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Saindo do casulo

Mariana Cruz

Certo dia, um homem estava no quintal de sua casa e observou um casulo pendurado numa árvore. Curioso, o homem ficou admirando aquele casulo durante um longo tempo.
Ele via que a borboleta fazia um esforço enorme para tentar sair através de um pequeno buraco, sem sucesso. Depois de algum tempo, a borboleta parecia que tinha desistido de sair do casulo, as suas forças haviam se esgotado.
O homem, vendo a aflição dela para querer sair resolveu ajudá-la: pegou uma tesoura e cortou o restante do casulo para libertar a borboleta. A borboleta saiu facilmente, mas seu corpo estava murcho e as suas asas amassadas.
O homem, feliz por ajudá-la a sair, ficou esperando o momento em que ela fosse abrir as asas e sair voando, mas nada aconteceu.  A borboleta passou o resto da sua vida com as asas encolhidas e rastejando o seu corpo murcho. Nunca foi capaz de voar…
O homem então compreendeu que o casulo apertado e o esforço da borboleta para conseguir sair de lá eram necessários para que o fluido do corpo da borboleta fosse para as suas asas para fortalecê-las e ela poder voar assim que se libertasse do casulo.

Nesta pequena história que circula pela internet a metáfora é clara: na ânsia de ajudar, acabamos prejudicando seriamente a pessoa que mais queremos bem. O amor, o cuidado, o zelo são sentimentos positivos, mas quando exercidos em demasia podem tornar-se danosos. Isso acontece nos mais variados tipos de relação pessoal. Um de nosso colaboradores, o professor e escritor Pablo Capistrano, em seu texto Amor do mal, publicado na revista analisa, no filme Cisne Negro, a superproteção de uma mãe sobre sua filha, uma aparentemente frágil bailarina. Trata-se de um amor aprisionador, que faz com que a filha se rebele contra ele a duras penas – literalmente. Mas, diferentemente da borboleta no casulo, o caso da película parece mais grave: a mãe nem quer ajudar a filha a sair do casulo; ao contrário, fortalece ainda mais o tal receptáculo, torna-o mais sólido, com paredes mais espessas, para que nunca seja rompida, no intuito de fazer com que a borboleta (cisne negro?) sequer venha a existir.

Qualquer livro de autoajuda lembra que temos que estar sempre vigilantes em relação aos nossos sentimentos vis: inveja, ciúme, raiva, para não deixar que tomem conta de nós. Já que a maioria de nós não sabemos como extirpá-los de nossas vidas, domá-los é o desafio. Essa luta contra nossos instintos mais primitivos acaba ofuscando a parcimônia que se deve ter também em relação aos sentimentos ditos nobres. A vigilância é constante. Excesso de amor, cuidado, proteção também pode ser prejudicial. O amor que liberta também pode sufocar.

Um famoso causo de família – sempre lembrado por minha mãe quando quer chamar atenção sobre uma atitude exagerada – ilustra bem esse tema: trata-se da história de uma tia avó que, quando criança, ganhou um carneirinho; na ânsia infantil de cuidar do filhote, deu-lhe uma enorme mamadeira para beber. O pobre bicho insaciável mamou, mamou, mamou até que... Pimba: morreu empanzinado. A menina ficou desolada e precocemente pagou o alto preço da desmedida.

Apesar de ter crescido ouvindo tal relato, diversas vezes me peguei cometendo excessos afetivos nas situações mais triviais, mais cotidianas. Dia desses, montando um quebra-cabeça com minha filha, vendo que ela pegava a peça certa, mas não conseguia encaixar, o impulso materno me levou a tirar a figura de sua mãozinha e colocar no lugar certo. E a cada dificuldade que ela demonstrava eu repetia o ato. Quase ao fim do jogo dei-me conta de que tinha montado praticamente tudo, relegando à minha pequena o papel de mera espectadora. A agonia de vê-la tentando executar uma tarefa sem sucesso fez com que tirasse dela o direito de brincar, de tentar, de errar e de acertar. Ao me dar conta disso, das vezes posteriores, deixei-a completar sozinha o jogo, atando minhas mãos em um laço imaginário. A ajuda passou a ser mais escassa e feita apenas oralmente, na forma de uma sugestão de encaixe. A brincadeira tornou-se bem mais longa e mais prazerosa. E agora ela monta sozinha sem que eu dê um pitaco sequer.

Esse misto de proteção e afeto ofuscou-me a visão. Vejo por aí que isso é recorrente. São muitos os pais (avós, tios, professores etc.) que, por receio de que as crianças se machuquem, não as deixam correr, pular, arriscar. Sem saber, estão colaborando para que se tornem pessoas medrosas. Assim como a Chapeuzinho Amarelo, protagonista do livro homônimo de Chico Buarque, que tinha medo de tudo, “mas que de todos os medos que tinha o medo mais que medonho era o medo do tal do LOBO”, e somente depois que se depara com ele consegue parar de temê-lo.

A busca do equilíbrio entre o amor que sufoca e o descaso é uma atividade perpétua. Aos pais cabe a complicada tarefa de estimular os pequenos a resolver suas coisas de forma cada vez mais independente, deixá-los fazer um grande esforço para sair do casulo através do próprio esforço, pois só assim terão asas firmes.

De todo modo, os pais devem estar vigilantes para saber avaliar aqueles casos em que o filho demonstra estar passando por uma situação além de suas forças, como se estivessem diante de um quebra-cabeça complexo demais para a idade. O que fazer quando os pequenos estão encrencados? Um bom exemplo disso foi-me relatado certa vez por uma amiga. Contou-me sobre um problema que a filha, então com sete anos, vinha passando no transporte escolar. No percurso até a escola, as meninas mais velhas pediam que ela lhes desse um dinheiro para comprarem salsichão na cantina, e lá se ia a semanada que a mãe lhe dava para o lanche. Os dez reais, que eram para ser gastos no decorrer dos cinco dias de aula, na terça-feira já não existiam mais. A mãe, atenta, observou o perdularismo repentino da filha e apertou-a para dizer o que a estava acontecendo. A menina, que chama a atenção pela beleza (quem disse que só os desajeitados sofrem bullying?), relatou a situação à mãe. Apesar de não haver violência física nem agressão verbal, a forma intimidadora com que pediam o dinheiro fazia com que cedesse. A mãe disse para a filha falar firmemente com as meninas que não daria mais dinheiro a elas, porque sua mãe havia dito que não era para fazê-lo. Caso não fizesse isso, ela não receberia mais sua semanada, pois parecia não estar lhe fazendo falta. Por medida de segurança – ou até mesmo para dar mais segurança à pequena – perguntou-lhe se ela achava que era capaz de resolver o caso sozinha. Diante da afirmativa da filha, restava-lhe esperar para ver o desenlace. No dia seguinte, ao ser abordada pela gangue do salsichão, a menina virou-se para a líder da turminha e disse que não daria o dinheiro, pois sua mãe disse que não era para dar; a bully então insistiu: “só que sua mãe não está aqui!”. A menina prontamente respondeu: “mas eu sou obediente”. E, segundo descreveu depois, falou “olhando bem nos olhos” da comilona. Dessa forma, nossa pequena heroína fez com que as ameaças cessassem. Poderia não ter dado certo. A mãe, porém, estava ciente do que se passava, e, caso as intimidações continuassem, outras estratégias seriam usadas a fim de que a menina conseguisse dar cabo de tal situação.

E assim mais uma borboleta se preparara para sair do casulo.

Publicado em 29/03/2011

Publicado em 29 de março de 2011