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Um elogio do elogio

Mariana Cruz

Elogiar de verdade poucos sabem. É visível a dificuldade que se tem de elogiar o outro, de enxergá-lo, de admirá-lo e de conseguir dizer isso a ele. Convenhamos que, para muitos, falar mal é bem mais fácil e atraente, pois o lado ruim sempre se sobressalta. Em uma sala de aula onde todos os alunos são bons, exceto dois que são umas pestes, o que irá sobressair quando essa turma for analisada no conselho de classe? Se você apresenta um trabalho e todos acham ótimo, mas uma pessoa faz severas críticas, o que vai atrair seu pensamento?

Tenho um exemplo particular disso; foi em uma pós-graduação que fiz. Em todas as matérias tirei nota máxima, menos em uma. Ao invés de ficar feliz pelo bom resultado, só conseguia ficar remoendo o porquê de não ter tirado nota máxima naquela também. Ficava mentalmente dizendo que a culpa era do professor, que ele não havia entendido o que eu queria dizer; enfim, estava dando grande importância para o que não tinha saído perfeito e desvalorizando o bom resultado total. Depois cheguei à conclusão de que, de fato, o desempenho naquela disciplina não tinha sido tão bom.

É como certas profissões em que só o erro aparece, tal qual o trabalho de revisor: o cara pode ser ótimo, excelente, quase infalível, mas é humano; sendo humano, vez ou outra deixa escapar um erro. E é justamente esse erro, entre as milhares de correções que ele fez – e que ninguém notou –, é justamente esse exíguo erro que irá sobressair. A maternidade também traz algo similar. Se o filho está ótimo, sem nenhum arranhão, gripe, assadura, não é birrento, a mãe não está fazendo mais do que a obrigação (as pessoas não entendem o esforço que isso representa); mas se a cria leva um tombo ou pega uma chuva e se resfria, aí a todos os dedos apontam para a mãe: “culpada!”. As mães que caem nessa armadilha padecem em um paraíso repleto de culpa e amor. Nada mais materno.

Se a pessoa fez um bom trabalho, parou de fumar, foi muito bem em uma prova, é provável que os elogios venham em conta-gotas; entretanto, se a pessoa falhou, voltou a fumar, engordou, as críticas vêm em enxurrada (ou então em palavras de falso consolo saídas de bocas cheias de peçonha). Além da dificuldade de fazer um elogio, muitos dos que são proferidos são vazios de significação. Não basta elogiar, deve-se saber como fazê-lo. Existem diversos tipos de elogios: desde aquele banal, superlativo (do tipo “você é o máximo”, que não quer lá dizer muita coisa, afinal o que significa ser o máximo? Ser Deus?) até o elogio fundamentado em um ato ou uma característica singular do sujeito que faz por merecê-lo, elogio que o sujeito provavelmente irá levar muito mais a sério do que ter sido chamado de “o máximo”.

A justa medida também cabe no que se refere aos elogios: nem de mais, nem de menos. A maneira como se elogia deve ter seus limites. Considerar a pessoa o melhor dos seres, o mais incrível, quase um super-herói pode criar uma exagerada autoconfiança no elogiado que talvez cause o efeito contrário, isto é, o elogiado pense que aquele lugar no topo é vitalício e de direito e passa a não se esforçar mais para nada. Ou então, por medo de sair desse local, ele não tenta voos mais altos para não falhar. O excesso de elogios pode ser algo difícil de trabalhar quando não se está preparado para eles, como ocorre com muitas pessoas que tiveram sucesso – mulheres belas que envelheceram (na mídia, envelhecer é sinônimo de feiura, sobretudo para as mulheres), atores que não são mais chamados para atuar, cantores que pararam de vender discos e de fazer shows – e que não conseguem lidar com a falta dos elogios que as alimentavam no auge do sucesso; muitas delas falam apenas dessa época de ouro, como se suas vidas tivessem sido interrompidas lá. E aí o roteiro já é conhecido: dívidas, álcool, drogas, depressão...

Tais pessoas estavam acostumadas com o elogio adulador e acham que não sabem fazer mais nada. Querem o status de volta. Mas não é o status que importa, e sim a atividade. As pessoas podem continuar ativas e cuidar de si sem a necessidade de colocar a aprovação alheia como motor de suas vidas.

Isso não significa que elogios não devam ser feitos; devem sim, mas da forma apropriada. Não elogiar alguém que mereça pode ser desestimulante, como se todo o esforço não tivesse sido reconhecido, como se não tivesse valido de nada ter feito uma boa prova ou um bom trabalho.

Marcos Meier relata em seu texto Elogie do jeito certo uma experiência feita com dois grupos de crianças incumbidas de realizar uma tarefa. Ao término da atividade, um dos grupos foi elogiado quanto à inteligência dos indivíduos (“como você é inteligente!”); o outro grupo foi elogiado quanto ao esforço de cada um (“gostei de ver o quanto você se dedicou na tarefa!”). Depois, uma nova tarefa foi proposta, mas as crianças podiam escolher se queriam ou não cumpri-la. O resultado: a maior parte das crianças que teve a inteligência elogiada se recusou a fazer a segunda tarefa; as que tiveram o esforço elogiado aceitaram tentar. Meier afirma que a resposta está no fato de que

o ser humano foge de experiências que possam ser desagradáveis. As crianças “inteligentes” não querem o sentimento de frustração de não conseguir realizar uma tarefa, pois isso pode modificar a imagem que os adultos têm delas. (...) As “esforçadas” não ficam com medo de tentar, pois mesmo que não consigam é o esforço que será elogiado.

Assim, mal não fará deixar um pouco de lado a vaidade e orgulho e reconhecer um mérito alheio, elogiar de forma fundamentada quem merece. Isso pode até servir de incentivo para nós mesmos nos tornarmos pessoas melhores.

Publicado em 24 de maio de 2011

Publicado em 24 de maio de 2011