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Palpitante II

Cláudia Dias Sampaio

(Texto e desenhos)

MATILDA, Carta 8 – Das nossas revoluções

No quentinho da nossa cama, recostada na tua almofada, em 24 de junho de 2010.

Gabriel, amado, pra onde a gente vai quando dorme?

Toda vez que aparecia um bicho lá em casa minha mãe fazia um escândalo, corria para fora e chamava logo algum homem a quem incumbia de matar a pobre criatura.

Penso que agora, de onde estiver, ela ainda deve fazer assim.

Por tanto tempo não conheci outra forma de lidar com bichos que vinham voando de repente. E hoje me sinto como um desses bichos, desprotegido, num cômodo onde uma mulher grita pelo susto.

Mas não é da minha natureza ter medo de bicho que voa, e acho que só consigo mesmo gritar para você. Qualquer outra encenação que eu faça me parece desperdício.

E por todo contraste e transparência, no eco das aulas da infância, recolho a posse do meu gesto: na profusão do silêncio recebo o susto do zum-zum da abelha, corro para dentro e abro a janela para que ela ache seu rumo.

Até logo, meu querido.
Beijos saudosos da tua Matilda.

MATILDA, Carta 9 - Gestação

RJ, 27 de junho de 2010

Gabriel,
ganhei de presente um afinador incrível.
Não dou mais detalhes porque é segredo, e sou fiel a eles.

Isto sim, a grande novidade que descobri hoje e corri para te contar:
no fim do que foi e no início do que começa agora,
nosso renascimento.

Não vejo a hora de te encontrar aí na ilha do fogo,
e de novo mergulhar na doce calma dos seus braços.
Com amor, infinito,
M.

MATILDA, Carta 10 - Afinador de língua

RJ, Jardim Botânico, 30 de junho de 2010.

Gabriel,
imagina um lugar em que os sentidos se ampliam, ganhando cores inéditas, e onde é possível encontrar o acorde para a harmonia exata da qual se precisa para expressar o que se quer - assim meu afinador de língua!
Estou feliz com ele, Gabriel.
Sei que v. se encanta com meus acessos de raiva, diz que me fazem bela, mas agora estou fluindo, virando nuvem, como o açúcar naquelas máquinas de fazer algodão doce.
Até breve, Matilda.

MATILDA, Carta 11 - A vida é cheia de mistérios

RJ, Catete, 3 de julho de 2010.

Gabriel, meu amor.
Ainda bem que escrevo para você. Não entendo tantas coisas, mas sinto a liberdade que tenho para te dizer o que me importa e fluo, porque sei que não me julgas uma tola sentimental. Tenho vivido mergulhada no atrito que é esta cidade. Hoje de manhã, em nome da ordem, vi uns pobres coitados de cassetete em punho recolhendo camelôs e moradores de rua, sem distinção do que é humano e do que é mercadoria. É na porrada, Gabriel. Poucos passantes pararam pra ver. São crianças com rosto de velhos, lá de dentro do ônibus da prefeitura alguns gritam de pé, outros restam sentados no silêncio dos olhares perdidos - deserto sem fim.
E de que adianta as palavras, não é mesmo? Elas não enchem barriga.
Não são boas as notícias daqui, me perdoa meu querido. Precisei adiar a viagem. Não por muito tempo, coisa de um mês, o suficiente para que quando eu chegue aí possamos juntos, sem pressa e sem ordens, admirar nossos poentes.
Vou resistir, prometo, porque sei que v. vai cuidar de mim, é isto que me dá coragem: a certeza de que logo estarei descansando no seu colo e recebendo no corpo o calor das tuas mãos. Longos beijos, M.

MATILDA, Carta 12 - E no meio desta barafunda encontrei você

6 de julho de 2010, do Cais do Porto do Rio de Janeiro

...vai ver que com medo não dá para se desenvolver, não é Gabriel?

Agora mesmo vou precisar coragem para dizer de mais esta morte, e ainda continuar a te escrever pela distância da saudade. E não vou mentir pra você, é com um suspiro de cansaço que começo tudo de novo. Claro, é uma bela imagem esta: os renascimentos. É como começar do zero, mas já são tantas as camadas de tinta para cobrir imagens que não me deixaram feliz porque estavam planas demais.

Agora,
depois dessa nova camada,
sinto que tudo é possível.

Me ajuda, meu querido, a fazer um mundo incrível?

Vejo um barco atracando depois de dias de viagem, estavam perdidos, não, não eram eles, só há um homem, cabelos compridos, cor de mel, ao sabor do vento, ele chega, faz o necessário para que seu barco não fique à deriva, de um golpe sobe na plataforma e diz que veio encontrar o pai, trouxe o dinheiro, 30 mil, é um resgate? Não consigo entender exatamente o que acontece, ele nem me olha, passa com suas calças manchadas de óleo, em um andar severo, sigo em minhas tentativas de fazer a tela, procuro não chamar muito a atenção, me interessa mais observar a cena e para isso o quanto menos me virem melhor. Até resolvi que agora quando sair nesses passeios de experimento vou vestir preto. Ele está lá, conversando com outros homens, vejo quando dá um pacote para um dos da roda, e logo aparece um senhor que abraça o jovem de cabelos dourados. Os dois caminham na direção do barco, que está bem perto de mim, conversam e sorriem. O pai me parece uma divindade, mas o filho é um homem e traz algo em sua garganta; como uma herança de quem agora tem a palavra e que estará sempre atravessado por ela.
Daqui, de longe, da tua M.

MATILDA, Carta 13 - Presente azul

RJ, 8 de julho de 2010.
Querido mío,
adorei acordar hoje neste novo lugar e ouvir dos sinos da catedral Cidade maravilhosa, acompanhada pelo coro dos passarinhos que vieram visitar a árvore da nossa janela. Ainda bem que você chegou, a gente bem que estava merecendo esse conforto de dias felizes.
Vou à feira comprar frutas, legumes e verduras e fazer um delicioso almoço para nós.

Te deixo este desenho azul.
Até daqui a pouco, Matilda

MATILDA, Carta 14 – A caminho da Ilha do Fogo

Parque das Ruínas, RJ, 11 de julho de 2010.

Quero os meus versos – verdes
Universo em nova gestação
Células que reproduzem
Nova geração e nova mentalidade
(Alberto Lopes)

Gabriel, querido.

Essencial essa sua temporada por aqui. Não sei o que teria sido do nosso amor se v. não tivesse me dado a surpresa de chegar assim, de repente. Já estava sem forças para continuar. Então foi como regar as plantas no momento limite da terra seca, por um triz: ou desaparece para sempre o verde que ainda há, ou, como por milagre, o úmido dessa intimidade ácida cria condições de flores. Gostei das coisas que você me contou sobre a Ilha do Fogo. Não vejo a hora de lançar âncora nesse lugar de poesia, e da música de Cesária Évora. O que me atrai em Cabo Verde é o ser insular, e o laço a todo um sentimento da língua portuguesa – é como vislumbrar o prêmio da Ilha dos Amores, nosso presente de Camões. Assim, me sinto forte para continuar preparando a viagem, sigo em combate, na tentativa de atingir rostos, atitudes e lugares de intimidade.

PS: Então, os desenhos,
lembra daquela caixa de madeira? Estou colocando nela os originais deles.
Quero desenhar com o cuidado de quem escreve.
E ter o fôlego da liberdade na escolha do traço exato para amplificar o que for preciso.
Com amor, e já cheia de saudades, tua Matilda.

MATILDA, Carta 15 - Frio na barriga

Rio, 23 de julho de 2010.

Amado, aqui estamos: eternos.
Te escrevo deste lugar maravilhoso que é a Ilha do Fogo. E, na pausa dos delírios que trago com os passeios por canções e cores desta cidade, sento no Café Central, agora entendo por que os cafés são os lugares prediletos de tantos poetas.
Este não é o dia mais triste da minha vida, sobre ele não há o que escrever.
O que fica no tumulto desta despedida é minha vontade de ir a lugares aonde a palavra não vai. Cansei de me ocupar com previsões. A vida necessariamente palpita, por isso mal posso ouvir o medo que sinto de seguir, apesar da falta inominável que me chega com a tua morte.
Os coloridos dão algum conforto e alegria, sim, e procuro me ocupar deles para não apodrecer de tédio. Por ora prefiro ficar deste jeito: sentada no balanço com as pernas para o ar, sentindo o roçar das asas das borboletas voando em meu ventre.
Da sempre tua,
Matilda.

Publicado em 28/09/2010

Publicado em 28 de setembro de 2010