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Timor-Leste: reaprendendo a língua portuguesa com a ajuda do Brasil

Beatriz Fontes e Juliana Carvalho

Reaprendendo a língua portuguesa com a ajuda do Brasil

Hoje, em nossa era democrática, esperamos ter acesso a todo e qualquer tipo de informação, sem restrições de ordem moral ou política. Afinal, já não vivemos mais em uma ditadura, já existe liberdade de imprensa e a globalização promove uma maior integração entre os povos espalhados pelo mundo. Mais ainda: em busca de um fortalecimento cultural e mesmo econômico, os países de língua portuguesa estão se aproximando cada vez mais. Isso tem acontecido de forma constante, talvez o último exemplo seja o recente acordo ortográfico. Entretanto, por muito tempo, não tivemos acesso a informações sobre o Timor, e muitos ainda desconhecem aspectos importantes de sua história.

Desde o século XIII, a ilha de Timor atraiu comerciantes chineses e malaios, devido à abundância de sândalo, mel e cera. A formação do comércio local esteve na origem de casamentos com famílias reais locais, contribuindo para a diversidade étnico-cultural.

Os portugueses foram atraídos pelos recursos naturais em 1512, levando para lá os missionários e a religião católica, que atualmente é predominante. Com a chegada do primeiro governador, vindo de Portugal no início do século XVIII, deu-se início à organização colonial do território, criando-se o Timor Português. Em 1914, a Sentença Arbitral assinada entre Portugal e Holanda pôs termo aos conflitos entre os dois países, fixando as fronteiras que hoje dividem a ilha.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os Aliados (australianos e holandeses) envolveram-se numa dura guerra contra as forças japonesas em Timor. Milhares de timorenses deram a vida lutando ao lado dos aliados. Em 1945, a administração portuguesa foi restaurada no Timor Português.

Em 28 de novembro de 1975, após uma breve guerra civil, a República Democrática de Timor-Leste foi proclamada. Apenas uns dias depois, em 7 de dezembro de 1975, a nova nação foi invadida pela Indonésia, que a ocupou durante os 24 anos seguintes. Aqui no Brasil, só viemos a saber alguma coisa sobre o Timor por volta de 1996. Foi nesse ano que o país conseguiu chamar a atenção do resto do mundo, revoltando-se de forma quase suicida contra a opressão. Um terço da população morreu em combate, nesses 24 anos de ocupação indonésia. A língua portuguesa foi praticamente desaprendida (era proibida de ser falada e estudada, sob pena de morte). O país foi praticamente destruído. E só há pouco tempo a independência foi (re)conquistada.

Em 30 de agosto de 1999, os timorenses votaram por esmagadora maioria pela independência, pondo fim à ocupação, na sequência de um referendo promovido pelas Nações Unidas. Em 20 de maio de 2002, a independência de Timor-Leste foi restaurada e as Nações Unidas entregaram o poder ao primeiro governo constitucional do país.

Os primeiros contatos que tivemos com o problema timorense deram-se graças à internet, com correntes de e-mail falando a respeito do massacre. Ainda assim, as notícias pareciam tão absurdas que muitas pessoas acreditavam ser apenas mais um boato. Nos jornais, nas revistas, pouco apareceu. Mesmo após a independência.

O curioso a respeito disso tudo é que o Timor optou por ser um país lusófono, mesmo não falando português há mais de 20 anos. Nesse sentido, o Brasil tem sido grande incentivador, enviando professores de português para lá. Nossas novelas são apresentadas e a música brasileira é bastante tocada nas rádios do Timor. Graças a isso, é o nosso português que está sendo ensinado às crianças timorenses – mais que o de Portugal. Mesmo porque, caso isso ocorresse, seria como voltar de novo ao status de colônia. Foi necessário marcar linguisticamente a diferença.

A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do Ministério da Educação, é a agência brasileira responsável pela Cooperação Internacional Brasileira em Timor-Leste na área de educação, e mantém lá, alternadamente, 50 professores brasileiros desde 2005, divididos em quatro projetos: Procapes, Pós-graduação, Profepi e Elpi. A atuação é na Universidade Nacional de Timor Lorosae e no Instituto Nacional de Formação Profissional e Contínua, na elaboração de livros didáticos em língua portuguesa, além de projetos financiados através da Embaixada do Brasil, na cidade de Dili, a capital. A atuação no interior do país ocorreu desde o final de julho até meados de setembro de 2008, nos distritos de Ainaro, Baucau e Maliana, com o Curso de Capacitação de Professores de Matemática e Ciências Naturais, para que os professores timorenses pudessem ministrar aulas em língua portuguesa em substituição ao bahasa indonésio e à língua mãe, o tétum, seguindo o que propõe a constituição do Timor-Leste.

Para a última etapa do acordo Brasil/Timor-Leste, que se iniciou no segundo semestre de 2009, foram reduzidos os números de vagas em alguns projetos, como o Procapes, havendo acréscimo em outros, como na Pós-graduação e no Elpi. Mas o total de professores continua inalterado.

Uma das grandes dificuldades desse trabalho, que tem o objetivo principal de reintroduzir a língua portuguesa no Timor-Leste, praticamente excluída durante a invasão indonésia, está no fato de que a grande maioria dos habitantes jovens desse país desconhece o português. Quando os professores chegaram ao Timor, a opinião de todos era de que não haveria nenhum tipo de dificuldade de comunicação, pois estavam chegando a um país lusófono, mas logo ao buscar um hotel descobriram que precisavam se expressar em inglês ou até mesmo usar mímicas, ou não conseguiriam se comunicar com os funcionários do estabelecimento. Esse fato se agravou à medida que foram descobrindo que, apesar de o país ter no tétum e no português suas línguas oficiais, o inglês e o bahasa indonésio eram muito mais presentes do que a língua portuguesa. Nos bancos, as línguas são o inglês e o bahasa, e isso se repetia nos comércios em geral, inclusive nos clubes noturnos.

Vieram então os subprojetos, financiados pela Embaixada do Brasil, a fim de ajudar na divulgação da língua portuguesa. Entre os projetos de melhor retorno estão os corais infantis, os grupos de teatro, as oficinas e um programa na rádio da Universidade Nacional Timor Lorosae. Sobre a Rádio Brasil, como se denominou o programa, a programação tenta abranger os diversos ritmos musicais do Brasil: samba, forró, MPB, rock, axé e outros. São apresentadas também diversas vinhetas com informativos de utilidade pública em língua portuguesa e explicações sobre a vida e a obra de alguns intérpretes brasileiros. Como a radiocomunicação é um veículo de massa, esse tipo de mídia funciona como um divulgador da língua portuguesa e da cultura brasileira para diversos ouvintes no dia a dia em Timor Leste e também pelo mundo, via internet.

Obviamente, um país obrigado a falar outra língua que não a sua por mais de 20 anos, ainda que procure abandonar essa língua completamente, provavelmente continuará a se utilizar de palavras e expressões típicas dela. Essas palavras têm chance de, aos poucos, ser incorporadas ao Português do Timor, mas podem ser abandonadas. Desse modo, a língua timorense tende a conquistar um acento próprio, criando suas peculiaridades. Acrescente-se ainda o fato de que os poucos timorenses que ainda falam o Português fazem-no com o sotaque bem próximo ao de Portugal. Dessa salada certamente sairá uma nova língua.

Duas fontes existentes no Brasil a respeito da história do Timor são o documentário Timor Lorosae – o massacre que o mundo não viu, dirigido por Lucélia Santos, a que vale a pena assistir, e o livro Queimado Queimado, mas agora nosso! Timor: das cinzas a liberdade, em que a jornalista Rosely Forganes conta sua experiência in loco na reconstrução do país.

28/09/2010

Publicado em 28 de setembro de 2010