Este trabalho foi recuperado de uma versão anterior da revista Educação Pública. Por isso, talvez você encontre nele algum problema de formatação ou links defeituosos. Se for o caso, por favor, escreva para nosso email (educacaopublica@cecierj.edu.br) para providenciarmos o reparo.

Barradas no baile

Mariana Cruz

Em um recente post de seu blog, a jornalista e colunista social Hildegard Angel falou sobre a festa de 14 anos do filho mais novo de um brasileiro que figura entre os homens mais ricos do mundo. Exceto pela riqueza do herdeiro, qual seria o interesse em relatar uma festinha de adolescentes, se há tantos eventos sociais de gente grande e de atores globais bombando na sociedade carioca? Somente o peculiar fato de que, devido ao excesso de menininhas se acotovelando para entrar na festa, utilizou-se um critério de seleção um tanto quanto primitivo (tosco?) para escolher quem entrava e quem ficava de fora, como se vê já no título do post: “Em festa do filho do Eike menina feia não entra!”. De acordo com a jornalista, a execução da tarefa deu-se de forma bastante simples e direta: os meninos apontavam e diziam: “Essa entra, essas não”, e os seguranças cumpriam as ordens.

Primeiro me compadeci das meninas que, todas arrumadas, cabelos com escova, foram vetadas na porta; depois mudei de opinião, fiquei com pena das que entraram, pois, segundo a colunista, eram cerca de 20 meninas para cada 3 garotos (será que todos eles também eram bonitões?). Não devia estar lá a melhor das festas.

Depois me compadeci dos meninos: escolher as integrantes de uma festa com se escolhe um tênis não é lá uma atitude das mais excitantes.

Mas depois suspendi meus juízos morais com dois famosos chavões: “quem tá na chuva é pra se molhar” e sua versão negativa mais contemporânea (para as que ficaram tristes por terem sido barradas no baile): “quem não sabe brincar não desce pro play”.

Conversando sobre o assunto com uma amiga, ela deu cinco interpretações ao ocorrido, usando a ótica de diferentes personagens:

  • A espírito de porco: “você só ficou "mexida" porque não entraríamos na festa”.
  • A espiritual: "perdoai-os, Pai, eles não sabem o que fazem".
  • A política-esperançosa: “um dia isso irá acabar”.
  • A fã de Vinícius: “que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental”.
  • A marxista: "feias do mundo, uni-vos".

Comecei a pensar polianamente em como transformar tal processo de seleção em algo positivo: em relação à posição “marxista”, trocaria o nome para “pragmática-sublime”, que é o que muitas pessoas fazem, seja através das mídias sociais, em que os feios (leia-se “os que não se enquadram no padrão de beleza vigente”) se unem com outros que têm sentimentos afins e criam sua cena, sua cultura, como acontece com os ditos nerds, alternativos, indies, que, ao invés de ficarem se lamentando por não serem incluídos em determinados meios, sublimam tais preconceitos expondo suas ideias, criando novos conceitos. Isto é, fogem do que está em evidência e acabam buscando algo novo e interessante; aí por vezes viram pop.

Em relação à versão “fã de Vinícius”: será que lá no fundo, apesar do abismo intelectual entre o poetinha e os amiguinhos do garoto, há um ponto em comum entre tais posições – a condição sine qua non de aceitação das fêmeas ser a beleza? Aí me vem a pergunta: será que o parceiro de Tom vetava em seus saraus a presença das moças menos dotadas de traços físicos harmônicos? Ou será que após umas boas doses uísque não só as desprovidas de beleza como todo o resto do mundo ficava mais bonito? Por outro lado, Vinícius, um eterno apaixonado pelas mulheres, parece que não interpretava a beleza de forma tão simplista quanto os garotos da festa. Senão não seria o autor da frase “não há nada mais lindo do que as feiurinhas da pessoa amada”. Assim Vinícius se redime de qualquer preconceito estético que possa ter, uma vez que a beleza para ele está diretamente atrelada ao amor, sentimento que faz com que os amados sejam os mais belos aos olhos de seus amantes, independente da quantidade de imperfeições que apresentem.

Quanto à versão espiritual, me parece que, apesar da pouca idade, eles sabem, sim, o que estão fazendo. Pode não parecer a coisa certa do ponto de vista ético, excluir pessoas por causa da aparência, mas é o critério que escolheram. Isso me faz lembrar do filme A vida é bela. Não sei se foi bem assim, mas, pelo que me recordo – vagamente –, era uma cena em que o filhinho judeu não entendia por que um estabelecimento tinha uma placa que proibia a entrada de judeus e cavalos. O pai, evitando mostrar ao filho que eram vítimas de preconceito, retrucou, em tom de brincadeira, que cada um poderia proibir quem quiser de entrar em um lugar, como se fosse o jogo, e fingiu ler em outra placa “proibida a entrada de aranhas e otomanos”. E assim o menino não se sentiu atingido. Por que não fazer uma festa onde só poderiam entrar pessoas com sardas? Ou, quem sabe, um evento em que gente com nariz arrebitado fosse vetada?

Em relação ao tópico político-esperançoso, apesar de crer no desenvolvimento da raça humana, acho que em todos os tempos o homem foi amante da beleza. Por que mesmo começou a Guerra de Troia? Recordemos: os deuses não convidaram a deusa da Discórdia para um banquete (não aprenderam que isso sempre dá problema? Com a Bela Adormecida aconteceu o mesmo); ela resolveu vingar-se e, depois de umas reviravoltas, foi entregue a Páris, um pastor das redondezas, uma maçã de ouro (um pomo) com a inscrição "Para a mais bela". As três deusas mais poderosas (Hera, Afrodite e Atena) entraram na disputa pelo pomo (daí a expressão “pomo da discórdia”), e o pobre rapaz teve de escolher qual delas merecia o prêmio. A importância da beleza neste mito é mostrada não só nessa passagem como quando, dentre todas as ofertas feitas pelas divindades (o poder, a riqueza, a honra), o moço opta pelo amor da mais bela mulher do mundo. Ou seja: essa fixação pela beleza não é uma prática da contemporaneidade. O problema é a rapidez com que os padrões vem mudando, como tudo. Basta ver como eram as musas do caranaval de vinte anos atrás e compará-las às de hoje em dia, como mostra a matéria da Veja sobre como as beldades carnavalescas incharam de uns tempos para cá, com coxas similares às dos jogadores de futebol. Todos que querem ser bonitos de acordo com o padrão de seu tempo vão atrás dessa corrente, sem se preocupar muito com seu interior; nem mesmo têm opinião se é bonito ou não o que a moda dita. Tanto assim que, nos anos de 1980, o charme era ter cabelo como o dos integrantes da Blitz. Hoje em dia, a chapinha e a escova progressiva é que estão em voga.

Quanto ao tópico inicial, creio que seríamos barradas na tal festinha, muito provavelmente pelo look riponga que tínhamos, com os cabelos desalinhados e as espinhas aparentes. Mas, por outro lado, nunca teríamos saco de ir a uma festa dessas!

Publicado em 19 de abril de 2011

Publicado em 19 de abril de 2011