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Sobre o sentido do erudito (Gelehrte): o seu papel na cultura moderna

Marlon Baptista

Doutorando em Filosofia

Uma primeira perspectiva sobre o seu sentido

Segundo o primeiro grande dicionário alemão, dos irmãos Grimm, já no século XV o termo Gelehrt se referia ao indivíduo versado em questões jurídicas, referentes tanto ao conhecimento e julgamento da vida espiritual pensada no sentido religioso quanto a questões mundanas, relacionadas à vida civil, ao domínio do direito. Enquanto substantivação do particípio passado do verbo lehren, que significa “ensinar”, o termo Gelehrt teria o sentido de se referir àquele que foi “ensinado”, ao douto, o erudito, o instruído, disciplinado, perito, homem de ciência. Passando por várias conotações específicas, o Gelehrt já se referiu ao douto em literatura, àquele que sabe o latim ou mesmo àquele que sabe escrever em geral.

Em equivalência ao latim e ao grego, carrega consigo o sentido tanto do doctus latino quanto do sofos [sábio] grego. Nos estudos sobre a Grécia, que se intensificaram no século XVIII, aparecia o termo gelehrte Griechenland, ou seja, Grécia sábia ou erudita. Até mesmo Winckelmann, considerado o precursor da arqueologia, do classicismo e da história da arte, chega a se referir a estátuas gregas como gelehrte Statue, ou seja, “estátuas sábias”, figurando o ideal do equilíbrio, da serenidade e beleza que influenciou toda uma tradição sobre o modo de considerar os gregos. Chegou-se a associar o termo Gelehrte com Werte, ou seja, o erudito com o valor, como algo digno de valor. Estabeleceu-se até que a distância que separava um erudito de um leigo seria equivalente à que separava um vivo de um morto.

O erudito no idealismo alemão

Concentro-me agora no sentido que o Gelehrte passou a ter especificamente como representante da ciência no interior da instituição que passaria a figurar como o principal baluarte da cultura, a universidade. Na compilação de textos que deu forma a O conflito das faculdades, Kant fez a exigência de que, no interior da arquitetônica do saber então vigente com base na instituição da universidade, a faculdade de Filosofia assumisse o papel de faculdade livre de todos os interesses do governo, podendo, assim, em contraposição às outras faculdades (de Teologia, Direito e Medicina), colocar suas questões quanto ao sentido dos fundamentos e modos de proceder das outras faculdades. Assim, quem detém o uso livre da razão é a filosofia, enquanto as outras ciências têm por finalidade o cumprimento obediente dos desígnios do Estado; ou seja, elas detêm o poder executivo, mas não o legislativo, e, por consequência, “não são livres para fazer um uso público do saber” (Kant, 1993, p. 20), pois seus estudiosos se limitam à condição de “letrados (pessoas que fizeram estudos)”, “homens de afazeres ou técnicos do saber” (ibidem, p. 20). A liberdade de pensamento aparece como exclusividade daqueles que se ocupam da filosofia, que visam à verdade, ao conhecimento e à ciência por si mesmos, sem qualquer interferência de poderes políticos, sociais ou religiosos. Somente estes seriam os Gelehrten, excluindo-se os outros estudiosos.

Essa reivindicação da subversão na estrutura dos saberes coloca a Filosofia no papel principal dentre eles, de modo a influenciar de forma decisiva na criação da moderna universidade alemã, a qual tem por projeto se constituir enquanto universidade filosófica. Isso significa que o caráter filosófico do qual as outras faculdades eram privadas seria a elas conferido por meio de um projeto de sistematicidade do todo do saber, de modo que a liberdade então exigida para a Filosofia passasse a ser exigida para a universidade como um todo. Assim, a universidade se torna o lugar da instauração da filosofia enquanto ciência absoluta.

Refiro-me aqui ao sentido de ciência para o idealismo alemão, enquanto compreensão da totalidade do saber humano de forma sistematicamente ordenada, de modo que todos os saberes configurem um sistema de inter-relações e de dependência recíproca, num projeto filosófico cuja meta é a constante aproximação teórica e prática de um sistema que fosse capaz de ordenar e dotar de inteligibilidade todo o real, de modo que cada elemento conhecido assumisse um lugar único e fosse conectado necessariamente com o todo de onde ele retira seu sentido. Deste modo, o Gelehrte passa a ser o homem de ciência, mas não necessariamente o que lida diretamente com a Filosofia enquanto disciplina, porque, independentemente da área do saber, aquele formado na nova universidade alemã teria também formação filosófica, o que significa que seria capaz de perceber a relação da totalidade das ciências, configurando um todo sistemático somente possível pela capacidade de pensamento filosófico, no qual todo cientista deveria passar a ser versado. O que significa que o Gelehrte, entendido como cientista, por definição, não estaria restrito somente a um âmbito específico de saber, pois seria capaz de compreender a ciência a que se dedica sempre numa relação de universalidade, sempre em relação com o todo do saber proveniente das outras ciências, ainda que de forma geral.

Nesse sentido, pode-se pensar no que significa a interdisciplinaridade como pressuposto para a realização da ciência. O sentido desse termo enquanto exigência para todos os Gelehrten aponta para a necessidade de que ele tome parte em outras áreas do saber para que possa ser mais bem desenvolvida a pesquisa que se faz quando consciente de que seu sentido só é conquistado ao ser percebido o lugar que ela ocupa numa suposta totalidade dos saberes que constituiria a universidade enquanto tal, dialogando com as outras áreas e tornando visíveis as relações necessárias a ser estabelecidas para que seja possível perceber as consequências e causas de determinados conhecimentos especializados, os quais, tomados isoladamente, não sustentam o seu sentido de ser.

Tanto é que Schleiermacher chega a afirmar que todo professor universitário deve, às vezes, realizar conferências referentes a outras áreas do saber, pois assim não se gestariam os conhecimentos puramente especializados que fariam daqueles que os estudam conhecedores somente de um campo específico, de modo a nada terem a pensar e dizer sobre qualquer coisa que extrapole a limitação de sua especialização. A universidade se torna o lugar privilegiado do Gelehrte, pois seria ela a única comunidade de indivíduos interessados pelo saber em sua forma universal, de modo que todos os saberes se constituíssem de maneira conjunta, propiciando a percepção da realidade humana e natural como componente de um grande sistema, que só é possível de ser compreendido visto em sua totalidade.

O Gelehrte passa então a figurar, de forma ideal, no pesquisador da academia e no professor universitário. E, devido ao grau de universalidade de seu conhecimento, passa então a ser imperativo que seja dada a ele a última palavra sobre os variados âmbitos da realidade. Em meio a toda a literatura e às reformas educacionais referentes ao ideal de Bildung, de formação, enquanto desenvolvimento harmônico de todas as disposições do homem – ideal decisivo inclusive na criação da universidade –, o Gelehrte assume papel de destaque, pois, segundo Fichte em sua 4ª Preleção sobre a determinação do erudito, é ele quem deve identificar, por meio do correto conhecimento, quais são as disposições e aptidões, os impulsos e as necessidades do ser humano para que lhe seja propiciada sua plena realização. Apesar da importância de voltar-se ao conhecimento interdisciplinar, devido à impossibilidade do Gelehrte abarcar a totalidade do saber humano, ele deve escolher partes específicas do conhecimento a que se dedicar, gerando assim as especializações, que assumem a responsabilidade pelo progresso da humanidade. Assim, o erudito se constitui como aquele que zela por esse progresso e o promove, ao olhar sempre para o futuro, para o caminho que tem que ser seguido corretamente; orientando a sociedade nesse caminho, ele assume o papel de “educador da humanidade” (Erzieher der Menschheit) (Ibidem).

O estudo científico, por viabilizar a percepção de relações no interior de um todo, elevando-se do singular ao universal, possibilitaria maior discernimento para a aplicação do conhecimento formal (universal) na singularidade, ou seja, na vida prática. Pois, conforme as palavras de Hegel num dos discursos de fim de ano do Gymnasium de Nurenberg, para agir bem, é preciso antes poder “compreender corretamente o caso e as circunstâncias” (ibidem, p. 348). Segundo sua compreensão, a formação científica faz com que o indivíduo consiga se distanciar de sua existência meramente imediata e natural, onde há predominância de impulsos e sentimentos, alçando-se ao pensamento e à conquista da liberdade que se dá a partir da imposição de limitações ao mero arbítrio e ao caráter voluntarioso e ditador da sensibilidade, de modo que o distanciamento dos impulsos é por si só um auxílio e pressuposto para a conduta moral. Com isso se deduz outra conseqüência sobre o valor do erudito, o qual, por se dedicar à ciência, prepara-se melhor para a própria moralidade.

Há, deste modo, uma pressuposição muito delicada no idealismo, de que, se alguém se dedica à busca da verdade, consequentemente esse alguém é “moral e nobre” (Schleiermacher, 1996, p. 407). Essa afirmação é decorrente da ideia de que aquele que se acostumou a avaliar as coisas pela perspectiva da ciência sabe exigir critérios contundentes para o seu julgamento, por saber diferenciar o que é significativo e digno de valor ou não, percebendo rapidamente se algo deve ser considerado ou descartado. Além do que o rigor da pesquisa científica desenvolveria no indivíduo o valor da disciplina por si mesma, ao invés da disciplina obtida por coação. Faria com que ele aprendesse o valor do trabalho dedicado e cuidadoso, o caráter determinante das sutilezas, da diligência no tratamento com as coisas. A ciência possibilitaria a legítima formação; os únicos aptos a fazer ciência seriam aqueles que fossem capazes de desenvolver uma moralidade (Sittlichkeit) por si mesmos, livremente.

Os progressos do conhecimento científico não se expressariam somente na interioridade e individualidade do caráter, mas também na sua exteriorização coletiva representada na sociedade moral, pois a constante investigação deveria realizar, enquanto consequência, a intervenção direta nos costumes, tornando-os maleáveis e suscetíveis também a um constante aperfeiçoamento. Assim, o exercício teórico seria estreitamente ligado à atitude moral, interferindo diretamente na personalidade do Gelehrte, de modo que os conceitos elaborados teoricamente se referissem à experiência e ao modo de nela viver. O erudito passa a assumir a tarefa e o dever de ser o modelo, o tipo de homem que é o melhor de seu tempo, e o espaço privilegiado para a sua gestação passa a ser a universidade.

Outra perspectiva sobre o erudito

Voltando rapidamente ao dicionário dos irmãos Grimm, o termo Gelehrt aparece em acepções diferentes das que citamos no início. No século XVIII, o Gelehrt tinha também o sentido de pedante, como aquele que estuda muito com a finalidade de poder criticar, censurar, criar polêmica; que, ao invés de ter o intuito de sentir e descobrir a beleza dos autores, estuda para mostrar sua erudição. Seria aquele que é muito bom em sua especialidade, enquanto no que diz respeito à sua ação na exterioridade, na vida, é inábil. O Gelehrt seria uma oposição à vida ativa no mundo. Tanto que já eram correntes afirmações como a de que passou a haver maior preocupação com uma citação bibliográfica equivocada do que com a falta da prática da virtude e da moral; ou de que os Gelehrten eram recipientes de informações, enciclopédias ambulantes; que, de tanto buscar aprender o que os outros pensaram, só aprendiam a aprender, ao invés de inventar, criar e efetivar algo realmente.

Além disso, aparece também a crítica no sentido da instrumentalização do saber; o filósofo e dramaturgo Lessing afirmara que os Gelehrten tinham feito da ciência uma ferramenta; Schiller havia feito a diferença entre o “erudito de ganha-pão” e o filósofo. E, enquanto havia a rima de Gelehrte com Werte, havia também, já no século XV, a rima de Gelehrte com verkehrte, ou seja, invertido, errado, como aquele que se gaba de seu conhecimento especializado e se esforça para aproveitar qualquer situação para empregá-lo de alguma forma. De qualquer modo, o Gelehrt, na variação e evolução de seu emprego, apresenta o caráter de detentor de um conhecimento especializado.

O erudito aos olhos de Nietzsche

Por esse caminho podemos nos aproximar da meta última deste texto, as considerações feitas por Nietzsche sobre o Gelehrte na segunda metade do século XIX. Nietzsche considera o Gelehrte como resultado de um dos desdobramentos do dogma nacional e econômico de seu tempo. O Gelehrte seria, enquanto servidor da ciência, o representante do que Nietzsche chamou de “redução da formação”. Uma de suas características essenciais é não precisar ser excepcionalmente bom em nada, basta ser esforçado e dedicar-se a uma única área de conhecimento, de modo a ignorar todas as outras. Enquanto em sua área de atuação e estudo ele se eleva acima do vulgo, em todas as outras áreas e questões ele se assemelha a esse mesmo vulgo. Ao afirmar isso, num tom de diagnóstico da realidade, Nietzsche apontou para o fracasso de todo o projeto de formação pautado na universidade e na concepção de ciência idealista, pois o que ele constatou é a disseminação das especialidades cientificamente desenvolvidas mas não enquanto compreensão universalizante como se propunha originariamente – ou seja, a ciência não se apresenta perpassada pela Filosofia. A realização da ciência ocorre de forma instrumental e pautada na pesquisa bibliográfica especializada e em experimentos que gradativamente vinham propiciando descobertas em várias áreas das ciências naturais. Não houve sequer a aproximação do ideal do Gelehrte enquanto representante de uma personalidade refinada pela habilidosa circulação por entre várias áreas de conhecimento que possibilitasse sua compreensão dos fenômenos de forma global, de modo a se tornar capaz de colocar questões que fossem essenciais para a determinação dos modos de vida do homem.

Muito pelo contrário, as questões filosóficas são cada vez mais deixadas de lado, as questões mais essenciais sobre o homem passam a não vir mais ao caso quando se trata da realização da ciência pensada objetiva e positivamente. Intensifica-se o saber sobre vários ramos do conhecimento de forma cada vez mais detalhada, mas, ao mesmo tempo, cada vez mais fragmentária, ou, nas palavras de Nietzsche, cada vez mais míope, sendo preciso sempre ver tudo de perto demais, o que vai diretamente em oposição a qualquer ideia de compreensão global que possibilite relacionar conhecimentos específicos com problemas em torno das questões perenes que se mantêm a cargo da filosofia. É nesse sentido que Nietzsche reivindica a necessidade de que o indivíduo pense no porquê de sua personalidade ter assumido as características que assumiu, no por que se transformou nisso que é. Esse tipo de reivindicação se propõe a pensar em algo já pressuposto e ignorado pelo novo dogma da formação: o qual, além de visar à busca de conhecimento sem consequências morais e intensificadoras da concepção de humanidade, passa ainda a ser revestido por outro tipo de valor moral: a limitação especializada é compreendida como “fidelidade às pequenas coisas”, ou como sinal de sobriedade e moderação. Assim, a formação vira sinônimo de ciência – no sentido de ciência positiva e não da ciência do idealismo. Ao fazer da formação um procedimento tão unilateral, são inevitavelmente deixadas de lado outras dinâmicas de realização do homem, como a relação com os sentimentos e com a moralidade.

A ciência neutra, que visa o conhecimento sem preocupação em estabelecer sua relação com outras disposições do homem, faz daquele que a ela se dedica um indivíduo que passa a incorporar essa frieza, não se exercitando para lidar com outras dinâmicas do funcionamento de sua humanidade, como o cultivo dos sentimentos, costumeiramente entendidos em sentido negativo ao que é lógico/racional. Por um lado, seriam justamente os sentimentos que proporcionariam ao homem as atitudes que dariam verdadeiro valor e vida à sua existência. Nietzsche chega a falar da importância dos sentimentos de insatisfação e nostalgia enquanto duas forças motoras que devem impulsionar o homem. Chega a falar do amor pela verdade e do caráter impetuoso da juventude. Uma das formas de funcionamento da personalidade que devia receber maior atenção – e que não cabe à ciência – é o exercício da habilidade de se apropriar e fazer uso ativo de certos sentimentos de que somos acometidos.

Ao contrário do pensado por Kant, o Gelehrte não se tornou o filósofo; ao contrário do pensado por Fichte, o Gelehrte não assumiu uma configuração que lhe possibilitasse ser modelo, pois, para além de seu campo de estudo, ele é tão vulgar como a massa inculta; ao contrário dos pressupostos de Hegel e Schleiermacher, o exercício da ciência não ocasionou a moralização. Tanto é que Nietzsche, na Segunda Consideração Extemporânea – Schopenhauer como Educador, atenta justamente para a característica essencial das chamadas instituições superiores de ensino: a ciência não está atrelada a nenhum princípio que a restrinja e lhe seja superior. O cientista assume a característica de alguém desprovido de pensamento, voltado para um restrito campo de signos que se inserem num horizonte semântico predeterminado. Perante situações de indeterminação, ele é colocado em xeque, pois não cultivou certas partes constituintes de sua personalidade responsáveis pela valoração das ações ou pela boa escolha da atitude nos momentos em que as circunstâncias lhe exigem, devido à exclusividade da dedicação à neutralidade, à objetividade, à constante recorrência à referência bibliográfica.

O Gelehrte se apresenta como uma figura “distorcida e debilitada” porque foi educado pela ciência, “um abstrato desumano”. Como consequência, num formato de cultura pautado na formação científica, passa a não mais haver espaço para reflexões morais, e muito menos para modelos figurados em indivíduos que criam valores. Passa a ser inexistente a figura do modelo moral, porque o valor que alguém tem passa a ser medido pelo âmbito teórico de seu desempenho, o que significa que alguém que desenvolve uma grande pesquisa e realiza descobertas decisivas nada tem a ver necessariamente com algum tipo de grandeza da personalidade ou com posturas morais relevantes, ou, em suma, com a forma de sua personalidade. Mas o pior é que, em geral, os Gelehrten a que Nietzsche se refere sequer fazem grandes descobertas, resumindo-se a catalogadores de uma limitada área de conhecimento. Seriam indivíduos que se dedicam com tanto afinco ao conhecimento por não saber o que fazer do ócio, não suportando não ter um livro ou alguém para se entreter, para poder, assim, não voltar a atenção para si mesmo.

Conclusão

Independente da possibilidade de universalização das características elencadas por Nietzsche para identificar o Gelehrte como sinônimo de cientista, suas considerações são merecedoras de atenção por marcar um momento decisivo de avaliação do projeto da modernidade: o progresso científico não ocasionou o progresso da humanidade; a intensificação da ciência enquanto construção de teorias, verificação e produção de técnica tirou do idealismo qualquer poder de legitimação cognoscente ou política. Nietzsche vivenciou a crise pela qual passou a filosofia por meio da crise do idealismo.

A filosofia hoje continua em crise, numa incômoda situação de indeterminação de seu lugar na cultura, ainda mais com os encaminhamentos dos sistemas econômico-financeiros – que praticamente assumem vontade própria –, e da ciência do século XX, que trouxe problemas nunca antes sequer passiveis de serem pensados, como as dificuldades para o pensamento ético que envolvem o mapeamento genético e as antropotécnicas. O que Nietzsche percebeu foi o momento inicial de um processo do qual ainda fazemos parte. E, para aqueles que lidam com o estudo acadêmico em filosofia, é possível pensar com Nietzsche sobre o que afinal determina o sentido do que se está fazendo ao legitimar a pesquisa filosófica exclusivamente a partir do tratamento erudito da história da Filosofia.

Bibliografia

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NIETZSCHE, F. Schopenhauer Educador. In: Escritos Sobre Educação. Tradução de Noéli Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, 2002.

______. Sobre el Porvenir de Nuestras Escuelas. Trad. Carlos Manzano, 2ª. ed.  Madrid: Tusquets, 1980.

SCHLEIERMACHER, F. Gelegentliche Gedanken Über Universitäten in Deutschen Sinn in Schriften. Frankfurt: Deutscher Klassiker Verlag, 1996.

Publicado em 2 de março de 2010

Publicado em 02 de março de 2010