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Como a leitura exercita várias áreas cerebrais

Luzia de Maria Rodrigues Reis

A invenção da escrita

Mas, acima de todas as estupendas invenções, que eminência de mente foi aquela de quem imaginou encontrar um modo de comunicar os seus mais recônditos pensamentos à pessoa que se queira, ainda que distanciada por um longuíssimo intervalo de espaço e de tempo? Falar com aqueles que se encontram nas Índias, falar com quem ainda não nasceu nem terá nascido daqui a mil ou dez mil anos? E com que facilidade! Com as junções variadas de vinte caracterezinhos sobre o papel.

É assim que Galileu Galilei, em seu livro Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo, se refere à escrita. Quantas vezes nós, circulando entre textos, páginas impressas ou virtuais, em um arroubo de entusiasmo diante da fabulosa invenção da escrita, também não tivemos curiosidade acerca daquele sujeito genial que a teria criado?

E, assim como Galileu, sem investigar a história e os passos dessa invenção, nos perguntamos: que ser extraordinariamente criativo teria vislumbrado tão grande obra? Quem teria sido capaz de associar vinte e poucos sons, os fonemas (que em sua referência Galileu sintetizou em vinte), aos sinais gráficos que conhecemos com o nome de letras, e conseguiu representar, através deles, as palavras, os conceitos, as ideias, as informações? Tanto a indagação de Galileu como a nossa são atitudes usuais e inocentes, que buscam romanticamente um gênio isolado, um personagem singular e superior, alguém capaz de proezas inimagináveis, por trás das grandes invenções ou descobertas. Mas a história nos mostra que a realidade não é bem assim: muitas das invenções mais surpreendentes da humanidade – e entre elas a criação da escrita – não nasceram do prodígio de um ser único, mas, pelo contrário, são fruto de progressivos avanços. Tiveram, muitas vezes, a colaboração de toda uma coletividade, às vezes de um povo inteiro, até mesmo de muitos povos, em processos longos que atravessaram muitos séculos.

Nos dias atuais, nosso cérebro se reconfigura permanentemente para adaptar-se às novas tecnologias, aos novos programas e recursos de nosso computador, aos últimos avanços do celular, da tevê e do GPS. Assim também as diferentes formas de escrita – que vão desde os primeiros sinais gravados em placas de argila até a escrita alfabética – provocaram diferentes adaptações nas estruturas originais do cérebro e mudaram nossa maneira de pensar. Essas são as conclusões da neurocientista norte-americana Maryanne Wolf no livro Cómo aprendemos a leer – Historia y ciência del cérebro y la lectura. Em sua opinião, "cada novo sistema de escrita contribuiu com algo especial ao desenvolvimento intelectual de nossa espécie".

Em sua origem, o princípio alfabético implica a profunda compreensão de que cada palavra da linguagem falada está formada por um conjunto de sons que se podem representar por um grupo finito de letras. Este princípio aparentemente ingênuo, quando surgiu e com o tempo, constituiu uma verdadeira revolução, porque permitiu que cada palavra falada de qualquer idioma fosse traduzida à escrita.

Maryanne Wolf

Acompanhando a história, constatamos que, em todos os sistemas conhecidos, a escrita passou por uma série de adaptações: primeiro, uma nova forma de "representação simbólica", mais precisa que as tentativas anteriores, levou o homem a perceber que umas simples linhas desenhadas sobre argila, pedras ou conchas podiam representar algo concreto como uma ovelha ou abstrato como um número. Um segundo grande avanço aconteceu quando o homem se deu conta de que, usando um sistema de símbolos, seria possível se comunicar através do tempo e do espaço, registrar os pensamentos de um indivíduo ou a memória e a cultura de um povo. A terceira grande conquista e, de todas, a mais abstrata, do ponto de vista linguístico, aconteceu quando o homem foi capaz de perceber a "correspondência som-símbolo": o reconhecimento de que cada palavra é formada por minúsculas unidades de som (os fonemas) e que os símbolos (as letras) podem representar cada um deles. Assim o homem chegou ao princípio alfabético, que está na origem do alfabeto que conhecemos e usamos.

Como você pode ver, a invenção da escrita não aconteceu da noite pro dia, como se diz; trata-se de um processo cuja duração se estendeu por alguns milênios, teve a contribuição de muitos povos até chegar a se concretizar, exigiu adaptações do cérebro para se tornar possível e, ao mesmo tempo, modificou a própria organização do nosso cérebro, ampliando nossa capacidade de pensar e promovendo a evolução intelectual da espécie. A invenção da escrita só se concretizou graças à enorme plasticidade do cérebro humano, capaz de estabelecer novas conexões entre estruturas preexistentes e de modelar-se conforme a experiência.

Essa plasticidade natural do cérebro constitui a base de quase tudo que somos, e é nossa garantia do que podemos chegar a ser. Em relação a ela, Maryanne Wolf categoricamente afirma:

Pode-se aprender a ler graças somente à plasticidade do cérebro e, lendo, o cérebro muda para sempre, tanto psicológica como intelectualmente. Por exemplo, no plano neuronal, uma pessoa que aprende a ler em chinês utiliza um conjunto muito concreto de conexões neuronais que diferem em aspectos significativos dos caminhos utilizados em inglês. (...) Da mesma forma, grande parte da nossa maneira de pensar e daquilo no que pensamos se baseia nas conclusões e associações geradas a partir do que lemos.

Como disse o escritor Joseph Epstein: "A biografia de qualquer literato deveria ocupar-se extensamente do que ele leu e quando, porque, em certo sentido, somos o que lemos."

Por conseguinte, quando se enfrentou a tarefa de inventar funções como ler, escrever e calcular, nosso cérebro teve à sua disposição três engenhosos princípios de desenho:

  • a capacidade para estabelecer novas conexões entre estruturas preexistentes;
  • a capacidade de criar áreas especializadas, extraordinariamente precisas, de reconhecimento de padrões de informação;
  • a habilidade para aprender a reconhecer e a relacionar a informação precedente dessas áreas, de maneira automática.

De certo modo, esses três princípios da organização cerebral são cimentos da evolução...

(Wolf, 2008, tradução livre para o português)

Das placas de argila à internet

Chegou recentemente às livrarias do Brasil A questão dos livros – passado, presente e futuro, de Robert Darnton, diretor da Biblioteca da Universidade de Harvard. Nele, o autor discute o futuro do livro, das bibliotecas e questiona especialmente se a revolução digital, que hoje reconfigura a paisagem cultural de forma tão avassaladora, vai representar trocas culturais e informativas mais transparentes e democráticas ou não. A grande preocupação é se o projeto Google Book Search, que nos últimos quatro anos vem digitalizando milhões de livros das principais bibliotecas norte-americanas e disponibilizando os textos na internet, significa realmente a possibilidade de tornar acessível a todos nossa herança cultural. Ou o que estamos presenciando nada mais é que a criação de um fabuloso monopólio? Lembra os filósofos do século XVIII, que viam o monopólio como um dos principais obstáculos à difusão do conhecimento, e reconhece que bibliotecas representam o poder público e têm como objetivo tornar seus acervos disponíveis a todos, enquanto empresas se norteiam pela busca de lucro para seus acionistas. Por isso Robert Darnton conclui de forma cautelosa: "Sim, é preciso digitalizar. Mas democratizar é ainda mais importante. Precisamos garantir livre acesso à nossa herança cultural".

E para traçar um convincente panorama da construção dessa fabulosa herança pela humanidade, Robert Darnton volta o olhar ao passado e busca os alicerces da história: desde que o homem aprendeu a trocar conhecimentos e descobertas através da fala, quatro grandes mudanças ocorreram na tecnologia da informação. Por volta de 4000 a.C., segundo ele, desenhando símbolos gráficos em argila, os humanos deram início à escrita: os hieróglifos egípcios são de aproximadamente 3200 a.C. e mais alguns séculos se passaram até a escrita alfabética, que surgiu por volta do ano 1000 a.C., concluindo a invenção da escrita, considerada por pesquisadores como Jack Goody o avanço tecnológico mais importante da história da humanidade. A escrita criou uma nova relação do homem com o passado, e com ela o caminho foi aberto para o surgimento do livro.

Quadro com alfabeto

Por volta do século III, os rolos de pergaminho deram lugar ao códice: páginas separadas e agrupadas numa lombada. A experiência de leitura vai sendo transformada, com o manuseio de um objeto – o livro – agora com páginas distintas, um texto claramente articulado, com palavras diferenciadas, ou seja, palavras separadas por espaços, a inclusão de parágrafos, capítulos, sumários, índices e outros elementos facilitadores da compreensão.

Na década de 1450, a invenção dos tipos móveis, por Gutenberg, produziu um terceiro e fantástico avanço nas trocas de informação e conhecimento. Robert Darnton lembra que antes, por volta de 1045, os chineses já tinham desenvolvido tipos móveis e os coreanos já utilizavam caracteres metálicos por volta de 1230, mas foi a invenção de Gutenberg que se propagou de forma avassaladora, colocando o livro ao alcance de um número extraordinário de pessoas. Por quase quatro séculos, a tecnologia da impressão não sofreu grandes mudanças, mas melhorias na educação, maior acesso à alfabetização, assim como a impressão de panfletos e jornais, ampliaram de tal forma o processo de democratização que, na segunda metade do século XIX, a leitura se popularizou e se tornou acessível às massas.


No século XX, imagem da popularização da leitura, que teve início no século XIX.

A quarta mudança, como nas palavras brincalhonas de Robert Darnton, "aconteceu ontem – ou anteontem, dependendo de seus parâmetros". A internet, com esse nome, surgiu em 1974. A web existe desde 1991, como ferramenta de comunicação entre físicos. Websites e mecanismos de busca têm sua existência e se tornara comuns na metade dos anos 1990.

As conclusões de Robert Darnton me parecem bastante apropriadas para instigar uma reflexão sobre o atual estágio da humanidade em relação não apenas às atuais trocas de informação mas também em relação à apropriação – por todos nós – da herança comum produzida pela humanidade durante milênios. E o que significa, para todos nós, a inserção na era digital. Sintetizando, convido você a refletir acerca das palavras do pesquisador, aqui reproduzidas: "Disposta dessa forma, a velocidade das mudanças é de tirar o fôlego: da escrita ao códice foram 4.300 anos; do códice aos tipos móveis, 1150 anos; dos tipos móveis à internet, 524 anos; da internet aos buscadores, dezessete anos; dos buscadores ao algoritmo de relevância do Google, sete anos; e quem pode imaginar o que está por vir no futuro próximo?" Estes dados mostram muito claramente a rapidez das mudanças. Robert Darnton indaga: "quem pode imaginar o que está por vir no futuro próximo?" E mais: que novos desafios serão colocados para o nosso cérebro, nos próximos anos, e como estar preparado para eles?

Livros impressos ou páginas virtuais?

Essa pergunta do título reflete questões que hoje estão presentes de forma recorrente no horizonte da cultura ocidental. A realidade de um mundo digital é inquestionável e pode ser apreciada a todo instante: nos celulares que se tornam indispensáveis; nas mensagens digitais instantâneas; nas imagens facilmente registradas em câmeras fotográficas, filmadoras e celulares, postas em circulação; nas redes de relacionamentos virtuais, cada vez mais populares; nos sites de busca, que nos dão a ilusão de que todo e qualquer conhecimento está acessível às pontas de nossos dedos, como extensão de nossas memórias. Há apenas alguns anos, você não imaginaria fazer um curso a distância, interagindo somente através da internet.

Mas, apesar de tudo isso, Robert Darnton, para nos falar da força de permanência do texto impresso, cita as palavras – imagina de quem! – do papa da Microsoft, Bill Gates:

Ler na tela ainda é uma experiência vastamente inferior à leitura em papel. Mesmo eu, que tenho telas caríssimas e gosto de me considerar um pioneiro do estilo de vida web, prefiro imprimir qualquer coisa que ultrapasse quatro ou cinco páginas. Assim posso carregar o texto comigo e fazer anotações. E a tecnologia ainda precisa avançar bastante para se igualar a esse nível de usabilidade.

Considero indispensável lembrar que a escrita – aquela extraordinária invenção que levou alguns milênios até chegar à forma que conhecemos – está na base de toda essa comunicação. Como afirma Umberto Eco, em Não contem com o fim do livro, escrito em parceria com Jean-Claude Carrière e publicado pela Record, "com a Internet, voltamos à era alfabética. Se um dia acreditamos ter entrado na civilização das imagens, eis que o computador nos reintroduz na galáxia de Gutenberg, e doravante todo mundo vê-se obrigado a ler". Mais adiante ele lembra que a escrita pode ser considerada "como o prolongamento da mão e, nesse sentido, ela é quase biológica. Ela é a tecnologia da comunicação imediatamente ligada ao corpo. Quando você inventa uma coisa dessas, não pode mais dar para trás. Repito, é como ter inventado a roda". No que é plenamente apoiado por Jean-Claude: "Você tem razão em apontar isso: nunca tivemos tanta necessidade de ler e escrever quanto em nossos dias. Não podemos utilizar um computador se não soubermos escrever e ler. E, inclusive, de uma maneira mais complexa do que antigamente, pois integramos novos signos, novas chaves. Nosso alfabeto expandiu-se."

Robert Darnton assevera que a profecia de Marshall Mc Luhan, em 1962, segundo a qual a era eletrônica levaria à extinção a palavra escrita, não se concretizou e, embora possa ter inflamado a imaginação de muitos durante o século XX, parece agora destinada ao esquecimento. Mais do que nunca imperam algumas certezas: "bibliotecas nunca foram depósitos de livros. Sempre foram e sempre serão centros do saber". Vemos que, ainda que as novas tecnologias estejam presentes nas empresas, nas escolas e em boa parte das residências em muitos países, inclusive no nosso, o mercado de leitura ainda é dominado pelo livro impresso em papel. E, apesar dos progressos da internet, ele está em contínuo crescimento. Segundo o Bowker’s Global Books in Print, 700 mil novos títulos foram publicados no mundo todo em 1998; em 2003 foram 859 mil; em 2007, foram 976 mil. Apesar da atual crise econômica, em pouco tempo 1 milhão de novos títulos serão publicados a cada ano". A cada visita nossa às livrarias, vemos isso na avalanche de novos títulos!

Eis a imagem de um incunábulo: livro impresso nos primeiros anos da imprensa, antes de 1500. A origem da palavra está no latim incunabula, que significa berço. A Bíblia de Gutenberg, considerada o primeiro livro impresso no Ocidente, é de 1456. Os chamados "livros de horas" eram livros religiosos, delicados, com primorosas ilustrações e estão hoje entre os mais valiosos.


Praticamente ao mesmo tempo, entre abril e maio de 2010, chegaram às livrarias do país, publicados por diferentes e respeitáveis editoras, esses dois livros – o de Robert Darnton e o de Umberto Eco / Jean-Claude Carrière – ambos fazendo uma defesa apaixonada do objeto livro. Ambos nos lembrando, também, sua enorme superioridade em termos de permanência e durabilidade. Robert Darnton afirma: "bits se degradam com o passar do tempo. Documentos podem se perder no ciberespaço por conta da obsolescência da mídia em que estão registrados. (...) Nada é mais eficaz para preservar textos do que tinta engastada em papel, exceto no caso de textos escritos em pergaminho ou gravados em pedra. O melhor sistema de preservação que já se inventou é o antiquado livro pré-moderno. Jean-Claude Carrière, escritor, dramaturgo, roteirista e, assim como Umberto Eco, confessadamente apaixonado por livros, na longa conversa em que passeiam por 5 mil anos de história da escrita, em dado momento diz a Umberto:

Desencavei para você na minha biblioteca este livrinho impresso em latim no fim do século XV, em Paris. Veja. Se abrirmos este incunábulo, podemos ler, na última página, impresso em francês: (A edição brasileira apresenta o texto em francês e a tradução, que transcrevo) "Estas presentes horas para uso de Roma foram concluídas no vigésimo sétimo dia de setembro do ano mil quatrocentos e noventa e oito por Jean Poitevin, livreiro, instalado em Paris na rua Neuve-Notre-Dame".

Em seguida, temos a conclusão de Jean-Claude, lembrando – tal como Robert Darnton – a rapidez com que as novas mídias se tornam obsoletas: "Portanto, ainda somos capazes de ler um texto impresso há cinco séculos. Mas somos incapazes de ler, não podemos mais ver, um cassete eletrônico ou um CD-ROM com apenas poucos anos de idade." A menos que guardemos nossos velhos computadores em nossos porões. Pouco antes ele havia contado que um amigo, cineasta belga, guarda no porão de sua casa 18 computadores, simplesmente para acessar e consultar trabalhos antigos.

Design dos computadores ao longo do tempo
No quadro acima, podemos ver – no design dos computadores – uma representação de sua rápida evolução.

Referência

WOLF, Maryanne. Cómo aprendemos a leer – Historia y ciência del cérebro y la lectura. Traducción de Martín Rodríguez-Courel. Barcelona: Ediciones B, 2008. (tradução livre para o português).

Publicado em 3 de novembro de 2010

Publicado em 03 de novembro de 2010