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Violência nas escolas: o desrespeito é inaceitável; a compreensão, fundamental

Tatiana Serra

Para entender e identificar as razões da violência nas escolas, é preciso entender primeiro a sociedade em que ela se encontra. Todos os aspectos, sejam eles históricos, econômicos e culturais, tudo deve ser considerado para que se compreenda um comportamento violento. A miséria, a falta de instrução, a desestrutura familiar, a falta de limites, o excesso de consumo, manifestações de agressividade e injustiça dentro e fora de casa... Essas e outras situações motivam a violência em muitos indivíduos. Por outro lado, há quem use as dificuldades como motivação para uma vida melhor.

Pode ser mesmo que na vida haja apenas uma escolha entre duas opções: vencer ou perder. Porém, numa situação de violência, não há vencedores ou perdedores; todos saem prejudicados. Mesmo assim, cresce o número de casos de violência em todos os meios sociais, e um ambiente escolar cada vez mais violento é “apenas” reflexo disso.

Casos de violência

De acordo com o Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro - Sepe, só em 2010 pelo menos um caso grave a cada mês vem sendo divulgado pelos meios de comunicação – e outros tantos não são divulgados.

Segundo o Sepe, a falta de profissionais nas escolas e o número excessivo de alunos só agravam a violência. E já chegou ao ponto de algumas escolas suspenderem o horário de recreio por não haver profissionais que orientem os alunos nestes horários. O número de educadores só tende a cair, pois, além da falta de remuneração adequada e outros fatores, os muitos episódios de violência têm levado professores a desistir do magistério.

Em junho deste ano, uma professora do município do Rio de Janeiro, com mais de 40 anos de magistério, teve um dedo da mão quebrado após ser agredida por um aluno dentro da sala de aula. Também no Rio, uma professora foi espancada por uma mãe de aluno ao chegar à escola. Depois da agressão, ela não conseguia mais voltar para a sala de aula e ficou afastada por seis meses em tratamento. A professora disse que já havia sido ameaçada há cinco anos pela mãe do aluno, o qual levara conceito R (regular) e que a direção da escola sabia e nada fez.

Infelizmente, a violência vem crescendo nas instituições de ensino de todo o Brasil. Em maio deste ano, o cenário violento foi uma escola do município de Jaguarão, no Rio Grande do Sul. O estudante foi repreendido pela professora porque estava atirando frutos de cinamomo (tóxicos e do tamanho de uma bola de gude) em outra criança e se revoltou contra ela, passando a agredi-la com tapas nos braços e nos ombros. Os pais do estudante foram condenados a pagar R$ 2 mil de indenização à educadora por danos morais.

Além disso, não podemos esquecer que muitas vezes os chamados “mestres” também protagonizam episódios violentos e silenciosos, confundindo ou abusando de seu “poder” ao agredir alunos com palavras e até fisicamente.

Os papéis da família e da escola

Para superar a crescente violência escolar é preciso que a sociedade se organize. Seria isso utopia? Teriam a família e a escola desistido de educar? O indivíduo se forma a partir de diversas influências, mas a família deve ser sempre a base de seus principais valores. Em seguida, vem a escola, que, quando necessário, recompõe valores deteriorados e ajuda a preparar o indivíduo para a vida. Entendendo o professor como referência fundamental para alunos e seus familiares, pergunta-se: onde foi parar o respeito ao “mestre”?

A escola é reflexo de uma sociedade, e o que vemos dentro dela pode-se dizer que é exatamente o mesmo que se encontra nas ruas ou dentro de casa. Muda-se o ambiente, mas os personagens são os mesmos. Aliás, a falta de estrutura das instituições é apontada como uma das causas de violência no ambiente escolar. Para que isso se modifique, um dos passos seria a união entre escola, alunos e pais.

O desrespeito é inaceitável, mas é papel do profissional da educação refletir sobre essa crescente violência e exercitar a compreensão sobre o que está por trás disso. Afinal, tudo que se passa no ambiente escolar deve ser entendido como relevante à educação do indivíduo.

É importante ressaltar que é do profissional da educação que se espera o limite entre as relações interescolares, assim como é dos pais que se imagina virem os limites dentro de casa (como um ensaio do que se espera existir nas relações fora de casa).

Além disso, teoricamente, sabe-se que uma relação deve ser baseada na confiança. Mas o quanto educadores, pais e alunos têm confiado uns nos outros? É preciso conquistar o filho e/ou o aluno nas pequenas atitudes, abrindo espaço para que ele se coloque, expondo suas ideias, dúvidas e conflitos. Assim, e aos poucos, vai se estabelecendo uma relação de confiança em que a criança e o adolescente encontram proteção e conforto para se abrir e denunciar inclusive atos de violência sofridos, vivenciados ou protagonizados por eles.

O que pode ser feito para garantir a harmonia entre estudantes e docentes depois de um caso de agressão?

Foi essa a pergunta feita pelo JB online no último dia 25 de abril à professora Leila Cury Tardivo, que leciona Psicologia Clínica na USP. Ela reforça a importância de ouvir o estudante e aponta que o maior erro é fingir que nada aconteceu. "O ideal é ter um espaço de discussão, mas sem tentar dar lições de moral e bronca, pois adolescente não curte isso", diz Leila. "Também é importante criar meios de o estudante poder falar de sua angústia, dor e medo para evitar esses episódios".

Muito se questiona se os episódios violentos devem ser tratados como casos de polícia. Segundo Leila, “o melhor é não usar punições extremas, pois eles (os alunos) não são criminosos". Ela recomenda ainda que os alunos diretamente envolvidos sejam responsabilizados pelo que fizeram e, se possível, que reparem o dano feito ao bem público. "O estudante precisa saber que seus atos têm consequências", afirma a docente da USP.

Aos profissionais que sofrem com a violência em sala de aula, Leila Tardivo orienta a conversa com alunos e responsáveis e a organização de mutirões para consertar o que for possível: "é típico da adolescência funcionar mais pela ação do que pela palavra. Então, é uma boa ideia substituir o fazer destrutivo por uma ação construtiva".

Lidando com a violência

Motivado pelos muitos casos de violência que vêm ocorrendo no país e, especialmente, no Rio de Janeiro, o Sepe lançará uma cartilha sobre a violência no ambiente escolar e suas consequências durante o seminário Violência nas escolas, no dia 25 de agosto, na UERJ.

Com orientações e propostas para a melhoria da relação entre escola e aluno, esse material surge como um apoio aos profissionais que lidam ou possam vir a lidar com a violência em sala de aula. A seguir estão alguns tópicos abordados na cartilha:

  • Alunos com problemas de aprendizagem: quem não consegue acompanhar o conteúdo trabalhado em sala muitas vezes torna-se um aluno com problemas comportamentais. É preciso que haja profissionais especializados que possam detectar e trabalhar, junto com os alunos, suas dificuldades;
  • Que postura a escola deve ter diante dos problemas de violência;
  • Medidas propostas para casos de agressões físicas;
  • O que fazer diante de momentos de conflito na área da escola.

Em nosso fórum Discutindo há duas discussões sobre o tema. Apresente lá suas opiniões!

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24/08/2010

Publicado em 24 de agosto de 2010