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Porque o bom gosto se discute

Nayana M. Moraes

Licenciada em Letras

Introdução

Em discussões que giram em torno do conteúdo educacional e suas relevâncias na grade curricular, alguns debatem e inferem sobre a importância de este conhecimento fazer parte da realidade dos alunos. Estes são, atualmente, influenciados por seus ídolos da televisão, do futebol e da música: a influência da cultura de massa. Gostam de funk, pagode, novela e pulseiras coloridas. São participantes da moda. Entretanto, é preciso, no âmbito escolar, que o aluno conheça novas formas de artes em que o meio não o revela.

Muitas crianças e adolescentes jamais ouviram falar de Portinari, de Chico Buarque, de Glauber Rocha. Artistas que fizeram e fazem parte da cultura nacional. É preciso inserir o bom gosto em sala de aula. Porque, se não, eles ficarão fadados aos limites do que a televisão e outros meios de comunicação, como a internet, o oferecem. A sociedade contemporânea brasileira passa por um processo de empobrecimento cultural. Os jovens, principalmente, gritam histericamente por Justin Bieber, Jonas Brothers e para os atores da saga Crepúsculo. O meio escolar é responsável por propiciar o conhecimento da cultura popular, bem como sua história, mas de maneira que o aluno transforme essa arte em sua própria realidade, que perceba a profundidade daquela obra na sua vida. “A arte é trabalho do pensamento, mas de um pensamento emocional inteiramente específico, e mesmo fazendo esse adendo nós ainda não resolvemos o problema que se nos coloca” (Vigotsky, 2001, p. 57).

A arte provoca a discussão do sujeito em seu interior, seus devaneios e epifanias, já característicos de Clarice Lispector.  O que é bom não pode ser retirado da escola simplesmente porque os alunos não gostam. Todas essas inquietações que a arte revela denotam todo o sentido e função dela, não dando as respostas, mas fazendo perguntas a dissabores do ser humano.

Arte e conhecimento do mundo

Dizem que gosto não se discute. Mas o que significam então todas essas fruições imagéticas expostas na internet, no cinema e na televisão? Qual a significação atemporal de um repertório tocado nas rádios populares? Qual o saber que este propicia? A sociedade pós- moderna está cercada por essas linguagens e códigos visuais. A cultura nunca foi tão tecnológica e global. Entretanto, os acordes são sempre os mesmos, o vilão possui sempre a mesma característica e as calças coloridas nunca venderam tanto. As sociedades medievais se alicerçavam na arte na tentativa de conhecer melhor o mundo. O que atualmente as bandas de rock nacional, como Restart, podem oferecer aos jovens senão a imagem límpida dos mesmos na contemporaneidade, com piercing, cabelo colorido e roupas chamativas? Todos são modelos de uma mesma tendência. São integrantes da civilização de massa.

A forma bastarda da cultura de massa é a repetição vergonhosa: repetem-se os conteúdos, os esquemas ideológicos, a obliteração das contradições, mas variam- se as formas superficiais: há sempre livros, emissões, filmes novos, ocorrências diversas, mas é sempre o mesmo sentido (Barthes, 2008, p. 51).

É por meio da educação e do âmbito escolar que o aluno aprende a conhecer melhor o mundo. A arte contribui muito nesse sentido. Porém, é necessário despertar o prazer. Não apenas uma obrigatoriedade curricular, mas a valorização do que é bom. Como já dizia Fernando Pessoa: “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Esta é realmente uma definição para a verdadeira reflexão da arte. E quanto antes descubra e sinta isso, melhor.

As transformações no que se refere às tendências culturais e estilos, como a moda, a música e a beleza, são inevitáveis. Ocorrem em ritmo acelerado. Mas tudo que é feito por excelência será eterno. “Todos estes que aqui estão atravancando meu caminho passarão, eu passarinho”, como escreveu o saudoso Mário Quintana. A educação tem papel fundamental na identidade cultural, porque transfere o conhecimento para as futuras gerações, desenvolvendo o pensamento criativo e inovador do sujeito. A arte é um verdadeiro passarinho.

Referências bibliográficas

BARTHES, Roland. O prazer do texto. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2008.

VIGOTSKY, L. S. Psicologia da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Publicado em 30 de novembro de 2010

Publicado em 30 de novembro de 2010