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A farmácia do doutor Hofmann

Pablo Capistrano

No dia 16 de abril de 1943, o doutor Albert Hofmann foi “acidentalmente” contaminado por algumas substâncias químicas com as quais estava trabalhando. “Fui tomado por uma inquietude notável, combinada a uma prazerosa sensação de leveza”. Três dias depois, ele resolveu experimentar em si mesmo 250 microgramas da sustância e relatou após a experiência que “um demônio havia me possuído. Ele possuiu meu corpo, mente e alma. Pulei e gritei tentando me livrar, mas então me afundei no sofá, sem ter o que fazer”. Essa data ficou conhecida como “Dia da Bicicleta”, porque depois que os efeitos da droga se dispersaram ele voltou para casa pedalando.

Hoffman lamentou-se até o dia de sua morte que sua descoberta (à base de duas substâncias psicoativas – psilocibina e psilocina) tenha se transformado em uma febre nos anos 1960 e usada largamente para fins recreativos. Esse uso descontrolado acabou servindo para proibir a droga e dificultar pesquisas cientificas com o LSD. Hofmann acreditava que a substância poderia fornecer chaves para um uso psicoterapêutico que ajudasse a combater o alcoolismo, certas disfunções sexuais e até doenças mais graves, como a esquizofrenia. O curioso é que quase sempre a discussão sobre o uso medicinal de certas drogas psicotrópicas esbarra em um erro fatal de categoria.

Poucas horas antes da partida do Brasil contra Portugal na Copa do Mundo eu entrei em uma farmácia para comprar cerveja. Alguns amigos haviam combinado de assistir ao jogo lá em casa e eu havia me comprometido em oferecer alguma coisa para tornar o jogo mais animado (aquele jogo em particular necessitaria muito de qualquer outra coisa para se tornar suportável). A moça do balcão me avisou que as farmácias estavam proibidas de vender cerveja. “Mas aqui não é uma drogaria?”, eu perguntei. A moça sorriu e disse “pois é...”

Os antigos gregos usavam uma única palavra para descrever a cerveja do bar e a aspirina que a gente compra na farmácia. Um pharmakon pode ser um remédio que cura alguma doença, uma poção mágica que torna a vida mais bela, uma droga que alucina e enlouquece ou um veneno que mata e intoxica. Nós, modernos, perdemos essa compreensão do uso das substâncias químicas do mundo natural. Separamos drogas lícitas e ilícitas como se seus efeitos fossem absolutamente diferentes só porque estão em uma lista de substâncias proibidas. Pensamos que tudo aquilo que se vende em uma farmácia é remédio e que o remédio não pode virar veneno quando a gente muda a sua dosagem.

Esse erro de categoria atrapalha a discussão sobre o uso medicinal da maconha (que não pode ser confundido com o uso recreativo). Na Canabis sativa existem cerca de 60 fitocanabinoides, além do famoso THC. Isso indica que, ao fumar maconha, um sujeito não está consumindo isoladamente o THC. Existem pesquisas hoje que buscam o uso de outros fitocanabinoides, como o canabidiol, para inibir certos efeitos colaterais indesejáveis no THC, como a predisposição para o desenvolvimento de surtos psicóticos (um dos maiores problemas no uso recreativo da droga). Imaginar uma intervenção tecnológica na Canabis sativa que minore o risco de surto psicótico com seu uso e que potencialize os benefícios medicinais não é um esforço de ficção cientifica; é uma realidade que pode estar muito próxima.

Não existe uma fronteira ontológica definida entre o remédio e o veneno. Aquilo que cura pode matar; aquilo que encanta pode também alucinar. Nossa linguagem costuma criar muitas mitologias. É preciso reconhecer como o uso de certos termos pode construir conceitos sobre o mundo. Deus, ou o acaso (fica a seu gosto), presenteou o homem com uma imensa farmácia natural usada há milênios para fins religiosos, terapêuticos ou meramente recreativos. Do chá de camomila ao peiote, o homem mexe com essa farmácia, às vezes encontrando cura e consolo, às vezes loucura e morte. Isso não vai mudar tão cedo.

Enquanto tratarmos a questão do uso de drogas (lícitas e ilícitas) como uma questão meramente penal ou moral, vamos apenas reforçar nossas mitologias e ajudar a construir mais violência, morte e loucura.

Publicado em 3 de novembro de 2011

Publicado em 03 de novembro de 2010