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Grande Sertão: Travessia

Alexandre Amorim

No momento em que Riobaldo narra sua história, ele é um fazendeiro de cabelos esbranquiçados, casado com Otacília. Suas memórias o acompanham e serão companhia do leitor durante todo o romance. E seu amor ainda é compartilhado entre presente e passado, entre Otacília e Diadorim: “De mim, pessoa, vivo para minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina...”.

Neblina é o que turva, o que embaça, o que dificulta a visão. Seja em sua memória – visão do passado, seja em seus dias de fazendeiro – visão do presente, o sentimento amoroso de Riobaldo é confuso, porque a figura de Diadorim se mantém, suspensa como as gotículas de água que formam a névoa, desde sua morte, quando o ainda jagunço pede à noiva Otacília que espere passar o tempo de “nojo e emenda” de seu amor anterior e “necessário também”. O tempo de luto e olhos marejados passou, mas não houve a emenda. O amor por Diadorim se manteve necessário, porque não foi extinto, e o narrador deixa isso claro em seu contar. A história de amor entre Riobaldo e Diadorim é uma metáfora da travessia do homem, de suas escolhas propositais e aleatórias. Riobaldo e Diadorim são a mímesis do devir – pela definição dicionarizada, porque sua relação está em constante construção e, mesmo após a morte de Diadorim, é um eterno tornar-se, mas também pela definição de Deleuze e Guattari, pois a relação entre os dois jagunços não tem a semelhança ou a identidade como causa (formal ou final), mas a divergência ou a distância. A semelhança entre Riobaldo e Diadorim é sua atração mútua, que não leva à dialética entre os dois: não há possibilidade de síntese nessa relação, uma vez que cada um deles conhece o outro de forma distinta. Não há modelos a serem imitados, porque um desconhece o modelo do outro. Riobaldo obviamente desconhece Diadorim (seu sexo, seu gênero, seu nome), e Diadorim conhece a eterna recriação de Riobaldo: “jagunço não passa de ser homem muito provisório”. O tornar-se da relação é a aquisição de ambos por cada um deles. A relação entre os dois é a contaminação das diferenças:

a diferença é também comunicação e contágio entre heterogêneos; que, em outras palavras, uma divergência não surge jamais sem contaminação recíproca dos pontos de vista. [...] Conectar é sempre fazer comunicar os dois extremos de uma distância, mediante própria heterogeneidade dos termos (VIVEIROS DE CASTRO, 2007).

O texto de Guimarães Rosa pode fazer parecer paradoxal que a atração de um jagunço por quem ele supõe ser um amigo seja uma atração de diferenças. São amigos guerreiros, do mesmo sexo, com objetivos aparentemente iguais. É através da incerteza da narrativa que o leitor vai aos poucos descobrindo as diferenças entre Riobaldo e Diadorim. A amizade entre eles tem naturezas distintas, uma vez que Diadorim se sabe mulher e pode se sentir apaixonada pelo companheiro, ainda que essa paixão deva ser mantida em segredo durante o tempo em que seu objetivo (vingar a morte do pai, Joca Ramiro) não for alcançado. A pedra de safira dada por Riobaldo é negada por Diadorim, porque este precisa de tempo para realizar sua vingança – o presente deve ser dado em nova ocasião, e “nesse dia, então, eu recebo”. Riobaldo ainda chama Diadorim para sair da vida de “jagunçagem”, para “viver por só si”, mas Diadorim mantém seu objetivo – e seu segredo. Seus desejos estão definidos. Diferente dela, ignorante do segredo de Deodorina, Riobaldo não pode definir seu desejo:

“Nego que gosto de você, no mal. Gosto, mas só como amigo!” Assaz mesmo me disse. De por diante, acostumei a me dizer isso, sempres vezes, quando perto de Diadorim eu estava. E eu mesmo acreditei. Ah, meu senhor! – como se o obedecer do amor não fosse sempre ao contrário... O senhor vê, nos Gerais longe: nuns lugares, encostando o ouvido no chão, se escuta barulho de fortes águas, que vão rolando debaixo da terra. O senhor dorme em sobre um rio?

O desejo se renova. Para que possa aceitar seu próprio desejo, Riobaldo vai moldá-lo em várias formas, mas sempre reprimindo a paixão. As águas do rio de Heráclito correm sob o chão sertanejo. Impossível dormir, impossível amainar um desejo que pulsa forte e represado. O desejo de Riobaldo por Diadorim permanece oculto sob o falso, mas se move, busca caminhos como o fluxo de um rio busca seu leito. A ânsia de Riobaldo por Diadorim se reprime pela enorme pressão social, internalizada pelo jagunço, mas expressa como uma “vontade do sertão”:

De que jeito eu podia amar um homem, meu de natureza igual, macho em suas roupas e suas armas, espalhado rústico em suas ações?! Me franzi. Ele tinha a culpa? Eu tinha a culpa? Eu era o chefe. O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa...

É interessante relembrar aqui que o sertão, ao mesmo tempo visto como elemento externo (e maldito, por ser elemento repressor) é também o “dentro da gente”. O sertão é local de origem e de vivência de Riobaldo, lugar íntimo, onde seus desejos nascem, mas também lugar social, em que seus desejos devem ser domados. Sem “janelas nem portas”, é o universo do jagunço narrador. É sua alma e seu mundo e funciona como a estrutura proposta por Freud – o sertão é a emoção, a razão e a moral de Riobaldo. O “sertão maldito” está vivo no protagonista e condena a paixão por Diadorim, mas o desejo escorre pelas fendas (pelas veredas?) sertanejas. Riobaldo reconhece seu amor pelo companheiro de guerra, mas não pode se reconhecer como seu amante. Novamente, a ideia do devir surpreende o protagonista-narrador. Como tornar-se jagunço, chefe e amante? Como conciliar sua vergonha e seu desejo? Não há conciliação, mas entrega:

Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora. Melhor alembro. Eu estava sozinho, num repartimento dum rancho, rancho velho de tropeiro, eu estava deitado numa esteira de taquara. Ao perto de mim, minhas armas. Com aquelas, reluzentes nos canos, de cuidadas tão bem, eu mandava a morte em outros, com a distância de tantas braças. Como é que, dum mesmo jeito, se podia mandar o amor?
O senhor saiba – Diadorim: que, bastava ele me olhar com os olhos verdes tão em sonhos, e, por mesmo de minha vergonha, escondido de mim mesmo eu gostava do cheiro dele, do existir dele, do morno que a mão dele passava para a minha mão. O senhor vai ver. Eu era dois, diversos? O que não entendo hoje, naquele tempo eu não sabia.

O desejo e a vergonha de Riobaldo nascem de uma atração que pode ser interpretada como metafísica, afinal Diadorim é uma mulher disfarçada de homem, e a paixão do sertanejo protagonista poderia ultrapassar as aparências e adivinhar a essência daquela mulher guerreira. Prefiro, entretanto, lançar outro olhar sobre a história de Riobaldo e Diadorim. Os olhos verdes e o toque das mãos de Diadorim podem denunciar seu segredo, e mesmo a paixão de Riobaldo pode ser vista como atração pela “essência” feminina de Diadorim. Mas as duas passagens citadas ilustram as diferenças profundas que convivem em Riobaldo: seu desejo e sua dúvida. Mesmo que haja um vislumbre do feminino em Diadorim por parte do protagonista, sua dúvida ainda o impede de realizar seu desejo. O próprio Reinaldo, assumindo seu papel de jagunço vingador, alimenta a dúvida de Riobaldo referente a seu desejo. A bravura do guerreiro Tatarana, a ousadia e a sabedoria do chefe Urutú-Branco são de natureza diversa da coragem necessária para que Riobaldo desafie a incerteza de seus sentimentos. O narrador entende que mandar a morte é diferente de mandar o amor, porque a figura do ser amado precisa corresponder a seu desejo. Matar é unilateral, amar não. A coragem de Riobaldo precisa ser alimentada por Diadorim.

O desejo requer, mas a dúvida rechaça a ideia de desejar Diadorim. Mesmo que haja o vislumbre metafísico de uma essência feminina redentora, existe também o desafio humano da dúvida. A neblina que turva a travessia de Riobaldo, no entanto, não o paralisa. A paixão do narrador por seu companheiro de jagunçagem é flagrada em sua narrativa, e seu desejo é expresso sem culpa. Riobaldo já havia contado sua história ao compadre Quelemém, o que significa que já havia passado pela purgação de suas angústias através da narrativa antes de contar novamente a história ao interlocutor (e ao leitor de Grande Sertão: Veredas). Sua paixão – seu páthos – é revivida sob um novo olhar nessa narrativa presente. O que não pôde ser realizado já pôde ser narrado, e pode agora ser também analisado pelo seu protagonista:

Ao por tanto, que se ia, conjuntamente, Diadorim e eu, nós dois, como já disse. Homem com homem, de mãos dadas, só se a valentia deles for enorme. Aparecia que nós dois já estávamos cavalhando lado a lado, par a par, a vai-a-vida inteira. Que: coragem – é o que o coração bate; se não, bate falso. Travessia – do sertão – a toda travessia.

O ex-jagunço Riobaldo pode agora compreender que atravessar o sertão lado a lado com o ser amado, ainda que impossibilitados de dar as mãos, é demonstrar que a coragem dos dois estava em sua paixão, verdadeira mesmo que não enunciada. A catarse provocada pela primeira narração de sua história a seu compadre fez com que sua “dor passasse”. A dúvida acerca de sua paixão já pode ser compreendida e expressa – com nostalgia, mas não mais como repetição da angústia sentida. A água do rio não é mais a mesma, o fluxo da paixão é agora saudade, e Riobaldo segue sua vida, experimentando suas metamorfoses. “‘Vida’ é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma ideia falsa. Cada dia é um dia”. A paixão de Riobaldo e Diadorim ainda é devir.

A purgação de sua angústia em relação a seu amor por Diadorim, no entanto, não significa que Riobaldo tenha se livrado da dor da perda. Enquanto conta sua história, o ex-jagunço narra bem antes da ordem cronológica dos acontecimentos o terror de ver a mulher amada morta:

Como foi que não tive um pressentimento? O senhor mesmo, o senhor pode imaginar de ver um corpo claro e virgem de moça, morto à mão [...]. E essa moça de quem o senhor gostou, que era um destino e uma surda esperança em sua vida?! Ah, Diadorim... E tantos anos já se passaram.

Mesmo estando claro que Riobaldo fala de Diadorim, é interessante notar que o narrador usa de uma figura de retórica para tratar de sua morte. O fato não é citado diretamente, mas um quadro imaginário é sugerido pelo narrador. Que o interlocutor crie seu próprio terror, que o ouvinte/leitor viva a tragédia de ver morta a mulher que seria seu destino, que era sua “surda esperança”. Riobaldo precisa ainda contar sua história, revisitar os labirintos por onde passou e experimentar de um novo modo sua vivência sertaneja para que se sinta capaz de narrar a morte de Diadorim.

A primeira vez em que o leitor terá certeza da morte de Diadorim será através de uma frase seca, sucinta e direta: “Diadorim tinha morrido”. Acaba aqui qualquer incerteza, qualquer esperança débil de salvação do amor entre os dois. É como se Riobaldo estivesse mais uma vez dando ao interlocutor a chance de expurgar suas angústias através de seu próprio sofrimento. Mas, apesar de narrado e expresso o fato, a recepção da morte de Diadorim por Riobaldo não será resolvida através de catarse. Riobaldo continua a narração do fim de Diadorim: “mil-vezes-mente – para sempre de mim; e eu sabia, e não queria saber, meus olhos marejavam”. O protagonista-narrador sabe e não admite saber. Sente, apenas, mas não completa o ciclo catártico – não existe alívio, apenas repetição da dor sentida.

À notícia da morte sucede a descoberta de que Diadorim era uma mulher. A dor de Riobaldo é incessante. Se antes estava morto o ser amado que não pôde ser aceito, agora estava morta a possibilidade de conciliação entre desejo e dúvida. Morria a esperança de Riobaldo ser feliz.

Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha... Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucuia, como eu solucei meu desespero.

O uivo desesperado de Riobaldo é a expressão de angústia do homem que vislumbra a tragédia da impossibilidade. Impossível expurgar a dor da perda. A surpresa, porém, maior do que a dor, vai se tornar perplexidade perante a vida. Não haverá catarse curativa, mas transformação da dor em perplexidade. Não será coincidência que Riobaldo prefira cessar a narração da limpeza do corpo de Diadorim, como se assim interrompesse a certeza de sua morte, mas também como se não quisesse dar a seu interlocutor a possibilidade de definir a morte de seu amor: “Não escrevo, não falo! – para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! Diadorim...”. A morte de Diadorim não fica sendo. Estará como neblina, suspensa, preenchendo de incertezas e perplexidade a travessia de seu narrador: “O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.”

Referência

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Filiação intensiva e aliança demoníaca. Novos Estudos, n. 77, março 2007.

Publicado em 9 de fevereiro de 2010

Publicado em 09 de fevereiro de 2010