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Entrevista: Izaura, uma educadora

Alexandre Amorim

São Gonçalo do Rio das Pedras é um distrito do Serro, no alto Jequitinhonha, em Minas Gerais. Das várias histórias locais, uma delas conta que algumas crianças brincavam em um terreno quando acharam uma pequena estátua de São Gonçalo. Como ainda não havia igrejas no distrito, decidiram levar a estatueta para uma capela de Milho Verde, a localidade mais próxima. No dia seguinte, encontraram a estátua do santo no mesmo lugar em que a haviam achado da primeira vez. Na segunda tentativa de levar a imagem para a cidade vizinha, notaram pequenas pegadas no chão que a levava de volta a São Gonçalo. Assim, graças à insistência do santo, uma igreja foi erguida em sua homenagem: a Matriz, de 1787, pode ser vista antes de chegar ao vilarejo de cerca de 1.300 habitantes.

É nessa pequenina área, cercada de lendas e pela serra do Espinhaço, que vive Izaura Aparecida Ferreira, filha de Eva e Juscelino, nascida em Diamantina mas criada em São Gonçalo desde muito nova, junto com suas cinco irmãs. Na infância desprovida de recursos, com a mãe lavadeira e o pai trabalhando em capinação ou em alambiques, “faltava tudo, mas também tinha tudo”, como ela diz, de maneira contraditória, mas cheia de razão: “revezávamos nosso tempo entre ir à escola, as tarefas domésticas e muitas brincadeiras. Até nas tarefas domésticas brincávamos – a preferida era buscar lenha, pois eu tinha oportunidade de estar mais perto da natureza, ou seja, dentro dela. E, acredite, não tem parque de diversão melhor”. Izaura aprendeu a conviver com o ambiente que a cerca e a extrair desse ambiente sua sabedoria e sua sobrevivência.

Além do verde, dos rios e das montanhas que a cercam, Izaura também foi influenciada pelas histórias de São Gonçalo. As catadoras de lenha contavam casos e a menina ouvia, mas também aprendeu a contar. Na casa de chão batido e luz a querosene na lamparina, não havia rádio ou televisão. O vazio de narrativas da mídia era preenchido pela criatividade dela e de suas irmãs. O que se ouvia na casa, durante a madrugada, era o rádio do vizinho, que tocava alto e fez a menina Izaura gostar de Roberto Carlos, Nelson Gonçalves, boleros e bossa nova.

Em Diamantina para cursar o Ensino Médio, Izaura trabalhou como empregada doméstica ao mesmo tempo que frequentava o museu e conhecia a história da cidade. “Acho que foi lá que decidi: se tivesse que fazer um curso superior, faria História”, ela se recorda. Após se formar como professora de Ensino Médio, voltou para São Gonçalo e trabalhou em uma creche e em ONGs, “mas sempre com ouvidos atentos às histórias, mesmo que apenas como curiosidade, sem nenhuma pretensão. Ouvir e contar histórias faz parte de mim”. No povoado existe uma biblioteca, e ali Izaura trabalhou como voluntária, além de promover a “hora do conto” nas escolas. “Contava de tudo: histórias de livros, histórias que havia escutado na comunidade e até histórias inventadas, dependendo da situação”, ela se recorda.

Até hoje, suas histórias são recolhidas de várias fontes, mas a grande matriz foi a casa de duas vizinhas, que sempre contavam “histórias de encantamento”, fábulas e lendas, contos de princesas, príncipes, fantasmas, tesouros, mula sem cabeça e outras. “A história do povo eu procuro instigar as pessoas a contar. Quase sem querer, começo um bate-papo sobre algum objeto ou sobre o passado, por exemplo, e aí mergulho na narração do povo”, a professora ensina. Cursando licenciatura em História, Izaura sabe extrair narrativas de seus alunos e amigos e sabe usá-las em sua atividade de educadora. Seu sonho é escrever um livro com essas narrativas e a história de sua comunidade.

São passagens do cotidiano local, do passado e do presente. “Acho que aprendo e contribuo pra que a cultura não morra, fazendo o ciclo do repasse da educação informal, ou seja, de pai para filho, de avô para neto. Quanto ao destino dado às histórias, utilizo quase todas nas minhas aulas, cada uma em seu contexto. As crianças gostam mais das histórias de encantamento; os adultos se identificam com histórias do saber local, que muitas vezes são histórias deles mesmos”. Izaura, mesmo sem citar o autor, mostra na prática o que Paulo Freire preconiza em sua teoria: utiliza a vida de seus alunos como matéria-prima para educá-los e fazer com que se sintam valorizados em sua história.

Trabalhando com alfabetização de adultos e em uma creche, onde também é artesã e cozinheira do “melhor pastel de angu da região, modéstia à parte”, a professora explica sua metodologia: “em minha pesquisa e nas conversas com meus alunos, nada passa despercebido, e, como muitas vezes não posso gravar as aulas, quando chego em casa escrevo a conversa em forma de versos”.

Como as alunas e os alunos são os responsáveis por trazer o assunto a ser trabalhado, e como muitas vezes o assunto envolve diretamente os alunos, por ter relação direta com sua vida ou com sua profissão, envolver os alunos nesse universo é muito mais fácil. Assim, quando a palavra a ser explorada é “trabalho”, por exemplo, entre as várias profissões formais e informais que surgiram na aula, as quitandeiras e doceiras se destacaram. O universo sintático desse cotidiano é utilizado, então, envolvendo todo o processo de produção nas quitandas e nas fábricas de doces, explorando receitas e sistema de medida para trabalhar com português e matemática. Izaura, então, faz uma pequena pesquisa histórica e repassa à turma. Abaixo, dois poemas escritos pela professora em cima da aula cuja palavra-chave foi trabalho. O primeiro, sobre quitandas:

Rosquinhas, biscoitos e broas
Em São Gonçalo tem das boas.
Boas também são as rezadeiras e benzedeiras
Que fazem broa de fubá e rezam pra não queimar.
O licor é para provar, o gosto do doce de figo feito por Sinhá.
Dona Sinhá e Corina
Mercezinha e Leoni
Ninica e Dona Zica
Todas da Irmandade do Sagrado Coração
E também do forno e do fogão.
Rosquinha de nata ou doce de anelzinho
Tudo feito com carinho
No fundo do quintal, entremeio fornos e fogões, é um grande laranjal.

O outro poema é sobre o modo típico da região para fabricação de vinhos; chama-se “Esperança":

Os portugueses a cá chegaram
E uma esperança aqui plantaram
Tiraram do nosso chão riquezas de montão
Mas deixaram aqui uma esperança a dois Sebastião
Tirar da esperança um fruto que brota do chão
Transformar na bebida que acalenta coração
Licor de Deus ou simplesmente vinho
Feito por Sebastião ou Sebastiana com muito amor e carinho
Servido no bar ou no altar e que muito tempo deu o que falar.
Padre, mendigo ou marajá, se vier a São Gonçalo tem que provar.

Após ler os poemas, é obrigatório perguntar a Izaura sobre os planos para publicação deles e das histórias que ela ouve e guarda. “Eu gostaria de escrever um livro”, ela responde, “mas não um livro comum; um livro em que fosse possível sentir a essência deste lugar e suas histórias, que remetesse a algo bom, que despertasse lembranças a quem lesse, além de se uma forma de guardar saberes que se perdem ao longo da vida”. Izaura sonha com um livro que transforme quem o lê, assim como todo escritor de qualidade. Ela sabe da força que tem nas histórias que conhece tão bem, porque convive com elas, com sua mitologia e com seus personagens, às vezes reais, às vezes não.

Este artigo foi escrito sobre dois textos que Izaura me enviou por email. Grande parte do que aqui se leu, mesmo que não esteja entre aspas, são palavras da própria educadora. Agradeço a ela por sua generosidade e pela história maior que conto aqui: sua história de vida.

02/03/2010

Publicado em 02 de março de 2010