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O Youtube e a mudança nas relações humanas

Marlon Baptista

Doutorando em Filosofia

Colocação da questão

Em sua forma tradicional, os livros grafados em pergaminho ou em couro desde a Antiguidade e os jornais e revistas impressos em papel na Modernidade determinaram a disseminação da informação e do pensamento entre os seres humanos. No século XX, a radiodifusão passou a gerar a ideia de mídia de massas, por meio da criação de sucessos musicais, telenovelas, radiojornais e intervenção determinante na opinião pública. Com a televisão, a mensagem enviada ganha imagem e movimento, consolidando de vez o poder da imagem em nossa cultura ocidental – que acabou por se globalizar.

A internet, por sua vez, é uma forma de expansão da compreensão acerca do modo de funcionamento dos meios de comunicação, pois com ela passou a haver algo fundamentalmente distinto de todos os outros meios anteriores: enquanto estes se estruturavam num centro de onde provinha a mensagem, que era então disseminada para muitos, a internet fez com que se perdesse este centro estruturador e se criasse uma forma descentralizada, múltipla e heterogênea de produção de informação, quer dizer, todos aqueles que lidam com a internet podem ser a fonte produtora do que quer que se dissemine; qualquer um pode expressar sua visão de mundo, publicar pensamentos, informações, interpretações sobre informações, narrações, histórias, sons e imagens sem que seja difícil que a mensagem atinja milhões de pessoas. Com a internet é preciso repensar o sentido de “produção” de informação, pois qualquer indivíduo cria um blog, um perfil num site de relacionamento ou um verbete na Wikipédia e pode afetar diretamente (dependendo do que contiver no comunicado) o modo de compreensão de outro indivíduo – ou de muitos outros. Mas o modo como recentemente passou a ser possível e fácil a manipulação autônoma e solitária de som/imagem e sua publicação para o mundo deixou ainda mais claro que é preciso ser repensada não somente a estrutura pela qual nos comunicamos, mas o modo como nossa compreensão sobre nós mesmos e sobre o mundo está sofrendo mudanças, de modo que formas fundamentais de interação social estão se transformando. Por conta disso, este artigo tem a proposta de refletir sobre o modo como o Youtube está inegavelmente mudando a estrutura de funcionamento das relações humanas.

O surgimento do Youtube

A partir da criação de três jovens americanos, em 15 de fevereiro de 2005 se registrou o domínio Youtube na internet. No dia 23 de abril foi postado o primeiro vídeo, em novembro eram exibidos 2.000.000 de vídeos por dia, em janeiro do ano seguinte 25.000.000, em março cerca de 20.000 novos vídeos estavam sendo postados por dia. Em julho de 2006, representando 43% de todos os vídeos vistos na Internet, o Youtube atinge a marca de 100.000.000 de vídeos vistos por dia e 65.000 novos vídeos postados diariamente. Em outubro de 2006 a Google comprou o Youtube por US$ 1,6 bilhão – na época, o maior negócio que a Google já tinha feito.

A rede de TV inglesa ABC entrou em funcionamento em 1948. Considerando sua existência de 60 anos até 2008 e uma programação de 24 horas por dia, a emissora produziu ao longo dessas décadas cerca de 1,5 milhão de horas de programação, o que é equivalente ao que o Youtube realizou nos últimos seis meses. Com cerca de 9.230 horas de vídeo postadas por dia, divididas em cerca de 200.000 vídeos de 3 minutos, o Youtube assumiu o caráter de uma comunidade virtual que visa à aproximação das pessoas (que os outros sites de relacionamento de certa forma já realizavam), mas com a diferença determinante da imagem – antes da existência do Youtube, não era nada fácil postar um vídeo na internet; com isso ele isso se tornou banal, de modo que as pessoas passaram a postar, dentre outras coisas, vídeos de si mesmas, gravados em webcams do interior de seus próprios quartos.

O que significa essa indistinção entre privado e público? O que está em jogo quanto à identidade daqueles que se expõem assim ao mundo? Como lidar com a ideia de direitos autorais, de autoria, a partir do momento que, no Youtube, há a apropriação das mais variadas imagens de obras com direitos registrados, a exibição desde trechos de filmes até a edição de imagens de diversos registros alheios com a criação de algo novo a partir de uma nova perspectiva sobre o próprio plágio?

Numa Numa e os bebês

No verão de 2003, O-Zone, um grupo pop da Moldávia (país da Europa oriental próximo à Ucrânia e à Romênia) passou a fazer muito sucesso com uma música chamada Dragostea din Tei (“Amor da Tília”) em língua romena – da qual o cantor Latino fez uma versão brasileira com o título Festa no Apê. Havia uma coreografia específica para a dança, e, com o advento do Youtube, em 2006 ela passou a ser imitada por várias pessoas, as quais se filmavam e postavam no site a sua versão da dança. Surgiu então um jovem gordinho que se filmou sentado em sua cadeira em frente ao computador fazendo a sua performance; ele ficou conhecido como o cara “Numa Numa” (em http://www.youtube.com/watch?v=60og9gwKh1o) – uma apropriação linguística de algo com essa mesma fonética que é dito no refrão da música. O menino virou tamanho sucesso por sua dança tosca e suas caras e bocas que apareceu no New York Times, em programas de TV e até mesmo num episódio do sátiro e irônico desenho animado South Park. Foi um dos vários que se comunicavam por meio da reelaboração a partir de um mesmo sucesso pop e, até agora, foi visto quase 35.000.000 de vezes no Youtube. O que gera esse processo mimético em massa?

Outro exemplo é o de duas crianças; um, que é um bebê, morde o dedo do outro maiorzinho (ver http://www.youtube.com/watch?v=_OBlgSz8sSM), até que este não aguenta de dor e grita, fazendo com que o bebê solte seu dedo e dê uma risada. Essa imagem foi repetida por centenas de pessoas das formas mais malfeitas ou criativas possíveis.

De novo a pergunta: qual é o sentido desse mimetismo? Uma primeira tentativa de resposta: parece ser uma forma de estabelecer comunicação. Mas por que desse jeito, gravando algo sobre si mesmo e postando na internet?

O individualismo em rede

Cabe pensar que nosso modo de civilização, que culminou com as metrópoles do século XX, fez com que as pessoas se distanciassem umas das outras, ainda que morassem na mesma cidade. Os subúrbios, por exemplo, passaram a se ligar às principais regiões de funcionamento da cidade por meio de imensas vias expressas ou pela transmissão televisiva. No século XX, o sistema fabril, a vida operária e burguesa, num excesso de importância dado à produção de trabalho e capital, aumentou a perda de tempo livre, sobrando menos espaço para o desenvolvimento de relações humanas de amizade e trocas de interesses e simpatias comuns. A relação comercial se modificou; criaram-se grandes redes de mercados e grandes lojas que substituíram a proximidade inevitável da pequena mercearia da esquina e das lojinhas de bairro, onde se conhecia o dono e os clientes. Tudo foi se tornando gradativamente maior e mais impessoal, de forma que o individualismo gerado pelos novos modos de vida se exacerbou de tal maneira que a solidão passou a abranger todas as classes sociais de forma mais intensa do que nunca. Em meio às imensas distâncias da cidade, à impessoalidade do trabalho, à pressa, à preocupação de cada um com o que é seu, surgiu um modo de interatividade como a internet em geral (e o Youtube em particular) que gera uma forma de “individualismo em rede” ou um “individualismo interconectado”, de modo que ocorre uma inversão cultural, porque as pessoas se comportam e vivem de maneira individualista ao mesmo tempo que pregam o valor da comunidade (não é difícil perceber isso, por exemplo, no Orkut ou qualquer site de relacionamento em que pessoas possivelmente bem solitárias têm centenas de “amigos”). Presenciamos essa inversão cultural, em que se vivencia uma postura que afirma o valor da independência, mas que, ao mesmo tempo, diz prezar o valor do relacionamento, da conectividade.

Vivemos num mundo em que tudo é comercializável, em que a originalidade rapidamente vira clichê e modismo barato, em que movimentos artísticos, culturais e políticos viram ótimos temas para novos produtos; e, em meio a essa comercialização de tudo, defende-se a bandeira da autenticidade.

Em meio a essa inédita tensão cultural de indivíduos isolados que buscam interlocutores, instaura-se a mídia das câmeras e das telas como forma de suprir, por outro meio, a necessidade de estabelecer contato social. No caso do Youtube, entretanto, conversa-se com uma câmera e não com alguém; trata-se de um público invisível, em que o que é dito ou expresso se desloca de qualquer contextualização possível, pois, afinal de contas, quem se filma fala sobre si ou suas ideias e posta o vídeo no Youtube e não sabe para quem está falando.

A tecnologia da filmagem gravada e editada possibilita uma mudança cognitiva quanto ao modo como o indivíduo percebe a si mesmo e ao modo como os outros que assistirem à sua gravação o perceberão. A possibilidade de se ver novamente, ou seja, de ver a própria imagem de fora (numa tela) e, além disso, a sua repetição, provocam uma maneira de compreensão que aquele que se filma pode ter sobre si mesmo, de modo que, a partir disso, ele pode construir, criar uma identidade por meio da manipulação do som e da imagem em movimento de uma forma muito mais forte e decisiva do que o que já se faz com fotos por meio do Photoshop em outros sites de relacionamento, por exemplo. Quando se vê algo pela primeira vez, passa-se a estabelecer uma relação de conhecimento com a coisa, observa-se primeiramente; ver de novo, o replay, proporciona o reconhecimento, uma maior consciência acerca do que nós mesmos somos ou aparentamos ser – basta se filmar fazendo coisas que você não tem coragem de mostrar para ninguém ou mesmo se filmar dizendo coisas quaisquer e se assistir dizendo-as; é sempre diferente nos observarmos de fora, numa repetição do momento originário em que só podíamos nos ver de dentro, estando no corpo do protagonista que aparece (depois) como um outro projetado numa tela.

Assim, o Youtube pode proporcionar uma criação de si mesmo e a vinculação dessa criação com outros criadores de suas imagens de uma forma sem precedentes na história das relações humanas que conhecemos.

Uma tensão inevitável que sempre vivemos no interior de uma cultura diz respeito ao desejo de estabelecer contato, por um lado; e, por outro, a reserva, o embaraço, o constrangimento que toda aproximação social envolve: dizer o que é adequado ao momento, movimentar-se corretamente, reprimir desejos, arriscar reconhecer o limite da ousadia além do qual se coloca tudo a perder, ser prudente, conveniente, delicado etc. A grande novidade que as novas tecnologias de comunicação estão trazendo é justamente a possibilidade de conectividade sem a preocupação em se reprimir, pois, no fim das contas, postar um vídeo sobre si mesmo é falar com todo mundo; o que pode significar, paradoxalmente, falar com ninguém.

Com essa nova mídia, é possível subverter os antigos critérios de identificação da verdade que o contato pessoal sempre auxiliou a reconhecer. Um exemplo é o famoso caso de Lonelygirl15 (ver http://www.youtube.com/watch?v=-goXKtd6cPo). Uma garota de 16 anos em seu quarto narra acontecimentos desde o primeiro momento de postagem de um vídeo sobre si mesma, até o desenrolar de suas aventuras amorosas e existenciais de adolescente. Após a postagem de vários vídeos editados, foi descoberto ou anunciado que a menina estava somente atuando em um projeto com roteiro e direção de um grupo que estava criando a história. Essa descoberta saiu em vários jornais, os seus produtores foram entrevistados e tudo. Houve manifestações a partir de outros vídeos postados exigindo que houvesse verdade naqueles que postavam vídeos no Youtube, ao invés do fake (falso). Mas, por outro lado, os produtores de Lonelygirl15 disseram o seguinte: “Ela não é mais real ou ficcional do que as partes de nossas personalidades que escolhemos mostrar (ou esconder) quando interagimos com pessoas ao nosso redor”. Quer dizer, o Youtube, de uma forma mais intensa que as relações humanas vivenciadas diretamente, possibilita que “sejamos produtores de nós mesmos, reensaiando nossa identidade, editando nossas próprias histórias, brincando com a identidade”, segundo as palavras do professor dr. Michael Wesch, da Universidade do Estado do Kansas (EUA), que realiza um projeto de Etnografia Digital com um grupo de alunos, tendo o Youtube como objeto de pesquisa. Em seu blog (http://mediatedcultures.net/ksudigg/), é possível encontrar vídeos (que estão no Youtube) a partir de suas pesquisas. Os vídeos estão em inglês e foram a principal fonte para a escrita deste artigo.

O professor Wesch utiliza outros exemplos notáveis para demonstrar sua hipótese do que ele chama de “tensão cultural”. Movimentos desencadeados pela postagem de vídeos como o da Free Hugs Campaign (Campanha pelo Abraço Gratuito) (ver http://www.youtube.com/watch?v=vr3x_RRJdd4), feito por um novaiorquino que saiu às ruas com uma placa escrita Free Hugs para ocasionar o contato fraterno do abraço com desconhecidos, seriam um exemplo do distanciamento humano desencadeando intervenções urbanas como meio de reaproximação viva e corpórea que perdemos cada vez mais para a virtualidade. Ou mesmo edições como a do vídeo The Message (ver http://www.youtube.com/watch?v=Z-BzXpOch-E), em que várias pessoas escrevem mensagens de paz, solidariedade e conectividade nas mãos, coisas como “we are all connected”, “together as one”, “one world” etc. justamente em um mundo cada vez mais fragmentado e com maiores dificuldades de contatos reais entre as pessoas.

Além dessas formas de conectividade do trazer ao público de forma transformada ou não aquilo que é individual e privado, e apesar da quantidade de coisa inútil e sem sentido postada diariamente, o Youtube é um espaço plural que pode ser utilizado de muitas formas, servindo como forma de conectividade e, consequentemente, de reflexão. Há vídeos politizados, apontando questões das quais a mídia televisiva não trata; há postagens nas mais variadas línguas. Além do auxílio para o aprendizado de línguas e acesso a informações não privilegiadas pelos meios televisivos, também se pode estudar música com o auxílio do Youtube. Por exemplo: músicos mostram lentamente como se toca uma determinada música ou como se faz um certo riff – na minha época era preciso pagar por vídeos caros de grandes guitarristas para isso; no Youtube é grátis.

Intervenções artísticas ocorrem em variadas formas (como a postagem de filmagens dos mais variados tipos de intervenções absurdas, estéticas e políticas), sem contar a comunicação de grupos específicos para os quais o surgimento do Youtube foi condição de possibilidade, inclusive para a discussão da qual aqui propus somente um esboço. É necessária a discussão sobre as inegáveis mudanças que a incorporação de novas tecnologias tem causado no modo como compreendemos a nossa história e a dos outros e no modo como vivemos, nos relacionamos e damos sentido a essas relações.

Webliografia

http://www.i-r-i-e.net/index.htm
http://www.midiaindependente.org/
http://www.capurro.de/db.htm
http://www.youtube.com/
http://mediatedcultures.net/ksudigg/

Publicado em 9 de fevereiro de 2010

Publicado em 09 de fevereiro de 2010