte dos relatos das últimas décadas. Não há dúvida de que o novo movimento feminista dos anos 1970 foi um ponto importante de reavaliação da identidade feminina. A rejeição “consciente” das imagens e modelos impostos à mulher, a reivindicação do fazer feminino como práxis cultural e o projeto ideológico de obter poder político modificaram o ideograma básico sobre o qual se constitui literariamente a problemática do ser. A escritora porto-riquenha Rosario Ferré abriu uma brecha importante desde 1976 com a incorporação de motivos transgressores em sua obra, instaurados no nível da linguagem (blasfêmia, obscenidade, ausência de eufemismos) e nos níveis ideológicos de suas ficções, nas quais a mulher opta sempre pelo pecaminoso.

Além das citadas, outras escritoras tentaram fazer de seus escritos a voz da verdadeira vontade da mulher, seus desejos, suas angústias, sua própria forma de ver a si e ao mundo e, assim, escrever una nova literatura feminina. No Brasil, quando se fala de literatura feminina, é impossível não pensar em Clarice Lispector. Quando em 1943 lançou seu primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, a literatura brasileira era dominada por uma tendência essencialmente regionalista, com personagens contando as dificuldades da realidade social do país na época.

Clarice Lispector surpreendeu a crítica com seu romance, seja pela problemática de caráter existencial, completamente inovadora, seja pelo estilo solto, elíptico e fragmentário. Esse estilo de escrita se tornou marca característica da autora, como pode ser observado em seus trabalhos subsequentes. A obra de Clarice ultrapassa qualquer tentativa de classificação, sinal de que a literatura escrita por mulheres há muito rompeu com o paradigma da literatura feminina que perdura até hoje.

Publicado em 24 de agosto de 2010

Publicado em 24 de agosto de 2010