Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Armado e inocente

Alexandre Amorim

Armado e inocente

João tem três anos, vê desenhos na TV, vai ao cinema e gosta de que os pais contem histórias, inventadas ou já escritas em livros. Sua imaginação fabrica questões as mais diversas: “onde mora o lobisomem?”, “por que o peixe não voa?” ou “o cavalo só fala na televisão?”. Sua última pergunta, depois de passar o dia brincando com um amigo da creche, foi para seu pai: “você gosta de arma?”, ao que o pai respondeu que não. Então, ele resolveu desvendar o que se passava em sua cabeça e, com sua dicção ainda insegura, própria da idade, falou de uma vez só que “a mamãe também não gosta. Eu gosto de brincar de arma, a mamãe falou que brincar de arma é chato e ela não gosta”.

Aí, o pai teve que ficar calado por algum tempo, pensando. Ele mesmo havia passado a infância brincando de polícia, de caubói, de super-herói. Brincar de arma não é chato, pelo menos o pai nunca achou, quando era criança. Mas como desdizer a mãe e como dizer ao filho que arma de brinquedo não é a mesma coisa que uma arma de verdade?
O pai tomou João pela mão e foi passear com ele pelo Jardim Botânico. Nos fundos do Jardim, perto do Horto, existe um espaço com caixa de areia, labirinto, escorrega e outros brinquedos. Naquela tarde de sábado, as crianças corriam de um lado para outro, gritavam, caçavam girinos no pequeno chafariz do parque, faziam montes e castelos de terra e lama, praticavam, enfim, o sagrado direito de serem crianças.

E nesse direito está incluída a possibilidade de brigas entre os infantes. João começava a subir as escadas de um escorrega quando um menino da sua idade o ultrapassou sem pedir licença nem olhar para trás. O que não torna esse menino nem mal-educado nem vilão da história, porque, afinal, ainda resta muito tempo para que eles compreendam as regras sociais do convívio. Mas João, naquele momento, não estava para considerações sócio-psico-culturais. Tascou a mão nas costas do menino, que se virou para trás e revidou com uma mordida. Ambos chorando, correm os pais para servir de diplomatas. Cada um com seu filho no colo, tentam entender o que se passou, escutando a história daquelas vozes chorosas, e tentam (tarefa ainda mais difícil) explicar aos filhos que não se pode bater no amiguinho, mesmo que o amiguinho ainda não saiba respeitar o direito alheio.

Lágrimas contidas e enxugadas nas camisas sujas de lama, os meninos saem dos colos paternos, vão para o chão e o pai de João tem a brilhante ideia de sugerir um abraço. Os meninos se olham e, mais rápido do que o super-homem, se xingam de bobo e chato. O pai, envergonhado, se abaixa, ajoelha, abraça João e diz: “que é isso, rapaz? Pra que brigar? Ele é seu amigo”. Ao que João, parecendo resumir em si toda a razão e toda a certeza do mundo, responde: “não é, não. Ele me bateu”. E, olhando para o outro menino, repete: “bobo!”. Mais uma troca de palavras desairosas e os pais riem entre si, sem graça. A solução é óbvia: cada um vai para seu lado, brincar em outro lugar.

Solução óbvia para os pais, é claro. Porque ambos querem brincar no escorrega.

João corre para subir a escada e, depois de subir quatro degraus e verificar que seu lugar está garantido, se volta para o menino e faz uma careta. O menino, então, devolve a careta e, com um gesto universal de dedo polegar em riste e dedo indicador para a frente, finge dar um tiro em João. “Pronto, pai, ele morreu”, diz o menino. Os dois pais, nesse momento, chegam ao ápice de seu impasse. Ou dão uma bronca nos dois ou se arrebentam de rir. João resolve acabar com o silêncio, gritando: “não morri, nada!” e devolve o tiro, com seu revólver-imaginário-digital.

“É isso mesmo! Ele não morreu, cuidado, Tiago! Vamos nos proteger!” O pai do menino Tiago corre para trás do labirinto e finge atirar no pai de João. O pai de João finge ter se ferido, mas grita que não vai se render e que eles vão ver só. Corre para o lado do escorrega e atira com seu dedo, fazendo um barulho meio fino demais para sua voz de adulto. “Bang! Bang! Ptiu!”. As crianças olham, estupefatas. Ma João logo ri e vai ajudar o pai, atirando também contra a outra família.

O duelo dura mais alguns minutos, mas ninguém parece disposto a se entregar ou a fingir que morreu. Os pais traçam estratégias que os filhos não entendem ou não obedecem e João resolve pegar um copo de coca-cola usado para ir pescar girinos com dois outros meninos. Acabou a guerra. Tiago e o pai vão ao banheiro. O pai de João cumprimenta o pai de Tiago e vai se sentar perto do chafariz, respirando mais pesado, com o rosto suado e feliz de saber que uma boa brincadeira pode acabar com ressentimentos.

Antes de deixar João na casa da mãe, o pai compra para ele a arma laser do seu herói predileto. “Você agora gosta de arma, pai?”, João pergunta. O pai lhe dá um abraço, um beijo e responde com outra pergunta: “eu gosto de brincar com você. Você gosta?”. João ri, sacode a cabeça dizendo que sim e corre para casa, para mostrar a arma para a mãe, que reclama um pouco e manda o menino entrar pra tomar banho.

Publicado em 31/08/2010

Publicado em 31 de agosto de 2010