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Ler para quê?

Alexandre Amorim

Desde que a pedagogia passou a se preocupar efetivamente com o aluno (e não apenas com o conteúdo da matéria e com a passagem de conhecimento, sem se importar com a qualidade desse conhecimento), existe uma questão incômoda nas salas de aula: o livro a ser escolhido para leitura.

Incômoda pelos dois lados, do professor e do aluno. Entre a tradição inexorável dos sistemas de ensino e a comum negligência do aluno, o professor se esforça para escolher uma literatura ao mesmo tempo interessante e dentro dos modelos educacionais. Porque o modelo a ser seguido deve levar em consideração duas ideias ao mesmo tempo decadentes e resistentes: o vestibular e a importância dada à chamada “literatura clássica”. O professor, ainda que dotado da maior boa vontade, aos poucos nota que os livros indicados pelo sistema educacional não são exatamente os livros que motivariam seus alunos a seguir lendo e se interessando por literatura. Assim, crianças de doze ou treze anos são chamadas a encarar O Mulato ou O Cortiço, respirar uma dura realidade que está longe da vida deles e enfrentar uma linguagem que os espanta quando apresentada também como português. Todo educador sabe que o universo de um aluno está em expansão e que esse universo precisa ser preenchido.

A cultura não pode ser apenas o que o sujeito alcança, mas também o que constitui a ética e a estética da sociedade em que esse sujeito vive. Por isso, os livros de Aluísio Azevedo, José de Alencar, Lima Barreto, Mário de Andrade, Drummond ou de qualquer autor não precisam ser esquecidos ou evitados, nem devem ser impostos sem levar em consideração o preparo intelectual e afetivo de quem os lê.

A notícia de que um livro deve ser lido até uma determinada data e de que nessa data haverá um teste sobre o livro geralmente cai sobre uma turma como uma bomba de aborrecimento e desinteresse. Ouvem-se os protestos de que nunca se ouviu falar de tal autor (mesmo que seja Shakespeare ou Machado de Assis), ouve-se a temida frase “para que ler isso aí? Eu quero fazer engenharia, isso não vai me ajudar em nada” e, por fim, ouve-se o suspiro baixo do professor, quase desistindo de dar aula e pensando em se tornar bolsista em um projeto de dedicação exclusiva no CNPq. As demonstrações de desinteresse são recheadas de ignorância e de falta de visão da formação humanista em que nossa civilização se baseia desde a Grécia Antiga. Mas não podemos deixar de considerar a visão do aluno, ainda que obliterada por preconceitos. O importante é notar que, nessa visão, existe, sim, uma força importante que desloca o interesse e a vontade de ler para o ostracismo: a completa falta de contextualização do livro na vida do aluno.

Existe uma agenda a ser cumprida pelo professor. O aluno precisa ser informado de que existem movimentos literários (mesmo que esses movimentos tenham se provado mais didáticos do que factuais), precisa pelo menos conhecer algumas páginas de nossa história literária. Como essa agenda é formulada e por que determinados livros são escolhidos nas redes públicas é um mistério para a grande maioria dos mortais, professores incluídos. Como não há tempo ou meios de criticar ou ao menos reclamar do processo, o professor chega à turma com a tarefa árdua de vender o peixe que ele nem ao menos pescou. Daí a se criar uma boa expectativa em relação àquele livro e – principalmente – daí a se tentar conscientizar a turma de que aquele livro é o ideal para ser lido naquele momento vai uma distância enorme, quase tão grande quanto a distância entre o simbolismo de Cruz e Sousa e a conta de Twitter do aluno que vai fazer vestibular para medicina.

Temos, então, uma equação interessante: um professor cansado de seguir tarefas premeditadas por pedagogos a que ele não tem acesso, alunos incultos e com pouca vontade de mudar esse status e um tempo tão pequeno em sala de aula que mal daria para estudar um conto da Carochinha. Matematicamente, é uma inequação, já que suas relações não conseguem chegar a uma equivalência. E se, no começo deste parágrafo, eu classifiquei a equação de interessante, posso compreender perfeitamente quem a considere desanimadora. Talvez a única maneira de resolvê-la seja mesmo tentar buscar o prazer que a literatura pode dar.

Acreditando no prazer lúdico que a arte pode nos trazer, vejo a escolha de um livro a ser estudado em uma sala de aula como algo maior do que apenas sua interpretação gramatical e de conteúdo. Um livro pode ser visto como ferramenta de ensino e compreensão da língua, o que só o valoriza ainda mais. Mas, se vamos usar O Cortiço como leitura obrigatória, por que não contextualizar sua história e a moral envolvida nele? Por que não simular em sala o que sempre repetimos aos alunos, que um livro é resultado de uma experiência de vida e que alimenta a vida de quem o lê? A complexa relação de trabalhadores simples, que convivem entre diferenças entre as paredes de uma casa de cômodos, já é o bastante para criar uma minipeça, uma pequena história a ser dramatizada em sala de aula. Uma dramatização que ajuda bastante o adolescente a entender melhor o livro e a compreender por que aquela história pode ser enriquecedora em sua vida, mesmo que ele vá fazer vestibular para, digamos, Administração. Se o aluno se pergunta sobre a razão de ler, o prazer de compreender e vivenciar dramaticamente uma história já o ajuda a perceber que ler é um propósito em si mesmo. As consequências da leitura (cultura, desenvoltura na língua, boa nota no vestibular etc.) são isso mesmo, meras consequências.

Jogos sobre a leitura, ou mesmo histórias criadas a partir do tema do livro a ser analisado, são maneiras de inserir o leitor em potencial no mundo daquela obra. Se um texto é cheio de mesóclises e palavras que não são usadas desde o século XIX, pode-se criar um dicionário das palavras mortas ou uma brincadeira em que todos esses termos seriam subvertidos, reinventados. A obrigação de ler um texto não significa que esse texto deve ser lido de uma forma ou de outra. Literatura é, antes de tudo, o estudo de uma expressão artística, e como tal deve ser vista com a liberdade que a poesia traz em si.

“Leitura obrigatória” é um termo por si só desanimador. Nada obrigatório soa muito bom. Mas deixar que ela se torne apenas isso, uma leitura obrigatória, é relegar a literatura a uma mediocridade a que ela não merece pertencer. Por isso, é preciso um pouco mais do que apenas dar o título do livro e a data da prova para que os alunos se interessem em expandir seu próprio universo. A arte é inerentemente lúdica, não há por que perder essa característica tão sedutora. A próxima vez que um aluno perguntar “ler isso para quê?”, o professor deve responder com uma aula em que o livro seja o centro das atenções. Porque ler é, sim, assunto central de nossas vidas.

Publicado em 28 de setembro de 2010

Publicado em 28 de setembro de 2010

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