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Travessia

Cláudia Sampaio

- Como eu faço para te encontrar de novo?

- Você quer?

- Sim.

- Eu também quero. Então me dá o seu e-mail? Aqui está o meu.

- A viagem está sendo boa, apesar das turbulências.

- Doze meses é mesmo tempo demais para manter sob controle o bom humor das nuvens, inevitáveis os momentos dolorosos, e aprendemos com eles, Helene.

- Fiquei com medo quando caiu aquele raio... E triste, quando vi em chamas nossa árvore tão querida.

- O barulho foi grande, mas nada grave. Se ela morrer, plantamos outra. Não se preocupe, os pássaros vão voltar. Tudo muda sempre, esta nossa única certeza. Não sou mais aquele de dezembro passado, precisei ser tantos nessa travessia... E há sempre o frescor dos balões de gás a voar, a graça das pipas triangulares dos meninos nas lajes.

- E o sol repousando dourado naquela tarde rosa de abril, agora lembrei! Depois a chuva transformando a terra, o arco-íris, os amores, as conversas com os amigos, tantas cores.

- Ainda aquelas horinhas de cheiro de alecrim, enquanto contemplávamos o Mediterrâneo. Incrível, não?

- O que você achou de passar a meia-noite entre as estrelas e o mar, em pleno voo?

- Isso nunca me aconteceu, foi a primeira vez.

- Gostei da travessia, do Ocidente ao Oriente. Nunca pensei em ir a Istambul.

- Tanta coisa a gente não planeja, acontece.

- Bom isso.

- Qual seu desejo para este novo ano?

- Suavidade. Um novo começo.

- Ano novo todo novo dia!

- E o seu?

- Um bom clima.

- Com os problemas ambientais que temos hoje... Um desafio.

- Mas o que seria um bom clima para você?

- Como estar sentado à beira do mar, sem frio nem calor.

- Li uma vez algo sobre isso, foi a Gabriela Mistral, poeta chilena.

Numa crônica sobre a paisagem mexicana, ela fala do bem-estar que sentiu ao visitar a cidade de Jalapa, cuja temperatura, segundo ela, é de uma encantadora suavidade. Para a Mistral o melhor clima é aquele que faz desaparecer a ideia de calor e de frio. É como quando você pega chuva e não sente frio, quando o calor chega na quantidade necessária para dar a sensação de conforto.

- Isso é que é suavidade!

Me lembrei também de uma outra crônica sobre o ano novo, da Cecília Meireles, “Ano muito bom”. Ela fala em um idioma comum de esperança e ternura.

- Ah, mas isso é um excelente pedido para um ano novo!

- Vamos, vamos descendo, com nossos mistérios, sonhos, medos e esperanças. Os próximos 12 meses estão aí bem na nossa frente. E, seja em Istambul ou no Rio de Janeiro, podemos inventar enredos mil e experimentar o que for possível nessa nova volta que a vida dá.

Publicado em 21 de dezembro de 2010

Publicado em 21 de dezembro de 2010