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O que os pais pensam sobre as reuniões escolares coletivas entre eles e os professores?

Mariana Cruz

Sabe-se da grande influência que a vida escolar tem no desenvolvimento de nossos filhos: é lá que eles irão conviver com seus pares, se tornarão cada vez mais autônomos e formarão aspectos significativos de sua personalidade. A cada fase na vida da criança o papel da escola parece mudar, mas sua importância continua a mesma. Um dos meios mais utilizados para promover uma aproximação entre os pais e a escola são as reuniões coletivas entre esses e os professores. Para entender um pouco mais sobre a relevância de tais encontros, entrevistei cinco pais de alunos (quatro mães e um pai) com filhos de diferentes idades, de diferentes escolas e de diferentes criações.

A pergunta inicial foi sobre a importância de tais reuniões entre pais e professores para o desenvolvimento de seus filhos. As respostas foram diversas.

Melissa Ferraz, mãe de Rosa Marina, de 11 anos, conta que sua filha mudou de escola recentemente e tal atitude foi despertada justamente pelo que pôde constatar no decorrer de algumas reuniões entre pais e professores: “comecei a perceber e a evidenciar que o discurso da antiga escola estava muito aquém da prática. As reuniões eram pautadas por uma máscara em que a escola mostrava-se muito atenta, muito aberta a novas propostas, a participações de pais, mas na realidade era um discurso vazio, que não transformava nada. Uma repetição de modelos e métodos. Com ajuda de outros pais e conversando com minha filha, pude definir a necessidade de uma nova escola. Na escola atual, já pude notar reflexos de uma boa relação entre a direção, professores, pais e alunos. Durante as reuniões o que se fala e questiona é ponto de transformação. Existem espaços de discussão em rede de e-mails, os assuntos se desenvolvem, os pais se relacionam melhor e as crianças mergulham nos projetos com entusiasmo”. Sobre tais reuniões, Melissa diz que “independente de uma criança ou de outra, se ela vai bem ou mal, está se falando da "alma" da escola, das relações e das trocas em que se efetiva todo um processo educacional. Acho, portanto, um espaço de apropriação por parte dos pais, pois nem sempre o que chega pelo olhar da criança é uma fotografia. Já que cada indivíduo, com suas particularidades, vai aprender de uma maneira, cabe saber como a escola lida com essas individualidades e como as trabalha. Além de ser o espaço para trocas, insights, críticas, construção coletiva”.

Alan Alencar, pai de Agatha, de 12 anos, considera as reuniões de “extrema importância”, pelo fato de possibilitarem saber o comportamento dos filhos fora do ambiente de casa e da família.

Adriana Lazaroni, mãe de Giovanna, de 6 anos, e de João Paulo, de 2, diz que ”através delas recebemos as mais variadas informações para que possamos tomar decisões! Contribuem para a formação do triângulo escola-pais-filhos! Ficamos mais perto de todos!”.

Renata Firpo, mãe de Mariana Fernanda, de 8 anos, e João Pedro, de 5, dá seu ponto de vista sobre a função efetiva das reuniões coletivas de pais: “de modo geral servem para apresentar o projeto a ser desenvolvido ou as atividades que já aconteceram no colégio. A importância no desenvolvimento é pouca, pois não trata de casos individuais. Por outro lado, possibilita aos pais um acompanhamento maior da vida escolar das crianças, realizando tarefas extras e complementares em casa, pois nem sempre o aluno relata em casa o que se passa na escola. Nesse ponto, a reunião ajuda no desenvolver da criança, na medida em que pode aumentar o interesse dela nos projetos educacionais, diante do apoio e incentivo dos pais”.

Para Janete Krueger, mãe de Ana Clara, de 7 anos, e de Bernardo, de 4, tais reuniões mostram um lado diferente dos filhos que nem sempre é captado pelos pais, na medida em que estes “veem seus filhos através de seus ‘óculos’, sua experiência dentro de casa... E é nessa oportunidade que temos contato com outro aspecto da criança. Temos um retorno de como é a criança como ‘individuo social’. É a chance de vermos sem os nossos ‘óculos’ do dia a dia. Já me deparei com características desconhecidas por mim e que me ajudaram a alterar o meu comportamento. Por exemplo: meu filho mais novo tem atitudes com a irmã que não são manifestadas com os amigos, e o mesmo acontece com a irmã. Esse retorno me norteia quanto a repreender ou estimular determinadas atitudes. Dá uma visão que não tenho dentro de casa e que, mesmo que a criança manifeste na nossa frente em ambientes externos, não percebemos por já termos nosso conceito formado pela experiência dentro de casa. (...) Foi numa dessas reuniões que pude perceber certas dificuldades de meus filhos. Coisas que não via porque simplesmente mãe entende tudo que o filho diz antes mesmo dele terminar a frase. Mãe antecipa. Com a minha filha, eu nunca havia percebido que ela trocava alguns fonemas – por ser uma troca discreta, não acontecer sempre e eu antecipar o que ela está dizendo –; deixei de perceber uma coisa que no momento da escrita se manifestou”.

Em relação à dinâmica de tais reuniões, foi perguntado como é ouvir o relato de outros pais nessas ocasiões.

Para Alan, a reunião é um espaço que se tem para falar e ouvir sobre sua filha e comparar as relações alheias: “os pais, por mais que possam parecer experientes – com mais de um filho, digo –, sempre têm uma novidade a cada dia, sinais dos tempos que mudam com tanta rapidez”.

De acordo com Melissa, “muitas vezes tais reuniões viram terapia de grupo e, em outros casos, quando  existem pais demasiadamente carentes, que só sabem falar do próprio umbigo, a coisa fica complexa e desgastante”. Apesar de tais pontos negativos, ela diz acreditar muito “na possibilidade de transformação pela troca entre as pessoas; e, de fato, muitas vezes o seu problema se torna diminuto diante de outros problemas tão graves, tão mais complexos. É uma oportunidade de ajuda também para todos”.

Renata toca em um ponto pouco discutido: “às vezes os relatos não correspondem à realidade dos fatos. Muitos pais não dividem experiências negativas e podem dar a impressão pessoal de que nada de errado acontece ou já aconteceu. Por outro lado, às vezes há uma mesma reclamação comum a vários pais, mas nem sempre são repassadas à professora, ficando apenas como papo de corredor”.

Adriana diz não saber se em todas as escolas é como na de sua filha, mas pelo que presencia “os assuntos tratados nas reuniões de pais são sempre: método de ensino; planejamento; como a escola está trabalhando; o que se espera dos alunos; como nós, pais, devemos contribuir para que o objetivo seja alcançado; o que e como a criança deve alcançar; e por aí vai. Tratamos do todo! Depois, de acordo com a necessidade de cada um, existe a possibilidade de solicitar uma reunião sobre o seu filho ou até mesmo a escola chamar para tratar especificamente do seu filho. Por isso, acredito piamente que os dois tipos são muito importantes: um complementa o outro. Em uma reunião coletiva podemos perceber melhor os professores, identificar quais são os problemas coletivos e, a partir daí, identificar quais possam ser os só do seu filho. Todos os relatos apresentados, problemas ou méritos, servem para contribuir, por isso não os encaro como invasão e sim como uma troca para o crescimento. É nesse momento que devemos extrair do coletivo, sempre com bom senso, um norte para o seu individual, pois talvez o que você pensa ser um problema único possa ser uma fase natural da criança ou até mesmo um problema da turma. A troca de informação é sempre bem-vinda. A escola não deve encarar o aluno somente com a visão do grupo, e nós, pais, não podemos achar que nossos filhos são ímpares... Por isso é importante uma força constante! Trazer para bem perto tudo o que acontece dentro da comunidade escolar”.

Janete ressalta o fato de que educar é um aprendizado para os filhos tanto quanto para os pais, e brinca: ”quando minha filha nasceu senti muita falta de um manual de instrução (...). Vivemos numa era em que há oferta de cursos de formação para tudo, mas não há curso de formação para pais! Com o passar do tempo, fui percebendo que essa formação se dá com o curso da própria vida. Só a vivência nos ensina a ser pais”. E para que o aprendizado de tal função seja pleno, Janete acredita que a troca de experiências é fundamental: “ver que o que acontece com nosso filho também acontece com outra criança dá um referencial para a nossa experiência individual”. Ela então dá exemplos de dúvidas que podem ser tiradas através desse intercâmbio: “é comum a criança espelhar a letra? A troca de fonemas indica sempre a necessidade de um tratamento fonoaudiológico? (...) É na troca diária que tenho com outros pais, desde quando levo as crianças à pracinha até quando as busco na escola, que vou formando meu conhecimento sobre como educar. Vou tendo referências”.

E sobre a importância de o pai ter aproximação com os professores. O que eles pensam?

Renata vê tal convivência como importante, pois muitas vezes “o professor fica mais tempo com a criança do que os próprios pais, que de modo geral trabalham 8 horas por dia, então a aproximação e a troca de comunicações são essenciais para a parceria entre escola e família, que trará efeitos positivos ao aluno”. Adriana Lazaroni parece concordar com tal opinião ao afirmar que os professores “fazem parte da comunidade escolar e do processo”. Janete também considera tal troca fundamental, “porque a educação se dá entre família e escola. Não é um simples delegar. É um processo continuo”.

Alan considera que “os professores são uma extensão da educação que o filho recebe. Por isso, a interação entre essas partes não só é importante como indispensável, se estende da escola para casa e vice-versa”.

Melissa mostra um ponto de vista diferente; ela não acha que isso seja uma regra, visto que, “se o processo entre o aluno e o professor vai bem, não vejo razão para a aproximação, pois muitas vezes, dependendo da faixa etária do aluno, a aproximação pode até atrapalhar. Outras vezes essa aproximação gera conforto, alegrias, trocas e novidades”.

Por fim, perguntei se teriam para relatar algum caso curioso que tenha acontecido em alguma dessas reuniões.

Adriana lembra-se de dois casos que podem ilustrar bem o que a mobilização dos pais pode fazer: “já tivemos reuniões provocadas por nós, pais, através de trocas de informações por e-mails! As crianças ficam período integral na escola; portanto, almoçam lá. E começamos a perceber, pelo relato dos pequenos, que a comida que vinha sendo servida fugia completamente do que desejávamos e pagávamos. O movimento começou através da troca de e-mails e a escola agendou uma reunião com os pais da turminha da minha filha. Conseguimos trocar o prestador de serviço. Uma atitude coletiva, mas que serviu para o indivíduo Giovanna! Em outro momento, a Giovanna precisava tomar um remédio e a enfermeira trocou-o com o de outra aluna; despediu-se a enfermeira – um movimento isolado, mas que serviu para o grupo!

Janete também relata um caso que aconteceu com ela: “Na ultima reunião da minha filha, a escola propôs que os pais formassem grupos e discutissem a questão do “limite”. Foi muito interessante ver como cada família se manifesta nessa construção e que, muitas vezes, os limites são ultrapassados por nós, pais. A gente educa pelo exemplo que dá; nossos filhos são um pouco de nós, e nós reproduzimos nossos pais (mais até do que desejamos). Discutir isso em grupo chamou a atenção para atitudes diárias que temos, como: estacionar em fila dupla na porta da escola. Como fazer seu filho respeitar o próximo se você não percebe que desrespeita ao atrapalhar o trânsito e contribuir para que outra pessoa se atrase porque você parou o carro no primeiro lugar que viu? Essa reunião foi a primeira em que todos os pais, de diferentes turmas, discutiram e interagiram trocando suas vivências. Nela pude perceber uma coisa que se dá rotineiramente na minha frente e eu não via: a educação é fruto de um processo coletivo, não é uma relação só de cada família com seu filho; é também entre as famílias que se relacionam. O ser social se constrói por meio da relação com seus pares e o meio ambiente. Isso a gente até pode saber, independente de ser pai ou não; o difícil é perceber isso no dia a dia, na vida prática. Essa reunião nos estimulou a criar um grupo virtual de pais na turma da minha filha; resultado concreto da troca que se deu através desse grupo: a escola propôs um passeio de Dia das Crianças em que o programa era cinema e McDonald’s, por R$65,00, em um shopping no Recreio (a escola fica na Zona Sul). Grande parte dos pais não gostou do todo que compunha o passeio (seja pelo programa, distância ou preço). Foi por iniciativa de uma mãe que comentou sua discordância  nesse grupo virtual, e encontrou respaldo nos outros pais, que o passeio foi alterado”.http://by152w.bay152.mail.live.com/mail/clear.gif

Melissa, apesar não ter nenhum fato muito significativo para ilustrar, fala sobre a ansiedade que fica durante essas reuniões e, de forma sensível, consegue traduzir em palavras a expectativa que tais encontros geram e o que eles significam (ou deveriam significar): “Como se ali fosse o grande momento de resolver todas as questões inerentes ao aprendizado: e o teor educacional, as abordagens, a metodologia, os projetos, caminhos... E me vem sempre uma onda de ideias sobre o real significado de educação, da real escola. E daí se esbarra nos muros que esta possui, nos indivíduos e na questão da temporalidade”.

Tais depoimentos de pais tão engajados, comprometidos e envolvidos no processo de educação de seus filhos talvez estimulem uma reflexão acerca do tema em questão (provavelmente de forma mais eficaz do que se tivesse optado por escrever uma matéria teórica sobre o assunto). Tais relatos falam por si sós. E você, caro leitor, se quiser mandar sua opinião e só enviar para o fórum Discutindo sobre a importância da reunião entre pais e professores na escola.

Agradeço a colaboração dos pais Alan Alencar, Adriana Lazaroni, Janete Krueger, Melissa Ferraz e Renata Firpo na realização desta matéria e aproveito para parabenizá-los pela participação efetiva que têm na educação e formação de seus filhos.

Publicado em 3 de novembro de 2010

Publicado em 03 de novembro de 2010