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Bullying – retrato da situação

Alexandre Amorim

Vamos brincar com algumas palavras. A brincadeira é descobrir significados quase escondidos nelas. Por exemplo, a palavra “prepotência”. O prefixo latino prae quer dizer à frente, antes. A palavra potência está ligada a poder, força. Assim, podemos dizer que prepotência é a qualidade de poder absoluto, um poder dado a priori – uma força absoluta. Isso quer dizer que o prepotente é aquele que se acha poderoso por si só. Conhecemos histórias de reis e governos assim – são os chamados absolutistas ou déspotas. São os tiranos.

Agora vamos brincar com uma palavra inglesa que passou a ser usada por nós nos últimos anos, bullying. Em inglês, utiliza-se o sufixo ing para determinar o verbo no gerúndio – quer dizer, algo que continua acontecendo. Assim, a palavra bullying pode ser decomposta e descobrimos que bull é sua raiz. Bull, em inglês, significa touro, que é sinônimo de força (é comum a gente ouvir que “fulano é forte como um touro”). O sinônimo é tão profundamente arraigado que a própria palavra bull também pode significar “forçar”.

Assim, bullying é geralmente traduzida como coerção, assédio ou intimidação. É um abuso do “poder”, da força que alguém tem. É a “prepotência do touro”, que usa seu poder apenas porque assume que esse poder pode ser usado a seu bel-prazer. Mas é fundamental notar esse sufixo ing que determina o gerúndio – a continuidade da ação. Bullying é a intimidação, a coerção ocorrendo continuamente.

E por que eu defendo aqui a importância de ver essa ação como contínua?

Porque o bullying é uma forma de poder. É a coerção vinda do prepotente, mas só se torna real se essa força tiver um resultado contínuo. Uma ameaça ou um xingamento não se torna forma de poder se o agredido não se submeter a ela como uma verdade que o oprime. O agredido não pode aceitar aquela agressão como algo que o impeça de viver sua vida livre do medo – ou seja, não pode deixar que a agressão se torne ameaça. Ameaça é a agressão em continuidade, porque torna a vida do agredido um eterno pesar entre o medo de ser agredido no futuro e a angústia de ter sido agredido no passado.

A ameaça da força arrogante e presumidamente possível – porque o touro presume que sua força pode ser usada a qualquer momento – é que torna o bully, o ameaçador, um tirano que se vê dono da situação. E o bullying ocorre porque esse ameaçador considera que aquela situação é real – ele é mesmo o dono, o déspota, o tirano.

E a situação se mantém porque quem sofre a tirania está obviamente incapaz de reagir. Seja por ter menos força física, seja por estar emocionalmente incapacitado ou até mesmo por estar em circunstâncias que o impedem de reagir. Há duas cenas do filme Em um mundo melhor que merecem atenção: a primeira, em que o pai não reage à agressão, provavelmente porque não é da sua natureza e porque está cercado pelos seus filhos. A segunda, quando o pai vai até o local de trabalho do agressor e resume, com maestria, a razão do abuso de força: o agressor só o fez porque “pode” fazê-lo. A agressão só acontece porque o agressor se sente capaz de realizá-la. E não é capaz de saber escolher entre usá-la ou não. O agredido também está incapaz – não pode reagir. Mas é dado a ele o benefício da dúvida: ele reagiria de modo tão estúpido quanto o agressor, se fosse capaz?

Se a criança, o adolescente ou o adulto que se utiliza do bullying deve ser tratado como doente ou neurótico, é uma discussão maior do que pretendo tratar aqui. Esta crônica só quer mostrar o panorama da situação: um tirano que se acha no direito de perpetuar sua tirania através da intimidação, em um momento em que o oprimido é incapaz de reagir de qualquer forma.

Publicado em 03/05/2011

Publicado em 03 de maio de 2011