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Poesia necessária: os inúteis de Manoel de Barros

Luis Estrela de Matos

Professor universitário, doutorando (UFF) e escritor

Diálogos Poéticos

Existem versos e versos. Existem também os reversos e os desversos. Olhos livres para o novo. Manoel de Barros é coisa boa de se ler. Afinal, gafanhoto também anda de muleta e os pardais descascam larvas. Fique tranquilo, com cem anos de escória uma lata aprende a rezar... E a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso. Manoel é assim, surpresas que surpreendem. Para os olhos, os sentidos, a carcaça, os pedaços de alma que por ventura ainda resistam em nós. Quando menos se espera, ele nos espreita, nos ataca e dá seu bote. É pantaneiro, sim, senhor. Seus versos, ou não versos, ou fragmentos de coisas, têm o melhor de todos os venenos: poesia. E inusitada. Quando menos esperamos, a gente se pega lendo e abrindo seus livros pelas livrarias deste Brasil sempre sem fim. Universalmente pantaneiro, Manoel de Barros olha as coisas menos percebidas. Quase sempre nos obstinamos nos grandes temas, quase sempre nos deixamos ensinar o que é o que não é poesia nas escolas-cativeiros. Quase sempre o professor tem dificuldade para falar sobre o simples e o trabalho pesado que dá fazer o aluno experimentá-lo. Mitifica-se tudo: grandes poetas, grandes tragédias, grandes questões. Várias são as maneiras de ser grande. Manoel já avisava em versos que “nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas. Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves”. O que podem os quintais? Podem tanto que ficam onde estão. Você já teve um quintal em sua vida? No mundo dos playstations e playgrounds iríamos para outras sendas. Ou carrefours... Difícil hoje é viver o simples. Arre! Estou tentando não contar nada, sem uma história, apenas indicando mostrar uma alegria. A poesia de Manoel de Barros é uma alegria súbita. Ele mesmo fala: “Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia”.

E como faz, e como tem feito. Desde 1937 (Poemas concebidos sem pecado). Acredite, leitor casual, Manoel de Barros vem reinventando o fazer poético há muitas décadas. E desconstruindo também. Tijolo por tijolo. Graças! Literatura só para vestibular dá nisso... A gente passa pela escola, aprende pouco, e logo esquece. Ou então nunca ouve falar de quem vale a pena. Mas Manoel a gente não esquece, a gente encafifa. Ele tem a obsessão de tirar poesia do inútil, ou melhor, deixar o desuso nos assaltar. Nos anos 90 ele assim explicou o roubo: “exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo ‘lugar de ser inútil’”.

No mundo da utilidade, do pragmatismo feroz que vivemos na carne (nossa carne também vale muito...), de um tempo milimetrado de nossas ações mais corriqueiras, da angústia crescente com a falta de espaço das cidades contemporâneas, é bom saber que se pode respirar de outra maneira. É bom saber que outros homens vivem e viveram de formas outras. Afinal, fórmulas vêm nos secando. Manoel reinventou-se ao reinventar-se na língua. O português ficou mais inútil com o barro criador do Manoel. Ainda bem. E para quem ainda acredita na importância do inútil, fotografe um terreno baldio. Muitas fotos, agora digitais. Cate as coisas. Com os olhos também. Nos arredores de você mesmo o ser te experimenta. Segue Barros:

Um homem catava pregos no chão,
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais – o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônio inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

Publicado em 21 de dezembro de 2010

Publicado em 21 de dezembro de 2010