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O sabor tropical das frutas de cera da pequena notável

Mariana Cruz

Um turbante com diversas frutas na cabeça, balangandãs, badulaques e uma saia comprida cheia de babados com uma fenda generosa na lateral... A quem tais acessórios remetem? Dez entre dez brasileiros responderão: Carmen Miranda. Certo. Mas tudo isso ainda é pouco. Diversas outras coisas podem ser ditas sobre ela: seus gestos únicos com os braços, seu largo sorriso pintado de vermelho e o enorme sucesso no exterior – fato este que fez com que fosse acusada de ter perdido suas raízes brasileiras (na verdade nasceu em Portugal em 1909 e, com menos de um ano, mudou-se com a família para o Brasil). Tal acusação foi respondida pela cantora com grande humor, por meio de uma música de encomenda chamada Disseram que eu voltei americanizada.

O fato é que o exagero característico de Carmen pode passar a ideia equivocada de que ela não passava de uma artista tipo exportação, uma caricatura do Brasil, uma cantora para inglês ver. Digo isso porque eu mesma tinha tal imagem dela; considerava-a uma espécie de Zé Carioca em forma de mulher. Até que, um dia desses, com vontade de escutar um sambinha antigo, encontrei, no meio da minha pilha de CDs um dela, comprado num saldão – ou seja, adquirido só porque estava barato. Qual não foi minha surpresa ao constatar que a maioria das composições nada tinha de idealização da nossa cultura; pelo contrário, eram a mais perfeita tradução da malandragem, boemia e ginga carioca, baiana... brasileira! Atitudes pra lá de modernas que, ainda hoje, soariam estranhas na boca de algumas das dezenas de cantoras de samba que aparecem a cada dia.

Apesar de Carmen Miranda não ser a compositora das letras, apenas pelo fato de cantá-las – e pelo modo como fazia – já mostrava que não estava de brincadeira. Assim, começam a fazer todo sentido aquelas alegorias que usava: era uma gozadora, muito mais artista do que cantora (ela mesma assumia que sua voz não era nada de mais). Queria provocar, transformar, subverter. E conseguiu. Ao cantar, apropriava-se das músicas de tal modo que parecia ser a compositora de todas elas. Ela ria, brincava, interrompia trechos das letras para fazer exclamações (como Elis Regina fez muito tempo depois). Assim, à medida que eu escutava as faixas do CD pensava em como tais letras, sonoridades e trejeitos vocais eram recebidos pelo público naquela época. A falsa baiana fala de batucadas, amores, bebedeiras, amigamentos na maior naturalidade. E as roupas, que antes da audição eu considerava caricaturais, passaram a ser para mim uma afirmação da brasilidade, da exuberância, do exagero, da miscigenação. Como diz Geraldo Galvão Ferraz a respeito da Pequena Notável: (ela era) “um exército de uma mulher só, o traço (curvilíneo) de união entre o modernismo da Semana de 22 e o tropicalismo dos anos 60”. Apesar da postura diferenciada e libertadora para a época, a vida pessoal da cantora teve um fim semelhante ao de muitas artistas contemporâneas suas: bebida, cigarro, drogas, remédios, excesso de trabalho e decepções amorosas ocasionaram sua morte prematura, aos 46 anos.

Ao mesmo tempo que dançava com o umbigo de fora e não tinha pudores em mostrar as pernas, era católica fervorosa – o que fazia com que se recusasse a posar nua e tivesse grande arrependimento de um aborto feito no início da carreira. Apesar disso, sua visão de mundo estava bem à frente de seu tempo, como pode ser constatado em algumas de suas frases , como a que critica o uso do termo “bicha”; segundo ela, trata-se de “um sentido pejorativo para com os homossexuais. Porque, no dicionário, bicha é um verme. Prefiro a expressão americana queer (esquisito ou diferente) , que também pode vir a ser um grande elogio”; ou como quando fala a respeito do verbo “trepar” diz: “não gosto da palavra, mas que é uma delícia, lá isso é...”.

Nas letras das músicas, não se priva de cantar sobre diversos amores, como em Tic Tac do meu coração, em que afirma que seu coração é um coração de “quem muito amou na vida”; em Adeus batucada, canta que já é de madrugada e tem que ir embora chorando com seu coração sorrindo, para deixar “todo mundo valorizando a batucada”, numa ode à boemia, pois “sambando se goza neste mundo” e, sem um pingo de romantismo, coloca o samba como algo mais importante que o amor: “do meu grande amor sempre me despedi sambando, mas da batucada agora despeço chorando”; em Quem canta seu males espanta fala que seu “amor partiu, nem se despediu, e agora com saudade vou cantar para não chorar”, deixando de lado a fossa, sempre tão valorizada; em No tabuleiro da baiana a voz masculina que faz dueto com Carmen fala dos trapinhos que quer juntar com ela, deixando a entender que, entre eles, o casório de papel passado não tem vez. Em Cachorro vira-lata diz que gosta muito de “cachorro vagabundo que anda sozinho no mundo sem coleira e sem patrão”, dando mais valor à liberdade do que a uma vida segura; e na ótima Quem é, que tem participação de Barbosa Junior, enumera os afazeres de uma típica dona de casa com o marido:

Quem é que muda os botõezinhos na camisa?
Quem é que diz um adeuzinho no portão?
Quem de manhã não faz barulho quando pisa?
E quando pedes qualquer coisa não diz não?
Quem é que sempre dá o laço na gravata?
Quem é que arruma teus papéis na escrivaninha?

No desenrolar da música, vemos que tal aparente submissão não passa de um deboche, não só pelo tom utilizado pela cantora, como pela resposta de seu par, que aceita a infidelidade da mulher:

Quem é que finge que não vê o seu namoro?
Quem é que dorme se você quer passear?

Em E o mundo não se acabou, pensando no trágico acontecimento anunciado no título da canção, ela diz que, enquanto “os lá de sua casa começaram a rezar”, ela trata de aproveitar: “beijei na boca de quem não devia, peguei na mão de quem não conhecia, dancei um samba em traje de maiô e o tal do mundo não se acabou”; no sucesso O que que a bahiana tem ela convida: “quando você se requebrar caia por cima de mim”; em Voltei pro morro ela pergunta onde está seu moreno, que ela deixou no morro, e pede, agora que voltou, que o chamem, tomando uma postura tipicamente masculina de quem deixa uma pessoa à espera e depois retorna como se o tempo não tivesse passado; em Recenseamento, vários temas são abordados: o fato de ela não ser casada e ter um filho, de morar com um fuzileiro e que, apesar da vida modesta, tem os instrumentos necessários para uma boa batucada:

E o agente recenseador
Esmiuçou a minha vida
Foi um horror
E quando viu a minha mão sem aliança
Encarou para a criança
Que no chão dormia
E perguntou se meu moreno era decente
E se era do batente ou era da folia...
O meu moreno é brasileiro,
É fuzileiro, e é quem sai com a bandeira do seu batalhão!
A nossa casa não tem nada de grandeza
Nós vivemos na pobreza, sem dever tostão
Tem um pandeiro, uma cuíca, um tamborim
Um reco-reco, um cavaquinho e um violão

Essas e tantas outras músicas interpretadas por Carmen Miranda mostram que sua ousadia ia muita além do visual e que nada tinha de americanizada; seus gestos, trejeitos captavam a mais pura essência da brasilidade e, apesar disso – ou por isso mesmo – universalizaram-se. As frutas que carregava na cabeça, mesmo sendo de cera, traziam consigo o mais genuíno sabor tropical. Deve ser por isso que a pequena era, de fato, notável.

Sites pesquisados:

http://claudia.abril.com.br/materias/2096/
http://carmen.miranda.nom.br/cm_bio.htm

Publicado em 09/02/10

Publicado em 09 de fevereiro de 2010