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Rio: animação maravilhosa

Gabriel Cruz

Animador, professor da Universidade Veiga de Almeida

O que faz um filme de animação ser classificado como bom? Essa foi uma das perguntas que vieram a minha cabeça nos últimos meses, desde as primeiras imagens de divulgação de Rio, filme produzido pela Blue Sky e dirigido pelo brasileiríssimo Carlos Saldanha.

Essa preocupação nasceu, entre outras coisas, pelo grande frisson causado tanto pela mídia quanto pelos fãs de animação. Muitos ficavam impressionados ao ver imagens de locais do Rio de Janeiro, como o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, o calçadão de Copacabana, o Jardim Botânico, o Sambódromo e tantos outros pontos da Cidade Maravilhosa reconstruídos em computação gráfica. Temia que Rio fosse considerado um ótimo filme apenas por sua técnica e que sua história (pouco divulgada) não fosse tão boa assim.

Mas o temor já caiu por terra nos primeiros minutos de filme. Rio não falaria apenas de samba e Carnaval (forma escolhida por Disney para apresentar a Cidade Maravilhosa ao mundo na década de 1940), mas também viria tratar de outros assuntos importantes, como a preservação das espécies e até mesmo de questões de natureza social.

A história é simples: Blu, última arara azul da espécie, foi levado por traficantes de animais do Rio de Janeiro para a cidade de Minnesota, EUA. Criado durante anos por sua dona Linda e vivendo uma vida confortável, é descoberto por Túlio, um biólogo brasileiro que vê nele a esperança de manter a existência da espécie. É nesse momento que Blu deixa sua vida confortável de Minnesota e volta, junto com Linda e Túlio, para o Rio encarar Jewel, a última fêmea da espécie, que não aguenta a vida no cativeiro e luta para voltar à floresta. Nesse momento, as duas personagens, de vida e pensamento bastante distintos, passam a ter que conviver e aprender a entender as diferenças de cada um.

Aí Carnaval e samba dão espaço a uma nova perspectiva na trama. O Rio de Janeiro é uma cidade de altos contrastes sociais e étnicos; existe lugar melhor para aprender a conviver com as diferenças? Para ajudar a trabalhar esses contrastes, Saldanha separa Linda de Blu, dividindo a narrativa em duas visões: a de Linda, tentando resgatar seu animal de estimação, e a de Blu, tentando reencontrar sua dona.

Só que, enquanto Blu vivencia a saga pela Floresta da Tijuca, voar de asa delta pela Zona Sul, ir ao calçadão de Copacabana e passear de bonde em Santa Teresa, Linda conhece um menor abandonado, passeia pelas favelas, anda de mototáxi, come coração de galinha e desfila pela Marquês de Sapucaí. O Carnaval deixa de ser o protagonista e se torna um mero instrumento para ajudar na transformação de ambos até que suas aventuras voltem a ser uma só. Essa transformação é bem comum nas sagas baseadas na Jornada do Herói, de Joseph Campbell, que Saldanha, mesmo repetindo a fórmula já batida, adapta de forma genial.

A cada nova cena que vai sendo apresentada, o carioca vai aos poucos descobrindo e redescobrindo sua cidade, suas paixões, e até mesmo começa a refletir sobre diversas questões que vão sendo apresentadas no filme: a questão do tráfico de animais (e, no fundo, não podendo esquecer das drogas); a vida nas comunidades; uma cidade tão bonita e ao mesmo tempo tão desconhecida por seu próprio povo; os contrastes sociais; o Carnaval como manifestação cultural que une toda a cidade contra o Carnaval que aliena... enfim, são tantos os debates que podem ser gerados que é incrível notar que ele o faz sem deixar de divertir (e muito!) o espectador.

Alguns puristas podem chamar atenção para alguns fatos, como as araras terem quatro patas e não três, como no filme; algumas espécies de pássaros que aparecem não serem nativas do Rio de Janeiro; o avião de Minnesota pousaria no Galeão, e não no Santos Dumont; a impossibilidade de qualquer carro entrar aleatoriamente no desfile das escolas de Samba. Mas vale lembrar que Rio, por mais que tenha cenário de vida real, é uma ficção. E mais: é um filme de animação. O que se passa não são erros, mas sim adaptações para tornar a história mais interessante ou até mesmo um pouco menos trabalhosa (afinal de contas, muitos personagens animados têm quatro dedos para facilitar a vida do animador, e o público em geral aceita isso muito bem).

Por fim, Rio é um filme de animação que marca a nossa história no cinema. Saldanha não se apresenta apenas como um diretor brasileiro, mas como um brasileiro que, já consagrado como diretor, resolve mostrar ao mundo, com todo orgulho, as suas origens. E de rebarba deixa a todos nós, brasileiros (principalmente os cariocas), muito orgulhosos!

Ficha técnica do filme:

  • Diretor: Carlos Saldanha
  • Elenco: Vozes de Anne Hathaway, Rodrigo Santoro, Jammie Foxx, Jesse Eisenberg, George Lopez, Jake T. Austin, Carlos Ponce, Kate del Castillo, Bernardo de Paula
  • Produção: Christopher Jenkins
  • Roteiro: Don Rhymer, Joshua Sternin, Jeffrey Ventimilia, Sam Harper
  • Fotografia: Renato Falcão
  • Trilha sonora: John Powell
  • Duração: 105min
  • Ano: 2011
  • País: EUA
  • Gênero: Animação
  • Cor: Colorido
  • Distribuidora: Fox Film
  • Estúdio: Blue Sky Studios / Twentieth Century Fox Animation
  • Classificação: Livre

Publicado em 19/04/2011

Publicado em 19 de abril de 2011