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Entrevista com Lara Sayão – especialista em Ensino Religioso

Tatiana Serra

Descrever a img desde que não seja apenas ilustração
Lara Sayão

A importância do ensino religioso nas escolas tem sido ainda mais questionada pelos educadores brasileiros desde que decidiu-se que as escolas públicas deveriam oferecer ensino religioso, por um acordo firmado entre o Brasil e o Vaticano. Afinal, num país em que a diversidade religiosa é uma realidade, não há como negar que essa diversidade também se reflete no universo escolar. E ainda são muitas as dúvidas em torno deste assunto.

O que seria o Ensino Religioso? Seria possível falar de religião sem imposições? Qual é o perfil do profissional responsável por essa disciplina? Por que a religião precisa fazer parte do currículo escolar? Para responder a essas e outras questões, entrevistamos a professora Lara Sayão, especialista em Ensino Religioso.

Formada em Filosofia, com mestrado em Educação, Lara Sayão passou em 1º lugar no primeiro concurso para docentes de Ensino Religioso na região serrana de Petrópolis (RJ), em 2004. Durante sua entrevista, ela foi pura empolgação e felicidade ao falar de seu trabalho, de sua paixão pela escola pública e ao acreditar que é possível se dedicar a ela de corpo e alma. Quanto a ensinar religião nas escolas brasileiras, Lara diz que o “Ensino Religioso se propõe a considerar a dimensão religiosa da existência humana como fundamental para a formação integral” e que “a escola é o lugar da busca pela realização do homem”; logo, o lugar certo para se falar de religião.

Revista Educação Pública - Fale um pouco sobre sua trajetória profissional.  

Lara Sayão – Sou de Volta Redonda (RJ) e lá fiz Formação de Professores no Colégio Nossa Senhora do Rosário, pois, como neta e filha de donas de escola, sonhava desde cedo com um quadro-negro (risos)! Comecei a trabalhar aos 13 anos como ajudante de maternal e, depois de formada no Magistério, assumi uma turma de Fundamental I – 3º ano, no Colégio Verbo Divino, e outras de Classe de Alfabetização, convidada pelas irmãs do Colégio Senhora do Rosário, onde dei aulas de Ensino Religioso. Naquela época tinha 17 anos, participava de grupos de jovens, mas não tinha experiência outra que as aulas de catequese na paróquia, assim como a maioria dos professores de Ensino Religioso na época. Aos trinta anos, ingressei na Faculdade de Filosofia, depois de me casar e me dedicar exclusivamente aos meus quatro filhos. Ainda antes de me formar, comecei a dar aulas de Ensino Religioso, graças a cursos de Teologia que fiz na Igreja, e assim que me formei saiu o primeiro concurso do estado para professores de Ensino Religioso - que fiz e passei. No mesmo ano, passei no mestrado em educação e comecei a cursá-lo, aproveitando minha inserção na realidade da escola pública e a novidade que era o Ensino Religioso obrigatório e facultativo; com todas as muitas questões que suscitara, decidi dedicar-me ao tema. Hoje, aos 40, tenho duas matrículas no estado e leciono na Universidade Católica de Petrópolis (UCP) as disciplinas Antropologia Filosófica e Ética, além de coordenar o curso de Pós-Graduação em Ensino Religioso da UCP e a área de Filosofia no Colégio Notre Dame de Ipanema. Também leciono Filosofia em escolas particulares.

Revista Educação Pública - Por que você optou por se especializar em Ensino Religioso?

Lara Sayão - Por diversos motivos: primeiramente por minha inclinação pessoal, meu desejo profundo de falar da experiência de fé como algo tocante e fundamental na vida humana; depois, por perceber, desde meus tempos de ensino médio, que esta era uma área desafiadora e carente de discussão teórica e prática; e, finalmente, após minha graduação em Filosofia, por entender que a Filosofia poderia contribuir para a fundamentação da disciplina, fornecendo os pressupostos racionais da fé.

Revista Educação Pública - O que é o Ensino Religioso? Por que a religião deve ser aprendida na escola?

Lara Sayão - A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), ao falar de formação integral do ser humano, convoca-nos a considerar o homem em todas as suas dimensões, a cuidar e formar o homem na complexidade de seu ser, não o reduzindo a nenhum de seus aspectos, sob o risco de destituí-lo de sua dignidade e grandeza. Sendo assim, não é possível esquecer a dimensão religiosa, parte constituinte do ser humano, presente nas diversas culturas, realidade atemporal.

O Ensino Religioso se propõe a considerar a dimensão religiosa da existência humana como fundamental para essa formação integral. Em meio à formação intelectual nas diversas áreas do conhecimento, o Ensino Religioso se coloca como parte de um currículo que reconhece a relação dialógica com o transcendente como condição humana e fundamenta-se numa autêntica antropologia filosófica que não reduz o homem a homo faber, socialis e sapiens, mas o considera também religiosus, loquens, ludens, ou seja, uma antropologia que não desconsidera uma metafísica humana, uma conceituação e um comprometimento metafísico a partir das realidades muito concretas da existência. Longe de ter um caráter doutrinador restritivo, o Ensino Religioso tem o caráter da valorização das diferentes linguagens e experiências religiosas como parte essencial de uma vida autêntica. Ao trabalhar a dimensão do sagrado e do sentido, considera o senso religioso, que é natural ao ser do homem, e o valoriza, uma vez que, desconsiderado, esvazia a existência, gerando uma busca fracassada em outras dimensões incapazes de oferecer a resposta.

A escola é o lugar de ser feliz, entendendo felicidade no sentido aristotélico; é o lugar da busca pela realização do homem, é o lugar de empreender todos os esforços para tornar a vida melhor, mais plena, mais digna; é o lugar da humanização. Então, nesse lugar a condição dialógica com o Tu não pode ser esquecida. Também porque nas Igrejas os jovens têm a oportunidade de diálogo entre iguais, mas não entre diferentes, e a escola favorece esse encontro e, consequentemente, o respeito e a reverência  à alteridade.

Revista Educação Pública - Como os profissionais de educação, que, muitas vezes, têm suas próprias referências religiosas, devem lidar com a diversidade religiosa em sala de aula? Por favor, dê algumas dicas.

“Os profissionais de educação devem entender-se promotores da autonomia, e isso exige que fomentemos a capacidade de pensar sua própria condição de ser religioso.”

Lara Sayão - Em primeiro lugar, devemos estar abertos a um diálogo autêntico, que de fato ouça o outro e considere a beleza que há naquilo que é diferente de si. Depois, penso que o papel do educador é promover a reflexão acerca da necessária relação com o transcendente, não apenas na inserção numa religião institucionalizada, mas também nas manifestações do sagrado, revelado na sacralidade da existência em vários aspectos, como a sede de imortalidade e as percepções naturais de uma realidade metafísica, como a noção de bem e de verdade. Os profissionais de educação devem entender-se promotores da autonomia, e isso exige que fomentemos a capacidade de pensar sua própria condição de ser religioso. Uma postura que busca compreender as muitas manifestações do transcendente favorece o diálogo com a diversidade.

Revista Educação Pública - Com relação às aulas religiosas, como tem sido a reação dos alunos que não seguem nenhuma religião ou que têm religiões diferentes da seguida pela instituição de ensino?

“Mesmo aqueles que não seguem uma religião têm um claro senso religioso que se reflete numa sincera busca pela verdade acerca de si e do mundo.” 

Lara Sayão - Trabalho com Ensino Religioso na escola pública e percebo que mesmo aqueles que não seguem uma religião têm um claro senso religioso que se reflete numa sincera busca pela verdade acerca de si e do mundo. E é justamente aí, nesse lugar que é comum a todos os homens, que conseguimos um excelente diálogo, pois somos todos buscadores.

Há também, por parte dos alunos, uma vontade enorme de conhecer as muitas religiões, uma vez que a formação que recebem em casa fica sempre muito restrita à orientação religiosa familiar. Tenho buscado sempre responder a essa demanda, porque creio que o preconceito é fruto da ignorância e que é meu papel favorecer o conhecimento como um meio para vencer os males que a falta de diálogo gera. Sendo assim, solicito a todos que têm religiões diferentes que apresentem suas doutrinas de modo fundamentado, o que favorece uma valorização da experiência individual, pois os alunos que têm religiões, que são a minoria, tendem a se recusar a se manifestar, escondem suas religiões, com medo de deboches e incompreensão. Quando podem mostrar a grandeza e a beleza de seus ritos e de sua doutrina, sentem-se imediatamente valorizados e respeitados.

Promovo anualmente um encontro dos alunos com líderes religiosos das mais variadas doutrinas para uma mesa que chamo de Mesa de Diálogo, na qual os alunos têm a oportunidade de ver as mesmas questões serem respondidas de diversas maneiras. Por exemplo: qual a origem do mal, se Deus é bom?; e que realidade existe após a vida na Terra?, entre outras.

Os alunos que não têm religião muitas vezes resistem mais à aula por considerarem desnecessária, mas quando percebem que os argumentos usados são racionais e que compreender a religiosidade como fator importantíssimo a ser considerado no panorama político e social favorece sua formação e a análise crítica do mundo, passam a participar mais efetivamente. Mas, para que o professor possa dar uma aula de Ensino Religioso com postura dialógica, ele tem que ser muito bem formado, pois não é fácil tocar em tais temas com segurança e sem fundamentalismos. Por isso procurei pensar numa pós-graduação que contemplasse essa formação exigente e fiz dessa pesquisa minha dissertação de mestrado. Neste ano, montamos junto à Universidade Católica de Petrópolis a primeira turma de pós-graduação em Ensino Religioso dentro dessa perspectiva.

Revista Educação Pública - Ao ser oferecido nas escolas públicas, você teme que esse ensino seja deturpado, levando em consideração que poderá haver professores sem a devida especialização à frente da disciplina?

Lara Sayão - Certamente! Essa é a grande preocupação! Mas penso que essa é a grande preocupação em todas as áreas. Não é verdade que existem péssimos professores de Matemática que traumatizam as crianças e fazem-nas odiar a disciplina, tornando-as incapazes de aprender? E também não é verdade que existem excelentes professores de Matemática que encantam e fazem com que todos os alunos aprendam verdadeiramente? Penso que no Ensino Religioso não é diferente; há sempre o risco de profissionais mal formados, de pessoas equivocadas quanto à real importância da presença do Ensino Religioso no currículo, de gente bem-intencionada e mal-esclarecida. Mas há também a chance de gente bem-formada, apaixonada pelo destino do outro, que pode prestar uma grande contribuição para a formação integral do homem. Por isso penso que devemos empreender uma enorme discussão nacional sobre o tema (e aproveito para parabenizar a revista Educação Pública pela iniciativa), como também não poupar esforços na formação dos professores, como estamos fazendo na Universidade Católica de Petrópolis; e sei que há muitas iniciativas nesse sentido no sul do País; também pelo Fonaper (Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso) e o GPER (Grupo de Pesquisa, Educação e Religião). Acredito que, assim, vamos construindo o Ensino Religioso que realmente seja significativo e que contribua efetivamente para a Educação.

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21/12/2010

Publicado em 21 de dezembro de 2010