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Responsável por um dos três projetos brasileiros finalistas do Prêmio Microsoft Educadores Inovadores 2010 é do Rio de Janeiro: Siddharta Dias

Tatiana Serra

Ele é um sonhador (que faz dos seus sonhos realidade) e aposta na tecnologia como estruturante do pensar ao agir, dando autoria aos alunos e fazendo com que os educadores acompanhem todo o processo de construção do conhecimento. Para o professor Siddharta Dias de Almeida, isso, sim, é inovação!

Licenciado em Matemática e mestre em Educação com ênfase em Tecnologia Educacional, aos 49 anos de idade e 18 de magistério, Siddharta está realizando mais um sonho: o projeto Ecologia em Foco, fruto do trabalho de alunos e professores do Colégio Pedro II do Humaitá (Rio de Janeiro), concorrerá à final mundial do Prêmio Microsoft Educadores Inovadores 2010, a ser realizada na Cidade do Cabo, África do Sul, em outubro. O projeto foi vencedor da etapa brasileira e ficou em 3º lugar na etapa latina. A competição reconhece os educadores que utilizam a tecnologia em sala de aula para aprimorar o processo de ensino e aprendizagem em sua escola. Os outros dois projetos brasileiros participantes são: Escola na Nuvem, da E. E. E. F. M. Prof. Francisco Coelho Ávila Júnior, de Cachoeiro de Itapemirim–ES; e Campo Sustentável, do Centro Estadual Integrado de Educação Rural Vila Pavão, de Vila Pavão – ES.

Acompanhe a entrevista e saiba um pouco mais sobre Siddharta Dias e sobre o projeto Ecologia em Foco.

Revista Educação Pública: Por que você escolheu essa área de atuação? Quais são seus principais objetivos?

Siddharta Dias: Desde garoto já havia escolhido fazer faculdade de Matemática. Na época do vestibular, tinha dúvida se seguiria a habilitação Licenciatura ou Informática. Decidi pela Licenciatura, pois já tinha um curso técnico de Informática. A minha felicidade foi quando me formei e me deparei com o surgimento da Informática Educativa: unia as minhas duas paixões! Hoje continuo um sonhador. Acredito muito na educação e creio que o avanço tecnológico pode atualizar nossa prática pedagógica, pode transformar a escola em um lugar dinâmico onde se aprende com prazer.

Revista Educação Pública: Quando e como surgiu o projeto Ecologia em Foco?

Siddharta Dias: Em 2007, apresentamos à direção do Colégio Pedro II uma proposta de inserir a linguagem audiovisual no processo ensino-aprendizagem. A ideia foi bem aceita e resolvemos iniciar com o 7º ano. Fizemos uma reunião com todo o corpo docente e resolvemos que Ciências e Geografia seriam as disciplinas que lançariam a temática dos filmes e orientariam a pesquisa; Português ficou responsável pelo roteiro; Desenho e Artes, pela confecção do cenário; nós, da Informática Educativa, acompanhamos todo o processo de criação, a produção das fotos e a edição dos vídeos. O resultado pedagógico foi maravilhoso. O processo de criação dos filmes é baseado em uma proposta cooperativa. Um filme só se realiza se cada um faz a sua parte. E quando eles fazem algo que os motiva, o resultado é uma aprendizagem significativa e prazerosa. Para ilustrar, transcrevo dois depoimentos retirados do blog do projeto futurosanimadores.blogspot.com, de alunos que se tornaram animadores.
A pergunta foi: “Aprender fazendo filme é diferente? Por quê?”. Sandra–806 disse: “Sim. Você passa a interagir mais com as pessoas e a matéria. A relação professor-aluno passa a ser melhor. A matéria fica mais divertida. Pois você não vai ficar ali quase dormindo tentando observar e aprender”. Antonio V. Soares-804 disse: “Sim. Pois com um filme é mais divertido e prazeroso o aprendizado. O filme é uma forma inovadora e que foge ao padrão, e esse tipo de coisa que foge da forma tradicional é normalmente bem aceita pela maioria dos alunos”.

Revista Educação Pública: Fale um pouco sobre o que é o projeto e quem são os participantes.

Siddharta Dias: É um projeto interdisciplinar desenvolvido por alunos do 7° ano do Colégio Pedro II, unidade Humaitá. Focado na linguagem audiovisual, o trabalho consiste na criação de filmes de animação sobre Ecologia Urbana, tema desenvolvido nas disciplinas Ciências e Geografia e abordado também em Português, Artes, Desenho e Informática Educativa. Os filmes foram criados em stop motion, técnica de animação na qual o animador trabalha fotografando objetos, quadro a quadro, e a edição é feita no movie maker. Fazer um filme com caráter pedagógico se dá em dois momentos: o da produção e o da exibição. O momento mais rico, em termos pedagógicos, é a criação. No Colégio Pedro II, essa produção envolveu todos os alunos das seis turmas do 7º ano, orientados por quase todos os professores da série, pela coordenação e pela direção, além da colaboração dos inspetores dos andares. Foi um trabalho em que os corpos discente e docente se envolveram. A produção dos filmes aconteceu simultaneamente em diversos locais. Enquanto uma turma criava os cenários na aula de Artes, outra turma estava fotografando ou editando na aula de Informática. Se alguém chegasse nesse momento, se encantaria com o tremendo caos pedagógico em que o colégio se transformou. Caos no sentido de imprevisibilidade do processo. Alunos espalhados em diversas salas, transitando pelos corredores, totalmente envolvidos na produção de seu filme. Cada grupo era responsável por seu trabalho, por sua aprendizagem. A exibição também tem seu cunho pedagógico. Não se resume apenas a uma mostra de trabalho aos pais. É o momento de observar a diversidade de ideias, as diferentes formas pelas quais um tema pode ser enfocado, principalmente quando essa produção envolve a linguagem audiovisual. Esse trabalho foi realizado com o 7º ano, mas poderia ser feito com qualquer série do Ensino Fundamental. É um projeto de fácil execução técnica e operacional, que favorece a participação de toda a comunidade escolar.

Revista Educação Pública: Para os participantes do projeto e para você, pessoalmente, o que significa participar e ser premiado num evento como esse?

Siddharta Dias: A participação em um evento como esse é uma possibilidade de mostrar a nossa prática pedagógica para diversas pessoas que são referência em educação. Na medida em que você expõe, você é questionado, o que se transforma em um momento de reflexões de nossa proposta, de nossa teoria. É um momento também de conhecer outras propostas, outras abordagens da tecnologia na educação. A premiação é o reconhecimento de uma crença educacional, de que podemos fazer da escola um lugar onde se aprende, mas de forma dinâmica, contextualizada e, principalmente, prazerosa.

Revista Educação Pública: Que outros projetos de sua carreira você destacaria?

Siddharta Dias: Outro projeto que gostei muito de fazer foi a criação de rádios online, transformando alunos em comunicadores, em radialistas. Esse projeto foi desenvolvido no Colégio de São Bento, no Colégio Estadual Souza Aguiar e no CIEP Agostinho Neto.

Revista Educação Pública: Como seu interesse e seu engajamento na área de tecnologia têm influenciado seus alunos?

Siddharta Dias: Meu trabalho é possibilitar que as escolas atualizem a sua prática pedagógica. Lidamos com nativos digitais que têm uma forma própria de aprender e de se comunicar. O que tenho feito é pesquisar como fazer uma educação atual que atenda às necessidades dessa geração. Isso tem influenciado os alunos de diversas formas; por exemplo, meus alunos não fazem mais apresentações (em Power Point ou similar); fazem vídeos.

Revista Educação Pública: Você utiliza mecanismos tecnológicos como ferramenta de trabalho em sala de aula? Quais e de que forma?

Siddharta Dias:Como professor de Informática Educativa, prefiro dizer que procuro realizar projetos educacionais que utilizam os recursos tecnológicos ao invés de usar ferramentas em aulas. A diferença está no fazer pedagógico. Ferramentas são apenas suportes, com proposta limitada. Na pedagogia de projeto, a tecnologia não entra como uma atividade; ela é estruturante do pensar ao agir.

Revista Educação Pública: O mercado de tecnologia está só de “burburinhos”, pois Alexandre Dias acaba de sair da direção geral do Google no Brasil para assumir a presidência da rede de ensino Anhanguera Educacional (de São Paulo). Para ele, trata-se de uma chance de trabalhar num mercado que cresce muito no Brasil e deve passar uma revolução nos próximos anos. Ele quer usar sua experiência para mudar a maneira como se trata educação no País. Sobre a relação Educação e Tecnologia, o que você considera inovador para a Educação e como você acha que será o futuro desta relação?

Siddharta Dias: Se fizermos um pouco de memória na História da Educação, veremos que o rádio, a televisão e todos os outros “recursos” não trouxeram novas possibilidades educacionais. O computador traz uma novidade: permite que os alunos assumam uma postura de autoria e que nós, educadores, acompanhemos todo o processo de construção do conhecimento. Isso é inovação. Quanto ao futuro, ninguém consegue pensar o mundo sem celular, sem internet, sem a linguagem digital. Cabe à escola manter-se atualizada em sua proposta e sua prática. E para formar cidadãos para a sociedade atual, essa relação Tecnologia e Educação tem que estar cada vez mais afinada.

Link: Saiba mais sobre o Prêmio Microsoft Educadores Inovadores 2010.

28/09/2010

Publicado em 28 de setembro de 2010