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“Injustiça e dor é o que tem por aqui”

Prof. Dr. Eduardo Marques da Silva

Não temos dúvidas de que a combinação “miséria & injustiça social” só resulta em uma química maléfica e macabra para todos nós. Garapon fala da “fragilização suplementar da justiça”; diz que a igualdade de armas não existe na mídia, parece até pouco. Ela oferece um prêmio àquele que não só conta a melhor história, mas também a conta melhor. Ela reforça o efeito de verdade em detrimento da verdade, a sedução em detrimento da argumentação. Jacques Verges não faz mistério da utilização da mídia numa estratégia de defesa. Ele insiste em defendê-la para o advogado; escreve então dizendo que é apresentar, com os mesmos fatos que servem de suporte à acusação, outra história tão falsa e tão verdadeira quanto a primeira. E convencer juízes e jurados de que a sua é a verdadeira. Não se trata, porém, de contar qualquer história. Diz ele que é preciso descobrir aquela que dará sentido ao destino do criminoso ou do seu processo, e a maioria dos daqui são marcadamente afrodescendentes. E ainda mais: pelo menos sobre o plano estético, diz também que as chances estão do lado da defesa, sempre.

A mídia ameaça tornar ainda mais delicada a fragilidade do discurso judiciário, o qual, não podendo provar, visa, no entanto, a convencer. Subtraindo-se ao Direito, a mídia corre o risco de converter-se ao instrumento de uma relação de força. O jornalista transforma, de bom grado, o inquérito judiciário num duelo simbólico entre o juiz de construção e o acusado, no qual o arbitro é ele, o jornalista. Acaba sendo uma vitória da manipulação.

Deformados como fomos pela longeva fase da escravidão, não poderíamos esperar coisa diferente na pós-escravidão que vivemos. É a ordem do diferente, uma nova hominiscência que surge nas favelas. Um quadro de avesso/anverso social e sociocultural autônomo que afronta nossa miscigenada ordem social. Foi e assim tem sido mesmo por toda a sua história social e sua historiografia.

Injustiça e dor é o que tem por aqui.
Crianças sem controle, sem o valor da vida, comunidade chora.
Mocidade perdida.
Mais ainda tem malandro que chega tarde em casa
Implora à patroa:
Por favor me perdoa!
Pra ficar numa boa
Ensaboa a mulata, ensaboa (Arlindo Cruz, Amor à favela).

Transformações do recente impacto tecnológico, tanto quanto de um mundo globalizado em que vivemos no terceiro milênio, trazem talvez uma nova hominiscência (Serrer, 2003) para todos. Uma nova humanidade moderna de um país nascido “à sombra da cruz”. Um país incapaz até agora de formar uma sociedade plenamente justa. Pelo contrário, ela se apresenta eivada de complicações relacionais. O tempo presente nos convida a um pensar socialmente mais efetivo. E ainda mais no que tange à formação de uma microcriminalidade, responsável pela formação de uma nova corporificação social e sociocultural autônoma lateralizante e irresponsável nas formas de se comportar entre os da ordem, formando corpos sociais e socioculturais autônomos.

Principalmente aqui no Rio de Janeiro das favelas, com identidade sociocultural no velho samba, que configura o seu mais simbólico tudo de herança sociocultural. E que ainda vive carnavalescamente de galhofas, burlando sempre os hábitos de conjunto também corpóreo oficial de maneira sempre desigual, ilegal. Quase sempre aterrorizando-nos ou, às vezes, até convocando nosso mais profundo sentimento de pena, fruto de nossa sempre presente compaixão, ostentando uma ordem do outro que se apresenta não só como um desafio à polícia, mas também à escola e a todas as instituições públicas relacionadas direta ou indiretamente com a protoformação de uma moralidade praticada em seu interior, talvez fruto de uma forma de “moralina”, como classificou o sociólogo Maffesoli (1996). É por essas e outras razões que se tem usado mais da inventiva e lançado mão o mais rapidamente possível, para que consigamos criar o verdadeiro latecomer. Temos que soterrar de vez nossas práticas miméticas e navegar definitivamente no barco da criatividade. Urge sairmos dessa “tempestade negra” para assumir definitivamente a nossa parcela de culpa em tudo isso.

Não se pode pôr de lado as abordagens sérias de tais fatos. A desocupação, a vadiagem, o crime do criminante eventual ou contumaz representam em conjunto a deterioração dos tentáculos do Estado que conhecemos. Como diz o samba de Arlindo Cruz,

Hoje tudo é segredo, e circula o medo, em cada viela.
Hoje o morro tem dono, também tem disputa,
Um total abandono, filhos que vão à luta,
Gente que não se cansa, poesia esperança e amor à favela.

Principalmente as comunidades pobres de favelas e palafitas (Zaluar, 1994) convivem quotidianamente com os desafios da sobrevivência junto às pequenas e grandes criminalidades, que impõem regras novas e próprias. Tal fato não ocorre somente nas grandes cidades, mas especialmente no município e no local. Devemos estar alerta também para a flutuação das mutações sociais. Certamente são causadoras das desordens na sociedade da ordem. São modificadoras dos espíritos obreiros e produtivos das pessoas verdadeiramente cidadãs. A sociedade e suas instituições não podem acabar reféns do mandonismo tirânico local de uma desordem criminosa.

Como dizia Hegel, “monoteísmo da razão e do coração, politeísmo da imaginação e da arte: é disso que necessitamos”. Será mesmo que ele, em 1797, ao pensar tal coisa, estaria correto e coerente? Caso olhássemos para a história do tempo presente, eivados da mistura de razão concreta com a surpreendente razão sensível, ficaríamos com a pergunta no ar: será que ele estaria coerente hoje em dia? Não pode ser como se estivéssemos autistas e permanecêssemos trilhando nossas “trajetórias de composição corpóreas socioculturais”, inertes a tudo, sempre a transferir problemas, como se nada pudesse ser feito. Mas tal comportamento pode não ter muita objetividade. Talvez seja mesmo como afirma o samba, que, apesar da malandragem poiética expressada,

Injustiça e dor é o que tem por aqui.
Crianças sem controle, sem o valor da vida, comunidade chora.
Mocidade perdida. Mais ainda tem malandro que chega tarde em casa,
Implora à patroa:
Por favor me perdoa! (Arlindo Cruz, Amor à favela).

Talvez seja mesmo um novo caminhar que se apresenta extenuante para os do poder. Uma efetiva inclusão social e sociocultural cidadã da ordem exigirá muito trabalho. A vida do favelado tem sido marcada, como diz o samba cantado por Zeca Pagodinho, por muito “suor pingando no pé”. Leonardo Da Vinci afirmou: “conceber uma ideia é sempre nobre, executar o trabalho que ela exige é sempre servil”. É bom que se saiba que ninguém chuta cachorro morto, não é? Ou chuta?

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Publicado em 24 de maio de 2011

Publicado em 24 de maio de 2011